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A história real que inspirou o filme Central do Brasil

No aniversário de 90 anos de Fernanda Montenegro, conheça mais sobre o filme brasileiro indicado ao Oscar em 1999

Isabela Barreiros Publicado em 16/10/2019, às 16h51

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Reprodução

Fernanda Montenegro completa 90 anos nesta quarta-feira, 16. Primeira e única brasileira indicada ao Oscar de melhor atriz, a “grande dama” do cinema e da dramaturgia do Brasil foi Dora, uma professora aposentada que escrevia cartas ditadas por pessoas analfabetas, no longa-metragem de Walter Salles, Central do Brasil.

O filme foi indicado ao Oscar na categoria de melhor filme estrangeiro no ano de 1999. Naquele ano, Montenegro também foi indicada como melhor atriz, mas perdeu a estatueta para Gwyneth Paltrow que concorria pelo filme Shakespeare Apaixonado. Ainda assim, Central do Brasil recebeu inúmeros outros prêmios internacionais como o Globo de Ouro e o BAFTA.

A produção teve e ainda tem um impacto enorme na cena audiovisual brasileira. “Em sua trajetória única, — mas longe de ter sido unânime —, Central do Brasil exerceu um papel fundamental no processo de reinserção do cinema no coração da sociedade brasileira. Com ele, o cinema brasileiro voltou a ser motivo de celebração”, diz Pedro Butcher no livro Folha Explica— Cinema Brasileiro Hoje.

Josué (Vinícius de Oliveira) e Dora (Fernanda Montenegro) / Crédito: Reprodução

 

Socorro Nobre

O primeiro rosto filmado em Central do Brasil é o de Socorro Nobre. Ela aparece ditando uma carta para Dora, a professora que se coloca como intermediária entre pessoas analfabetas e os destinatários das cartas. Mas a personagem de Fernanda Montenegro, na verdade, é a própria Socorro na vida real.

A mulher foi presa em 1986 e permaneceu sete anos na cadeia, condenada como cúmplice no assassinato do seu próprio irmão. Durante seu tempo no cárcere, Socorro ajudava detentas que não sabiam escrever a redigir suas próprias cartas.

"Na prisão, preenchia meu tempo trabalhando na cozinha e fazendo cursos profissionalizantes. Quando sobrava um tempinho, escrevia as cartas das colegas. Minha mãe era analfabeta e sempre me pedia para escrever cartas para nossos parentes", comenta.

Em 1993, ao ler uma revista, ela encontrou uma reportagem sobre o escultor polonês Frans Krajcberg, que se naturalizou brasileiro durante sua estadia no país. Interessou-se por sua história e enviou-lhe uma carta. Ele respondeu. Os dois passaram a trocar correspondências por muito tempo e um dos bilhetes foi parar nas mãos do cineasta.

Socorro Nobre em Central do Brasil / Crédito: Reprodução

 

O contato de Salles com a história de Socorro transformou-se em um documentário, que leva o nome da mulher que escrevia cartas para as detentas: Socorro Nobre, lançado em 1995. E é aí que está a gênese de Central do Brasil.

"Foi uma homenagem a Socorro", diz o diretor do longa. A inspiração da personagem Dora está exatamente na ex-detenta. "Minha carta criou asas. Uma simples carta teve o valor de um bilhete premiado na Mega-Sena. Fico até assustada em perceber tudo o que essa carta fez. Ela abriu minhas portas, salvou minha vida — o Walter diz que mudou a vida dele também”, revela Socorro.

Outras histórias de Central do Brasil

O filme conta com outras histórias que, como a de Socorro, fazem parte de acontecimentos da vida real. Muitas pessoas narraram seus depoimentos a Dora, mas foi Salles quem levou as cartas aos correios tentando, de fato, entregar as palavras aos seus destinatários.

Em uma dessas correspondências, o diretor colaborou para um encontro de pai e filho. José Ferreira da Silva contou como seu filho havia sumido depois da sua mudança de Arcoverde, em Pernambuco, para Castanhal, no Pará. "Já faz quatro anos que ele saiu", diz o homem. "E não tem notícias, é isso?", pergunta Dora. "Não tem notícias", conclui Silva. 

O depoimento, através de Central do Brasil, chegou até o único cinema da cidade em que o garoto morava — e a carta enviada por Salles também. Reconhecendo o pai nas telonas e emocionado com o bilhete, o menino resolveu visitar o pai. O caso tornou-se reportagem na Revista Época naquele período.