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Rei do ringue: a nobre arte do boxe

No século 18, não havia limitação de tempo para os combates que só terminavam com a desistência ou inconsciência de um dos contendores

M. R. Terci Publicado em 29/03/2020, às 10h00

Imagem meramente ilustrativa de dois boxeadores
Imagem meramente ilustrativa de dois boxeadores - Divulgação/Pixabay

O boxe, também chamado de pugilismo, é um esporte muito antigo, mais antigo que as pirâmides. No Egito, por volta de 3000 a.C., era apresentado como uma atração, cujo propósito era entreter os convidados dos faraós durante os banquetes. 

A este propósito, convém insistir sobre um ponto que me parece essencial: o punho é a arma característica do homem e uma de suas maiores particularidades, visto que, na natureza, os animais abrem a pata para fustigar o contendor.  

Há, portanto, certa nobreza no ato do homem civilizado — e só ele — fazer uso dos punhos cerrados, como arma de ataque e defesa. Daí, ser a esgrima com os punhos consagrada como a nobre arte do esporte e da defesa pessoal. Diferente do xadrez, um esporte onde os reis devem fazer por merecer.  

Venham comigo, pelos caminhos mais escuros da história, subir ao ringue e ter ao alcance dos punhos, à distância de uma contagem de 10, o cinturão de ouro, que coroa um campeão mundial.  

Arte de ataque e defesa pelo uso dos punhos  

A palavra boxe deriva de uma expressão muito utilizada, entre os anos 1000 a 1850 d.C., na antiga Inglaterra; to box — bater com os punhos. 

Luis Resto desferindo um golpe em Billy Collins Jr. quase desacordado / Crédito: Divulgação

 

Mas determinar um começo específico para a história do boxe é esforço deveras hercúleo. Alguns historiadores considerarem a região da Etiópia, no continente africano, há coisa de 6000 anos, como o berço do boxe. 

Contudo, os primeiros registros da nobre arte datam de três milênios antes de Cristo. Ao sul do Iraque e também do Kuwait, arqueólogos encontraram vestígios de antigos ringues de luta sumérios, cercados por enormes estelas. Nesses enormes blocos de pedras, baixos-relevos ilustravam antigos combates, onde podemos discernir dois homens se digladiando com as mãos limpas, sem qualquer proteção. 

Por volta de 1500 a.C., essa modalidade de luta já era conhecida e largamente difundido na Grécia antiga, onde o esporte ganhou maior notoriedade. Nas arenas dos primeiros Jogos Olímpicos, por volta de 688 a.C., o esporte era disputado sem número de rounds ou limite de tempo. Os lutadores enfaixavam suas mãos com couro animal bastante maleável e a vitória pertencia àquele que permanecesse em pé. Na modalidade olímpica era permitido que o surrado se rendesse, para tanto bastava erguer o braço, uma formalidade inventada pelos helênicos.  

Civilizado, mas perto desses rounds gregos, o boxe moderno pareceria uma discussão entre filósofos. E, com a subjugação dos povos gregos isso ficaria ainda pior.  

Quando a Grécia caiu nas mãos dos romanos, no século 2 a.C., o boxe caiu no gosto do público romano. As faixas de couro macio, até então utilizadas para proteger as mãos dos lutadores e que de certa forma também preservavam a cara dos adversários, passaram por mudanças. Os romanos começaram a utilizar faixas de couro cada vez mais grossas.

De acordo com a preferência do público, essas faixas ganhavam adereços mais duros e resistentes e, com o passar dos anos, começaram a ser revestidas com pedaços de metal, transformando as luvas primitivas em armas perigosas chamadas caestus. 

O lutador que fazia uso dessa arma para luta o mano-a-mano era chamado pugil, palavra latina que deu origem ao termo pugilismo, modernamente, sinônimo de boxe. 

A esse tempo, quando muitos escravos eram treinados e fortalecidos apenas para esse tipo de competição, alguém teve a ideia de transformar o esporte num duelo mortal. As lutas da antiga Roma começaram a ser apresentadas em anfiteatros abertos e só terminavam com a morte de um dos gladiadores.  

Boxeador Mike Tyson / Crédito: Divulgação

 

Devido a violência dos espetáculos onde, não raro, as pessoas na arquibancada se feriam também, as arenas passaram a ser cercadas para garantir a segurança do público. Foi então que surgiu o nome ringue, nomenclatura que se mantém até os tempos de hoje.  

Sete séculos mais tarde, com a queda do Império Romano e a ascensão do cristianismo, dada sua brutalidade e violência, o boxe selvagem dos sangrentos ringues romanos começou a desaparecer, até derribar num hiato que duraria até o século 17.  

Das arenas romanas para as ruas inglesas 

Quando ressurgiu nas ruas de Londres no final do século 18, o boxe não passava de um combate de vale-tudo, onde dois homens se enfrentavam até um deles cair.  

Valia tudo mesmo. Chutar a cara do adversário caído, chaves de braço, estrangulamentos e golpes baixos eram permitidos e a todo tempo estimulados pelo povo que se reunia para assistir. Conhecido como London Prizefighting ou bar-knuckle boxing – algo como boxe de mãos nuas – era ilegal e as autoridades faziam o que podiam para coibir os eventos. 

Mas nessa época surgiu a possibilidade de apostar dinheiro nos lutadores e o esporte acabou caindo no gosto do público. A partir daí torneios passaram a ser organizados pelos agentes de apostas – bookmakers – que traziam seus campeões de todos os condados do Reino Unido e muitas vezes de outros países para as ruas de Londres.  

O londrino James Figg, considerado o pai do boxe atual, reinou como campeão de 1719 até 1730. James dominava também a técnica da luta com espada, adaga, bastão e porrete. Foi também o primeiro a anunciar publicamente o ensino do boxe, um dos responsáveis pela gradual evolução das técnicas e um dos primeiros lutadores a ganhar prêmios pelas lutas. A iniciativa de Figg, além de popularizar as sessões de sparring – indivíduo que, devidamente protegido, recebe os golpes do lutador nos treinos –, promoveu também a abertura de novos locais destinados à prática do esporte. Este boxeador teve a honra de ser representado por John Faber, um dos mais importantes gravuristas da época. 

Ainda no século 18, não havia limitação de tempo para os combates que só terminavam com a desistência ou inconsciência de um dos contendores. Era comum, inclusive, um lutador atacar o adversário mesmo quando caído.  

O primeiro lutador a contribuir para a sistematização esportiva do boxe foi Jack Brough. Jack, que foi campeão da Inglaterra entre os anos de 1734 e 1740, considerava rudes as técnicas de seus predecessores. Deu maior ênfase ao jogo de punhos e de pernas e formulou regras que regeram o boxe até 1838, quando foram substituídas pelo Código de Londres.  

Outro grande lutador do fim do século 18 foi John Jackson, conhecido como Gentleman Jackson. Conquistou o título inglês e foi o primeiro lutador a usar tecnicamente o jogo de pernas e de corpo. Gentleman Jackson fundou uma academia de boxe em Londres, introduziu no esporte o uso das luvas acolchoadas e atraiu para sua escola nobres e rapazes da elite social inglesa.  

Lord Byron refere-se a Jackson no poema Hints from Horace: 

“And men unpractised in exchanging knocks 

Must go to Jackson ere they dare to box. 

Whate'er the weapon, cudgel, fist, or foil, 

None reach expertness without years of toil.” 

Aqui tem regra 

Em 1865, o pugilista John Graham Chamber criou as Regras do Marquês de Queensberry, um conjunto de normas para prática do esporte moderno: 

1. Todas a lutas deverão acontecer em um ringue apropriado; 

2. Cada assalto deverá ter 3 minutos de duração, cada um com um intervalo de 1 minuto;  

3. Caso um pugilista seja derrubado, será realizada uma contagem de 10 segundos para ele se reerguer, sem auxílio de outras pessoas. Caso o atleta caído não consiga se levantar no tempo, o árbitro pode encerrar a luta e dar a vitória ao adversário; 

4. Os pugilistas deverão usar luvas de boxe, novas e de boa qualidade. 

A Inglaterra assim desempenhou papel fundamental na evolução do esporte, desde as regras escritas por Jack Brougton, em 1743, passando pelas London Prize Ring Rules, de 1838, chegando às Regras do Marquês de Queensberry, de 1867, pacote que deu origem às Regras Unificadas do Boxe e ao Muhammad Ali Boxing Reform Act, que rege o boxe nos dias de hoje.  

Entretanto, no período entre as lutas de Londres e o boxe moderno, a nobre arte perdeu credibilidade e principalmente popularidade por resultados arranjados e ligações com a Máfia, mas isso é outra história, para o próximo round 


M.R. Terci é escritor e roteirista; criador de “Imperiais de Gran Abuelo” (2018), romance finalista no Prêmio Cubo de Ouro, que tem como cenário a Guerra Paraguai, e “Bairro da Cripta” (2019), ambientado na Belle Époque brasileira, ambos publicados pela Editora Pandorga.


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