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Santidade na Igreja Católica: A Era dos mártires

Nos primeiros séculos d.C., cristãos foram perseguidos e mortos brutalmente por autoridades romanas.

Alexandre Carvalho Publicado em 21/07/2019, às 07h00

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Leões e tigres emergem de uma escadaria em primeiro plano, no centro do Circus Maximus de Roma. À direita, um grupo de dezenas de religiosos – de crianças a homens de idade – reza antes do destino inescapável: terão seus corpos estraçalhados, depois devorados pelas feras. Ao fundo, entre eles e o público, que enche a arena, uma imagem ainda mais devastadora: nove cruzes com pessoas cobertas de piche, sendo queimadas vivas.

O crime hediondo pelo qual essa gente comum está pagando – com a vida – por determinação do Império Romano: seguir uma nova religião, inspirada no rebelde Jesus de Nazaré. O cumprimento da pena é uma visão aterrorizante que o pintor francês Jean-Léon Gérome (1824 - 1904) eternizou no século 19, no quadro A Última Oração dos Mártires Cristãos. E que representa a história (entremeada de fatos e mitos) que atravessou os séculos como pedra fundamental do cristianismo primitivo: o martírio desses dissidentes da fé judaica, que transformaram uma seita messiânica na maior religião do planeta – 2,2 bilhões de cristãos hoje comparados ao 1,6 bilhão de muçulmanos.

O momento histórico que essa obra de arte de 1883 simboliza é o período em que cristãos foram mortos às pencas pelas autoridades romanas, nos primeiros séculos d.C. E isso por conta de uma série de preconceitos e de questões políticas que foram se avolumando à medida que os “nazarenos” aumentavam de número exponencialmente – e se espalhavam para além dos limites da Judeia.

Nas três décadas após a crucificação, os seguidores de Jesus já não eram bem-vistos nem pelos romanos nem pelos judeus tradicionais da época. Vale lembrar que os precursores do cristianismo nem se consideravam, categoricamente, “cristãos”. Para todos os efeitos, eles eram religiosos judeus – com a diferença de que achavam que o Messias, anunciado no Velho Testamento, já tinha chegado na figura de Jesus.

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Quando os adeptos dessa crença começaram a louvar seu ídolo nas sinagogas, houve tumulto. As autoridades judaicas bateram de frente com as lideranças revolucionárias – um confronto que transformou a nova fé num movimento missionário, com muitos dos primeiros cristãos deixando Jerusalém e buscando refúgio em outras regiões do império. E os romanos? Estes, geralmente tolerantes com as religiões dos povos conquistados, também não viam motivo para simpatizar com a nova seita.

Suportavam os judeus porque eram religiosos que se fechavam em seus rituais e não gostavam de se misturar aos gentios. Não davam muito trabalho, portanto. Já os cristãos tentavam converter os cidadãos de Roma, espalhando que havia um Reino dos Céus muito mais poderoso que qualquer outro governo terreno. Contudo, ainda assim, havia um motivo de intolerância bem mais impactante, pelo menos para o contexto da época: os cristãos eram maus cidadãos.

Inimigos do Estado

Ao decidir viver de acordo com os ensinamentos de Jesus, um cristão não tinha como ser coerente sem rejeitar todo o modo de vida do seu dominador. Assim, os mais fervorosos não davam as caras nos eventos sociais dedicados às divindades do politeísmo de Roma. Homenagear Apolo ou Minerva significava trair Jesus. 

Somando-se à indignação coletiva que essas ausências provocavam, a ética da vida cristã era uma manifestação pública de crítica à moral pagã. Como narra o historiador inglês Edward Gibbon, autor de Declínio e Queda do Império Romano, o apego da sociedade da época ao prazer e ao conforto material era motivo de desprezo para os pais da Igreja.

 “Vestuário garrido, casas luxuosas e mobiliário elegante eram considerados fontes de duplo pecado, da soberba e da sensualidade.” E a censura dos cristãos a esse lifestyle hedonista ia aos mínimos detalhes: incluía as perucas dos romanos, as almofadas macias, os vinhos estrangeiros, os banhos quentes... Até fazer a barba era motivo de desaprovação. “O hábito de barbear-se seria uma mentira contra nossos próprios rostos e uma tentativa ímpia de melhorar a obra do Criador”, explica Gibbon.

Não podia dar certo. Desprezar os rituais e a cultura do império era afrontar diretamente o conceito de cidadania. “É provável que os romanos vissem os cristãos como questionadores da virtude cívica pietas”, afirma o teólogo Lawrence S. Cunningham, professor da Universidade de Notre Dame (EUA). O estudioso se refere a uma das qualidades que teriam dado a Roma a força moral para conquistar e civilizar o mundo.

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“Piedade” significava devoção aos deuses romanos, mas também implicava a ideia de respeito pela ordem social e patriotismo. Então, quando os cristãos desdenhavam dos rituais do império, não estavam apenas esnobando a fé oficial: estavam trazendo instabilidade à pax deorum (expressão latina para “paz dos deuses”), a concórdia entre os homens e as divindades, que garantiria a segurança e o bem-estar da população. Eram, portanto, um risco à sociedade.

Nas primeiras décadas do cristianismo primitivo, esse estigma geralmente rendia não mais que um ambiente de animosidade e preconceito. Isso até que um dos políticos mais aloprados da história assumisse o cargo de imperador. E colocasse fogo em Roma.

Os pecados de Nero

O mal-estar em relação aos seguidores de Cristo virou perseguição pela primeira vez quando, no verão de 64 d.C., um incêndio de proporções épicas tomou conta da capital do império. Começou numa pequena venda perto do Circus Maximus e logo se espalhou pelo comércio vizinho. Ficou tão forte que incendiou a arena inteira, os estabelecimentos comerciais e as casas, deixando a cidade em chamas por cinco dias. Não há nenhuma evidência histórica de como esse fogo começou, talvez fosse um simples acidente doméstico. Mas o povo não demorou a achar um culpado. A fama de Nero era de cruel e demente – com grau máximo de psicopatia. O político mandara matar a própria mãe e, quando uma de suas esposas morreu, fez com que castrassem um jovem escravo para se casar com o eunuco. Quem, além dele, seria tão insano a ponto de botar fogo na cidade?

Então Nero terceirizou a impressão de culpa para o único tipo de gente que o cidadão romano odiava tanto quanto a ele: os cristãos, lógico. Mandou prender, interrogar e executar com requintes de perversidade. Os condenados tiveram de vestir peles de animais antes de serem jogados às feras, para estimular o apetite dos grandes predadores. Também viraram tochas humanas a iluminar o céu de Roma.

Nero era um tirano sádico, mas seus métodos cruéis não diferiam muito do padrão romano de punição. A pena capital era comum, por exemplo. O que chegou até os nossos dias sobre a Lei das 12 Tábuas, que versava sobre procedimento judicial na Roma Antiga, revela que uma pessoa podia ser executada brutalmente por atos às vezes banais. Caluniar alguém em uma canção, por exemplo, era punido com espancamento até a morte. E as práticas oficiais incluíam degola, empalamento, afogamento e queimar gente viva – além da popular crucificação.

Antes das execuções, os cristãos presos eram questionados sobre se eram mesmo seguidores dos ensinamentos de Jesus. E foi esse papel que gerou o termo empregado para todo aquele que admitia, como sua própria testemunha de acusação, que era, sim, cristão. A origem da palavra “martírio” vem da expressão “prestar testemunho num tribunal”. E a perseguição sanguinária de Nero deu início aos séculos que ficaram conhecidos como “Era dos Mártires”.

Entre a cruz e a espada

Cristãos morreram por iniciativa do Estado em cinco períodos do domínio de Roma: logo após o grande incêndio de 64 d.C., e em determinados anos dos reinados de Décio, Valeriano, Diocleciano e Maximino Daia. “Nem todos esses episódios poderiam ser chamados razoavelmente de perseguição, e muitas vezes foram limitados a regiões específicas”, explica Candida Moss, professora de teologia da Universidade de Birmingham, no Reino Unido, e uma especialista em martírio no cristianismo primitivo. “Estamos falando em menos de dez anos de um total de 300 em que os cristãos foram executados como resultado de iniciativas imperiais”, descreve a professora.

Em janeiro de 250 d.C., o imperador Décio lançou um decreto que obrigava todos os cidadãos de Roma a fazer sacrifícios de animais em honra ao próprio imperador. A pena para quem não o fizesse era a morte. Tratava-se de um teste de lealdade aos deuses do império e, ao mesmo tempo, um desafio aos cristãos. Entre a morte terrena sob tortura e colocar em risco sua vida eterna, muitos cristãos se recusaram a fazer o sacrifício institucional.

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Foram torturados e mortos. Outros preferiram não ter de fazer essa escolha terrível e partiram para o exílio. Foi o caso de São Cipriano, na época bispo de Cartago. Ele se escondeu num primeiro momento, mas acabou sendo preso na terceira onda de execuções de cristãos, já quando Valeriano era o imperador. O diálogo de sua audiência com o procônsul Galerius Maximus chegou até os nossos dias.

Galerius: “Os imperadores mais sagrados ordenaram que você se conformasse aos ritos romanos”. / Cipriano: “Eu me recuso”. / Galerius: “Você viveu uma vida sem religião [a dos romanos], uniu um número de homens em uma associação ilegal, e se declarou abertamente um inimigo dos deuses e da religião de Roma. Os piedosos, mais sagrados e augustos imperadores tentaram trazê-lo em vão de volta à conformidade; e, no entanto, você foi detido como líder nesses crimes infames. A autoridade da lei será ratificada em seu sangue. É a sentença desta corte que Cipriano seja executado com a espada”.

E o bispo foi degolado. Quando o imperador Valeriano morreu, seu filho Galiano assumiu a frente do império e logo revogou as legislações que colocavam os cristãos na mira. E assim os seguidores de Cristo tiveram mais de 40 anos de relativa paz – época em que construíram igrejas e alguns, inclusive, ascenderam na escala social. Mas isso até que Diocleciano se tornasse o novo “César”. E inaugurasse a pior caça aos cristãos da história do Império Romano.

A grande perseguição

Entre 268 d.C. e a ascensão de Diocleciano, em 284, nada menos que oito imperadores haviam sido assassinados, e Roma tinha de lidar com focos de guerra civil e invasões bárbaras. A resposta do novo imperador à instabilidade foi dividir seu poder com mais três líderes, criando o sistema conhecido como Tetrarquia – que ajudava a controlar melhor as fronteiras do império. Por outro lado, ter quatro imperadores era um desafio para a unidade do seu território. Então, para dar coesão e o sentimento de um Estado único, Diocleciano buscou o mesmo recurso ao qual muitos ditadores apelam para fortalecer o patriotismo: elegeu um inimigo em comum. Os cristãos, claro.

Os éditos do imperador foram gradualmente anunciados, retirando aos poucos os direitos legais dos cristãos, e praticamente tornando a nova religião um crime contra o Estado. Suas primeiras medidas persecutórias, de 303 d.C., removeram cristãos de cargos públicos (Hitler faria o mesmo com os judeus), destruíram igrejas, confiscaram escrituras sagradas e proibiram os cristãos de se reunir.

Na parte leste do Império Romano, os seguidores de Cristo que não aceitaram as medidas do primeiro édito começaram a ser queimados vivos. Um segundo édito, no mesmo ano, ordenou que todos os clérigos cristãos fossem presos. Em Mártires da Palestina, o bispo Eusébio conta que tantos padres foram para a cadeia que o sistema prisional romano entrou em colapso. No terceiro édito, Diocleciano permitiu que os clérigos fossem anistiados, mas desde que fizessem sacrifício – os menos fervorosos tinham aí uma chance de escapar do martírio.

Um breve refresco antes que o quarto édito, o mais terrível de todos, fosse lançado na primavera de 304. Ele obrigava que todos os cristãos – incluindo crianças –, não só os padres e bispos, se juntassem num espaço público para fazer sacrifícios aos deuses pagãos. Era isso ou a morte.

A Grande Perseguição durou até a aposentadoria de Diocleciano, em 305 d.C., e foi brevemente retomada pelo imperador Maximino Daia, entre 311 e 313. Ao longo desses anos, alguns cristãos pagaram propina às autoridades para escapar da lei, outros partiram para o exílio em busca de refúgio em outros lugares. Mas os que copiaram o exemplo de Cristo reafirmaram sua fé diante de seus algozes – e se tornaram mártires da Igreja.