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Stalin: Herói ou anticristo?

O homem que ordenou o massacre de milhões de pessoas durante seu regime ditatorial também foi o responsável pelo êxito econômico da URSS

Mariana Sgarioni Publicado em 20/08/2019, às 21h00

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- Crédito: Klimbim

Soso era um garoto pálido, com o rosto marcado por um ataque de varíola. Nasceu com dois dedos do pé esquerdo grudados e tinha tudo para virar um adulto retraído, atormentado pelos traumas da infância, mas era dono de uma inteligência excepcional.

Aos cinco anos, dava aulas de alfabetização para crianças de 13. Fazendo uso dessa brilhante capacidade intelectual, o menino tímido acabou se transformando em Josef Stalin, um dos homens mais poderosos e temidos do século 20. Com mãos de ferro, governou a extinta URSS por quase 30 anos, aniquilando qualquer um que se opusesse à cartilha bolchevique.

A vida do generalíssimo, como era chamado, foi permeada por lendas e histórias fantasiosas - até porque houve espaço para isso, uma vez que, ao contrário de Lenin, Stalin teve a maior parte de seus documentos destruídos depois de sua morte. O que se sabe é que, assim como Hitler, muita psicologia de botequim foi escrita sobre ele e sua personalidade.

Segundo os registros oficiais, Stalin nasceu na pequena cidade de Gori, na Geórgia, em 1878. Filho de uma costureira e de um sapateiro, cresceu em uma família pobre e influenciada por padres. Era vítima constante de violência, especialmente de espancamentos praticados pela mãe.

"Stalin não gostava de falar sobre seus pais e sua infância, mas não faz sentido exagerar em sua análise psicológica. Era emocionalmente atrofiado, anormal. Mas o próprio Stalin dizia que os políticos raramente são normais", afirmam os historiadores russos e dissidentes soviéticos Zhores e Roy Medvedev.

Em um de seus últimos encontros com a mãe, Stalin explicou a ela o cargo que exercia: uma espécie de czar. Perguntou por que ela tanto o espancara na infância. A resposta: "Parece que você acabou dando certo. Ainda assim, é uma pena que não tenha se tornado padre".

Crédito: Klimbim

 

Bem que ele tentou. Para satisfazer a mãe, estudou em um seminário em Tbilisi. Mas, em 1899, foi expulso e entrou para o Partido Operário Social-Democrata Russo (POSDR). Foi aí que Soso se tornou um revolucionário profissional, adotando o nome de Koba, inspirado pelo herói do romance O Parricida, de Alexander Kazbegi. Nessa época, nosso homem forte adorava escrever poesias e chegou a trabalhar como meteorologista no Instituto Meteorológico de Tbilisi, o único emprego que teve antes de se tornar um dos governantes da Rússia, em 1917.

Até tomarem o poder, Koba e seus camaradas estudavam obsessivamente a literatura marxista e promoviam greves, agitos e expropriações. Nesta turma, seus amigos mais próximos eram o líder Lenin, Nikolai Bukharin e Leon Trotski — estes dois últimos, posteriormente assassinados a partir de suas próprias ordens.

Em 1902, Stalin foi preso e mandado para a Sibéria pela primeira vez — no total, foram sete prisões. Esses exílios, no fim das contas, acabavam funcionando como um ponto de encontro para os revolucionários, ajudando-os a se organizar. E fugir até que não era difícil, pois os policiais do czar, meio frouxos, deixavam os prisioneiros escaparem com facilidade — algo bem diferente do que seria verificado, mais tarde, nos campos de concentração stalinistas.

Dois anos depois de sua primeira prisão, Stalin conheceu a família de sua futura mulher, Nádia. Em um único episódio de romantismo, ele teria salvado a moça de um afogamento no Mar Cáspio. Não se sabe se o casal foi feliz. Mas o fato é que Nádia acabou se suicidando em 1932, evento que abalou profundamente o ditador.

Eles tiveram dois filhos, Vasily e Svetlana — esta última, a moça de cachos ruivos, menina dos olhos de Stálin. O dirigente soviético teve ainda um filho em seu primeiro casamento, Yakov, que foi morto pelos alemães durante a Segunda Guerra Mundial — Stálin recusou-se a negociar a vida de Yakov.

Terror e progresso

Calcula-se que Stalin tenha sido o responsável pela morte de mais de um milhão de pessoas durante seu regime ditatorial — entre inimigos declarados, oponentes políticos, supostos traidores e gente inocente. Mas o número de vítimas do stalinismo fica muito maior se contabilizados todos aqueles que foram perseguidos, torturados e enviados para campos de trabalhos forçados na Sibéria. Desde o início da tomada do poder pelos comunistas, quando ainda tinha a função de Comissário do Povo para as Nacionalidades, ele já preconizava a inclemência e uma atitude severa e implacável do governo soviético na luta contra seus inimigos.

Após a morte de Lenin, em 1924, Stalin ainda levou alguns anos para ascender ao papel de ditador. Foi ampliando, vagarosamente, a conquista de sua autoridade pessoal. Ganhou força e popularidadede a partir de 1928, com a chamada revolução de cima para baixo — a agricultura foi coletivizada e um grande plano de industrialização fez a economia da URSS dar um salto.

Stalin também investiu pesado em habitação, educação, saúde e esporte, colhendo resultados impressionantes. O analfabetismo, por exemplo, praticamente foi erradicado. Uma das principais característica do stalinismo era justamente essa contradição: grandes realizações socioeconômicas, mas com o terror coletivo como pano de fundo.

Seja como for, a legitimidade política de Stalin baseava-se na continuidade do leninismo e nas tradições da revolução. "Por toda sua vida, ele continuou a se escorar na autoridade de Lenin", afirma o historiador Simon Sebag Montefiore.

Crédito: Klimbim

 

Seus horários eram curiosos: insone, costumava ir ao Kremlin à noite, a partir das 23 horas. Depois de examinar documentos, ele concedia audiências, participava de reuniões, debatia questões até as 5 horas da manhã. Segundo testemunhas, Stalin chegava a examinar 200 documentos por jornada de trabalho.

Redigia textos gramaticalmente corretos, com uma caligrafia clara e legível. Desconfiado de tudo e de todos, gostava de trabalhar sozinho. "Não uso estenógrafo. Não consigo trabalhar com alguém por perto", disse certa vez ao jornalista russo Dmitri Shepilov.

Sua morte, aos 73 anos, foi cercada de mistério, uma vez que ele parecia gozar de ótima saúde. Teorias conspiratórias falam em envenenamento, mas até agora o que foi provado é que ele morreu vítima de hemorragia cerebral.

Segundo escreveu Svetlana, sua filha, no dia seguinte à morte do general, antes mesmo do sepultamento, todos os seus pertences foram recolhidos e levados pelo governo. Poucos documentos foram recuperados.

Entre eles, destacam-se três cartas que o ditador guardava a sete chaves. Uma delas era um puxão de orelhas escrito por Lenin. A segunda, um recado enviado em 1950 pelo marechal Tito, então no comando da Iugoslávia: "Stalin, pare de mandar assassinos para me matar. Já apanhamos cinco. Se isto não parar, vou mandar um homem a Moscou. E não será necessário mandar um segundo". A terceira era do amigo Bukharin, escrita pouco antes de ser fuzilado por ordem de Stalin. Suas últimas palavras: "Koba, por que você precisa que eu morra?".