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Tango era tocado durante fuzilamentos em campos de concentração

O gênero marcado pela tristeza foi o instrumento de integração cultural do povo argentino

Kalleo Coura Publicado em 11/12/2018, às 08h00 - Atualizado em 05/07/2019, às 07h00

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Crédito: Reprodução

"A música começa a soar do outro lado do portão. Sim, temos uma orquestra de 16 homens, todos prisioneiros. Essa orquestra, que conta com algumas personalidades do mundo da música, sempre toca quando vamos e voltamos do trabalho ou quando os alemães recolhem um grupo que será executado. Sabemos que um dia, para muitos de nós, senão para todos, a orquestra também tocará o Tango da Morte."

A cena, descrita pelo engenheiro polonês Leon Weliczker Wells em O Caminho de Janowska, mostra como era comum até nos campos de concentração da Segunda Guerra um gênero musical caracterizado por melodias tristes e nostálgicas. "Tango da Morte" era a forma genérica como eram conhecidos os tangos tocados principalmente durante os fuzilamentos e enforcamentos e antes de os judeus entrarem nas câmaras de gás nos campos de concentração.

Fosse em iídiche, em russo ou em espanhol, sua língua de origem, o tango era um estrondoso sucesso na Europa e no resto do mundo nos anos 40. A música melancólica, como a conhecemos, nasceu em 1917. Foi nessa época que Carlos Gardel cantou Mi Noche Triste, de Pascual Contursi, no Teatro Esmeralda, e estreou o tango-canção, caracterizado pela presença de letra nas músicas. A história do tango, no entanto, é mais antiga e obscura do que isso. E, diz a antropóloga argentina Maria Susana Azzi, foi o instrumento de integração cultural do povo argentino. 

A origem

Como havia muito mais homens do que mulheres na cidade na época, o tango nasceu para entreter as grandes filas dos bordéis de Buenos Aires. O pesquisador José Gobello, presidente da Academia Portenha do Lunfardo, identifica um triplo propósito nos cabarés da época.

"Eram lugares adequados para bailar, consumir bebida e eventualmente dormir com alguma das moças".

"Trata-se de uma experiência multivocal que conta a história de pessoas muito diversas. É um integrador cultural, a aceitação da diversidade e a inclusão do marginal dentro do sistema", diz Maria Susana.

 

Alguns passos básicos da dança argentina / Crédito: Reprodução

Em seus primeiros anos, o ritmo era tocado por um trio — composto por um violeiro, um flautista e um violinista, geralmente italianos — de maneira altamente dançante e sem letras. A dança era bem mais rápida que a de hoje, mas, em comum, tinha os passos sensuais. Na década de 1890, surgiram as primeiras letras do gênero, que faziam referência explícita, de maneira chula, às partes íntimas do corpo das prostitutas e ao sexo — como Dos sin Sacar (Duas sem Tirar). Já o registro mais antigo do uso do bandoneon, instrumento alemão parente do acordeão e hoje característico do gênero, é de apenas 1899.

Fora da zona do meretrício, nenhuma mulher ousava dançar aquele ritmo. Na época, uma inocente dança entre homens e mulheres abraçados já era considerada pecaminosa. Mas nem a beatitude nem a escassez de mulheres foram entraves para a realização de bailes populares.

Jornais e revistas argentinas do fim do século passado, como La Prensa e Caras y Caretas, relatam que os rapazes se encontravam, no cair da noite, no meio das ruas, para dançar tango. Eram os chamados bailes callejeros. "Os homens praticavam entre si para treinar. Então, quando chegassem nos prostíbulos, poderiam dançar com as melhores dançarinas", diz Maria Susana.

Só nos primeiros anos do século 20 as letras que acompanhavam as músicas passaram a ser mais elaboradas. A temática ainda girava em torno das cercanias portenhas e descrevia principalmente os tipos do submundo: o cafetão (ou cafischio), a polaca (lora), o machão (guapo) e o desleal (malevo). Ainda entre as décadas de 20 e 40, algumas das letras contavam histórias de garotas pobres que, ambiciosas, preferiam a prostituição à miséria.

Enquanto a alta sociedade portenha desdenhava, o ritmo já chamava a atenção dos europeus. Para surpresa dos argentinos mais ricos, que tinham condições de viajar até a Europa, ele havia se tornado, por volta de 1910, a dança preferida na noite parisiense. Segundo José Gobello, o bailarino brasileiro Antonio Lopes de Amorim Diniz, mais conhecido como Duque, criou em Paris, em 1913, a primeira academia séria da dança na Europa: o Dancing Palace.

No mesmo ano, o dançarino argentino Vasco Ain e uma mulher desconhecida apresentaram o tango ao próprio papa, Pio X. "Não há registros de como eles dançaram na frente dele. Talvez tenham suavizado um pouco, mas o tango foi absolvido", diz o jornalista e pesquisador de tango Hélio de Almeida Fernandes.

Depois de perceber o quanto os franceses gostavam da música e da dança, a alta sociedade argentina se mostrou mais disposta a aceitá-las. Mesmo assim, quando passou a figurar nos grandes salões portenhos, o ritmo já havia sofrido a influência europeia. Antes rápido, ágil e repleto de cortes bruscos, o tango tornou-se mais lento e melodioso, exatamente como é hoje.

A história do mito

A música Mi Noche Triste, executada por Carlos Gardel em 1917, levaria o tango a um novo patamar. As letras do primeiro tango-canção ganharam mais importância e a temática deixou de abordar principalmente os tipos marginais para tornar-se mais melancólica e nostálgica. "O tango já era mais do que um ritmo apenas para ser dançado. Era a expressão do sentimento argentino", diz José Gobello.

 

Carlos Gardel / Crédito: Reprodução

Impossível não se falar de Gardel quando o assunto é tango. Além de cantar, ele estreou no cinema em 1917, com Flor de Durazno. "Nesse filme mudo, a figura dele é um pouco diferente da do galã eternizado no imaginário popular. Ele pesava quase 100 quilos", diz Américo Mezzatestta, vice-presidente da Associação Gardeliana Argentina.

Segundo o estudioso, o homem que cantava músicas populares em prostíbulos ficou famoso também por ser bem apessoado, humilde, rico e por seu magnetismo. "Ele personificou o argentino médio. O povo identificava nele aquilo que poderia ter sido", completa Hélio Fernandes.

Paira uma aura de mistério sobre o cantor. Muito discreto quanto à vida pessoal, seu relacionamento mais duradouro foi com Isabel de La Valle, sua noiva, a quem conheceu quando tinha 34 anos e ela, 14. Até a respeito do lugar em que nasceu há controvérsias. Os uruguaios afirmam que foi em Tacuarembó, no Uruguai, enquanto a maioria dos estudiosos diz que foi em Toulouse, na França. O fato é que, naturalizado argentino, Carlos Romualdo Gardés, como se chamava, deixou um testamento assinado de próprio punho e protocolado no qual dizia ser francês.

Além de cantar e filmar, compôs algumas de suas músicas mais famosas, como: Mi Buenos Aires Querido e El Día Que Me Quieras para o filme homônimo.

Aos 44 anos, sua carreira foi interrompida por um choque entre dois aviões no aeroporto de Medellín, na Colômbia. Ao lado de Alfredo le Pera, seu maior letrista, morria, carbonizado, o homem que ajudou a popularizar o tango. O mito, contudo, continua vivo. Como gostam de dizer os argentinos, ele canta melhor a cada dia.


Saiba mais

Tango: Uma Possibilidade Infinita, Hélio de Almeida Fernandes, Bom Texto, 2000

Todo Tango, José Gobello, Ediciones Libertador, 2005