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A tragédia do USS Indianapolis: Quando a mãe natureza declarou guerra

O desastre entrou para a história naval como o maior ataque de tubarões e o episódio mais terrível e assustador da guerra no Pacífico

M.R. Terci Publicado em 06/09/2019, às 06h00 - Atualizado às 09h00

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A praia. Sem dúvida, o lugar ideal para muita gente que procura repouso, sossego e tranquilidade. Areia, sol, água de coco e o mar. Alegria, animação e diversão.

Mas, experimente gritar tubarão e teremos uma situação envolvendo muito histerismo e gritaria por parte dos banhistas e surfistas. O ataque de tubarão é comprovadamente o perigo natural mais temido na mente do homem. No entanto, os tubarões, em especial no litoral brasileiro, não são os implacáveis predadores que os romancistas alardeiam.

Venham comigo, pelos caminhos mais escuros da história, conhecer o maior e mais trágico ataque de tubarões ocorrido em um assustador episódio da guerra no Pacífico.

No dia 16 de julho de 1945, o cruzador americano USS Indianapolis deixou o porto de San Francisco na Califórnia, com 1.100 marinheiros a bordo. Sua missão, classificada com ultrassecreta, era transportar uma das cargas mais agourentas e menos desejadas de todos os tempos: os principais componentes tecnológicos e o urânio enriquecido da bomba atômica Little Boy, que seria lançada sobre Hiroshima algumas semanas depois.

Em 26 de julho, o cruzador chegou à pequena ilha de Tinian, no Arquipélago das Marianas, de onde o bombardeiro Enola Gay decolaria para cumprir sua mortífera missão. Alívio para a tripulação que, após a entrega de seu ominoso pacote, se sentia menos estressada, pronta para seguir para o Golfo de Leyete, nas Filipinas, onde se encontraria com outra embarcação norte-americana para exercícios navais que dariam ensejo à invasão do Japão.

Uma suposta displicência de seu capitão, posterior ao alivio de descarregar o urânio, talvez tenha sido a principal causa da tragédia. No trajeto até Leyete, o comandante do USS Indianapolis manteve velocidade de 12 nós, mas absteve-se de efetuar a clássica manobra em zigue-zague.

Crédito: Reprodução

 

Este tipo de ardil empregado durante a guerra, não impedia que os submarinos localizassem seus alvos, mas invariavelmente diminuía a efetividade dos torpedos inimigos. Uma embarcação navegando em linha reta é praticamente um alvo parado para um submarino, que pode escolher onde suas armas causariam maior dano.

Atento a esse detalhe, um submarino japonês não fugiu ao seu mortal desiderato e o USS Indianapolis foi torpedeado pouco depois da meia noite do dia 30 de julho. Para se ter uma ideia da eficiência do ataque, trezentos tripulantes morreram na hora e o cruzador, um dos mais parrudos e resistentes da marinha dos EUA, seriamente danificado, afundou em menos de 12 minutos. Mas o suplício de seus marinheiros estava apenas começando.

Há quem argumente que o comandante tinha ordens para não quebrar o silêncio do rádio, outros, que, apesar de transmitido, o fraco SOS foi considerado insubsistente, contudo, menciona-se, ainda, que as avarias técnicas decorrentes do primeiro ataque impediram o envio de um pedido de socorro. De qualquer forma, os 800 marinheiros que sobreviveram ao ataque, tiveram tempo suficiente apenas para vestir seus coletes e saltar na água. Atirados ao mar, em pequenos e insuficientes botes, eles boiavam num cenário de horror, cercados por monstros marinhos.

Trinta minutos após o naufrágio, na escuridão intransponível e gélida da madrugada, atraídos pelo vasto caudal de sangue na água, em número inimaginável, as barbatanas foram avistadas sob o lume de lanternas oscilantes. Nas horas mais escuras que antecederam o amanhecer do primeiro dia, ouviu-se apenas os gritos agônicos e desesperados dos marinheiros, à medida em que eram atacados, dilacerados pelo hórrido cardume e arrastados para as profundezas.

Mais de cem homens foram devorados naquela noite. De cima dos botes superlotados, enquanto aguardavam que algum resgate milagroso, os marinheiros tentavam em vão afugentar os tubarões. A missão do Indianapolis, no entanto, de tão sigilosa, contava com um número minúsculo de altas patentes que sabiam da rota que o navio faria e, com certeza, sua ausência no ponto de encontro do Golfo de Leyete, seria notada apenas dias depois.

As investidas dos terríveis predadores foram ficando cada vez mais ferozes, à medida que o instinto primitivo se apercebia da fraqueza e cansaço de suas presas. Relatos mencionam a angustia de se ver, ao longe, companheiros exaustos ou com membros mutilados, tentando se manter sob a superfície.

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Poucos ofereciam resistência, os que contavam apenas com os coletes, eram brutalmente mordiscados por todos os lados. Quando então abocanhados pelos tubarões maiores, apenas se deixavam levar para nunca mais serem vistos. O pesadelo deve ter sido infinitamente agravado, quando se leva em conta que com a chegada da espécie conhecida como grande tubarão branco os botes já não ofereciam proteção.

Quatro dias depois, de uma maneira totalmente acidental, um pequeno grupo de náufragos foi avistado pelo Tenente Wilbor Swin, durante um vôo de rotina. Dos 800 tripulantes que foram atirados ao mar, apenas 321 foram resgatados com vida. Quinhentas almas foram devoradas pelos tubarões ou sucumbiram à fome, sede e desidratação, nesse desastre que entrou para a história naval como o maior ataque de tubarões e o episódio mais terrível e assustador da guerra no Pacífico.


M.R. Terci é escritor e roteirista; criador de “Imperiais de Gran Abuelo” (2018), romance finalista no Prêmio Cubo de Ouro, que tem como cenário a Guerra Paraguai, e “Bairro da Cripta” (2019), ambientado na Belle Époque brasileira, ambos publicados pela Editora Pandorga.