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A transfobia que levou ao brutal assassinato de Brandon Teena

Considerado um dos maiores crimes hediondos dos EUA o caso originou o filme Boys Don't Cry, ganhador do Oscar 2000 com a categoria Melhor Atriz

Victória Gearini Publicado em 28/02/2020, às 22h32

Brandon Teena (1972-1993)
Brandon Teena (1972-1993) - Divulgação

Nem todos os países do mundo reconhecem a homofobia como crime, muito menos a transfobia — ações discriminatórias e preconceituosas que incluem violência física e verbal contra pessoas transgêneras. Em 1993, nos Estados Unidos, Brandon Teena teve sua vida interrompida por ser um homem trans.

Nascido Teena Renae Brandon no dia 12 de dezembro de 1972, em Lincoln, nos Estados Unidos, Brandon identificou-se como homem trans logo na sua infância. Por ser de uma família conservadora e patriarcal, enfrentou muitas dificuldades. Sua mãe, JoAnn, não aceitava sua identidade e insistia em chamá-lo de “filha”.

Ainda na barriga de sua mãe, perdeu seu pai em um acidente de carro. Balconista em uma loja de varejo, JoAnn se desdobrava para sustentar, sozinha, sua família. Durante a infância, Brandon e sua irmã Tammy passaram anos sendo abusados sexualmente por um tio, sem que ninguém suspeitasse de nada. Tal fato lhe acarretou diversos traumas.

Em 1993, após se envolver em alguns relacionamentos frustrantes e ser constantemente discriminado por ser um homem trans, Brandon mudou-se para Falls City, no Condado de Richardson, onde conseguiu assumir a identidade masculina. O rapaz acreditava que dessa vez poderia ser diferente, já que na nova cidade ninguém sabia de sua história. No entanto, tudo mudou quando conheceu seus assassinos.

Brandon Teena e sua namorada Lisa Lambert / Crédito: Divulgação

 

Em Falls City, conheceu a jovem Lisa Lambert — que por um tempo lhe abrigou em sua casa — John Lotter, Marvin Thomas — mais conhecido como Tom — e Lana Tisdel, que mais tarde se tornaria sua namorada. 

No dia 15 de dezembro de 1993, Brandon foi preso por fraudar cheques. Como agravante, o rapaz tinha queixas abertas em sua cidade natal por falsidade ideológica — visto que não o aceitavam como homem trans e, por isso, ele utilizava outra identidade. Lana Tisdel foi até a delegacia pagar sua fiança, mas lá descobriu que seu namorado estava na ala feminina e era um homem trans. 

Ficha polícia de Brandon Teena / Crédito: Divulgação

 

Mesmo Brandon afirmando que pretendia fazer a operação de mudança de sexo, Lana não se convenceu e, na mesma época, terminou seu relacionamento. No entanto, até hoje, a jovem nega que este teria sido o verdadeiro motivo. Foi então que Lotter e Tom, ao descobrirem que Brandon era um homem trans, ficaram enfurecidos e decidiram lhe armar uma emboscada.

Na noite do dia 24 de dezembro de 1993, em uma celebração de Natal na casa de Tom, Lotter e o anfitrião obrigaram Brandon a retirar suas calças para mostrar à todos sua genital feminina. Na manhã seguinte, sequestraram o jovem e o colocaram dentro de um carro. No meio do nada, o espancaram e o estupraram por horas incansáveis. Após o crime, Brandon foi levado ainda com vida para a casa de Tom, onde conseguiu fugir pulando pela a janela. 

Abalado com a situação, o rapaz não conseguiu justiça. Após denunciar os estupradores, a polícia o submeteu a um interrogatório humilhante e constrangedor. Por fim, não atuaram Tom e Lotter pelo crime, pois segundo as autoridades, não havia provas suficientes. 

Depois do episódio, Tom e Lotter dedicaram-se ainda mais a encontrar a vítima para silenciá-la, e assim fizeram. No dia 31 de dezembro, invadiram a casa de Lisa Lambert, atiraram e esfaquearam Brandon até a morte. Além do rapaz, Lisa e seu amigo Phillip Devine também foram mortos durante o ataque. Os assassinos pouparam somente a vida do filho de oito meses da dona da casa. 

Túmulo de Brandon Teena, sem o reconhê-lo como um homem trans / Crédito: Divulgação

 

No ano novo, os cadáveres e o bebê foram encontrados pela mãe de Lisa Lambert. Tom confessou o crime e delatou o amigo, sendo condenado à prisão perpétua em 1995. Já Lotter foi sentenciado a cadeira elétrica em 1996, mas permanece vivo até o momento. 

O brutal crime inspirou o documentário Brandon Teena Story e o filme Boys Don't Cry (1999), protagonizado por Hilary Swank, que devido a sua bela atuação ganhou o Oscar de Melhor Atriz em 2000. Atualmente, o corpo de Brandon está enterrado no Lincoln Memorial Park Cemetery Association, nos Estados Unidos. Constantemente seu túmulo é visitado e, mesmo após sua morte, não teve sua identidade reconhecida pelo Estado, que o sepultou como Teena Renae Brandon.


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