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Turquinho, o primeiro policial rodoviário do Brasil

Nos anos 1920, as fortes chuvas exigiam melhor sinalização e desvios de trechos rodoviários, inclusive com a utilização de lampiões vermelhos durante a noite, Turquinho, como ficou conhecido, recebeu a missão de zelar, sozinho, pela segurança das rodovias federais

M. R. Terci Publicado em 09/02/2020, às 10h00

Turquinho
Turquinho - Wikimedia Commons

Quando a primeira estrada brasileira foi inaugurada em 1861, as pessoas ficaram maravilhadas com a velocidade que a pista proporcionava. Dom Pedro II e uma grande comitiva percorreram o vistoso caminho de Petrópolis a Juiz de Fora com as diligências cruzando a estrada à fantástica velocidade de 20 quilômetros por hora.

Desde o tempo da Colônia, havia aqueles caminhos imensamente precários, trilhas que índios, jesuítas e bandeirantes percorreram. Estradas rústicas e perigosas demais para contribuir de modo efetivo com o desenvolvimento das localidades. E, desde o tempo da Colônia, não havia ninguém que as vigiasse. Venham comigo, pelos caminhos mais escuros da história, percorrer cada palmo desse chão, de carona com o primeiro policial rodoviário do Brasil e sua potente Harley Davidson 1935 VD.

Eis que somente em 1920, quando Washington Luís assumiu o governo de São Paulo, foi que se pensou em construir novas estradas e ampliar a rede viária de uma região. Surgiram então duas grandes estradas macadamizadas que se tornaram modelos para as que viriam a seguir, a estrada de Campinas e a estrada de Itu, ambas ligadas à capital do estado.

Em 1926, com o lema Governar é Abrir Estradas, Washington Luís, último representante da República Velha, assumiu a presidência do Brasil e se viu diante de um país repleto de caminhos ermos feitos de poeira e cascalho, ilhados pelo capim alto, sem faixas, nem sinalização. A frota automobilística do país era então composta por 93682 automóveis e 38075 caminhões, números assegurados pela presença dos dois maiores fabricantes norte-americanos no Brasil – Ford e GM. E todo dia, se faziam novos automóveis.

Nessa época, as estradas brasileiras ainda seguiam o padrão desenvolvido pelo engenheiro escocês John Loudon McAdam em 1820. As chamadas estradas macadamizadas consistiam em um pavimento onde três camadas de pedras eram sobrepostas e alinhadas em uma fundação com valas laterais para escoamento da água da chuva.

Um método que requeria imensa mão de obra e meses de laborioso enfrentamento por parte dos operários e construtores. Eficiente, mas de lento progresso e com o advento dos veículos motorizados, mais velozes que carroças, cupês e cabriolés, a poeira tornou-se um problema sério nas estradas de macadame. Colidir ou sair da estrada era quase tão constante quanto se manter nela.

Turquinho / Crédito: Wikimedia Commons

 

A estação das chuvas, contudo, era catastrófica.

As enxurradas levavam a areia e o saibro de macadame estrada abaixo, surgindo sulcos, crateras e atoleiros que tornavam o percurso intransitável. Diante desse cenário, a estrada Rio-Petrópolis, uma das mais movimentadas e, consequentemente, a mais afetada pelas chuvas, tornou-se uma das prioridades do governo Washington Luís.

Washington colocou em prática o dístico de seu governo. Em meados de 1927, criou o Fundo Especial para Construção e Conservação de Estradas de Rodagens Federais, com o intuito de financiar o desenvolvimento rodoviário do Brasil. E, em setembro daquele mesmo ano, sancionou a primeira legislação que estabelecia regras para a circulação internacional de veículos no território nacional.

Finalmente, no dia 25 de agosto de 1928, o presidente inaugurou a Rodovia Rio-Petrópolis, a primeira estrada asfaltada do país. No dia seguinte, nada menos do que 1783 carros passaram pela estrada. Dois dias depois vieram os numerosos caminhões. O marco da nova política rodoviária federal foi considerado, até os anos 1950, a melhor rodovia da América do Sul e deu impulso aos milhares de quilômetros de novas rodovias, incluindo a União Indústria, a Rio/São Paulo e a Rio/Belo Horizonte. Mas era muito chão e, mesmo naquela época, as rodovias distavam das cidades e de qualquer tipo de socorro. Era território selvagem, onde tudo podia acontecer.

Assim, alguém precisava zelar pela vigilância e segurança dos motoristas.

Nesse interim, o presidente Washington Luís também havia determinado a criação da Polícia de Estradas. Foi criada no dia 24 de julho de 1928, mas somente em 1935, quando Washington Luís já havia sido derrubado pelo golpe militar de 1930, Antônio Felix Filho, o Turquinho, foi chamado pelo administrador Natal Crosato, a mando do engenheiro-chefe da Comissão de Estradas de Rodagem, Yeddo Fiúza, para organizar os serviços de vigilância das rodovias Rio-Petrópolis, Rio-São Paulo e União Indústria.

Apesar do asfalto resistir, as fortes chuvas exigiam melhor sinalização e desvio de trechos, inclusive com a utilização de lampiões vermelhos durante a noite. Turquinho, como ficou conhecido, recebeu a missão de zelar pela segurança das rodovias federais e foi nomeado inspetor de tráfego, com o objetivo inicial de fazer uso de duas motocicletas – uma Harley-Davidson e uma Zündapp 1928 – para percorrer e fiscalizar cada quilômetro daquelas rodovias. Noites e madrugadas afora, o zeloso policial sinalizava e alertava os motoristas, arriscando a própria vida nos trechos mais comprometidos pelas torrentes.

Uma tarefa hercúlea, que um só homem não poderia dar conta. Mas, desde 1927, Turquinho defendia a criação da Polícia de Estradas, daí o seu aproveitamento como primeiro policial rodoviário federal do Brasil. Ainda em 1935, Yeddo Fiúza indicou Carlos Rocha Miranda para organizar a estrutura da Polícia das Estradas, tendo em Turquinho o seu maior auxiliar e conselheiro. Juntos, criaram, em julho de 1935, o primeiro quadro de policiais da hoje chamada Polícia Rodoviária Federal com Turquinho e mais 12 policiais.

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Turquinho / Crédito: Wikimedia Commons

 

Nos seus primórdios, quando a atuação da Polícia das Estradas esbarrava em milhares de quilômetros de rodovias e no acanhamento do efetivo, não se pode deixar de evocar a legendária figura do Turquinho. Além de seus doze companheiros, Turquinho contava, ainda, com a ajuda de 450 vigias da chamada Comissão de Estradas de Rodagem encarregados de pontos fixos nas estradas. Para cumprir o mister da Polícia das Estradas, contudo, era necessário percorrer toda sua extensão.

Muitas vezes, com o revezamento das motocicletas, os policiais realizavam o serviço de ronda nas estradas e atendimento a acidentes, montados nos estribos de caminhões, de carona em ônibus ou mesmo a pé. As dificuldades para locomoção da Polícia das Estradas, no início, eram grandes.

E como toda e boa estrada, as rodovias vigiadas pela Polícia das Estradas tinham também suas histórias de assombração.

Em reunião com seus ajudantes, Turquinho relatou que, em 30 de dezembro de 1936, ao realizar ronda noturna na rodovia Rio-Petrópolis com sua motocicleta, pensou ter atropelado uma mulher que atravessava a via de forma distraída, porém, ao estacionar para prestar socorro, percebeu que o local estava deserto, havendo apenas uma medalha com a imagem de uma santa no asfalto.

Naquela ocasião, Turquinho anunciou que dedicaria o resto de sua vida à criação da maior instituição policial do Brasil. Segundo relatos de seus ajudantes e familiares, ele passou a guardar aquela medalha, que mais tarde verificou-se ser de Nossa Senhora da Medalha Milagrosa, dentro de sua carteira funcional até os últimos dias de sua vida.

Atualmente a medalha encontra-se com sua família, em condição de relíquia inestimável. Em função disso, a partir do ano de 2004, Nossa Senhora das Medalhas foi considerada como padroeira da Polícia Rodoviária Federal.

No ano de 1945, já com a denominação de Polícia Rodoviária Federal, a corporação foi vinculada ao extinto Departamento Nacional de Estradas de Rodagem, o DNER.

Com o fim da Segunda Guerra Mundial, aconteceu do presidente norte-americano Harry Truman visitar o Brasil para participar do encerramento da Conferência Interamericana da Paz. Nessa ocasião, para sua escolta foi designada a Polícia Rodoviária Federal, cujo efetivo conhecia as estradas como ninguém e para tal desiderato, foram adquiridas dez motocicletas Harley-Davidson. Nascia, então, o celebrado Corpo de Batedores da Polícia Rodoviária Federal.

No final dos anos 1940, o engenheiro civil Edmundo Régis Bittencourt era presidente da Associação Rodoviária do Brasil, papel que o levou a ter participação ativa na gestão do DNER e, via de consequência, no aperfeiçoamento da PRF.  E, enquanto Régis Bittencourt se empenhava na construção de uma rodovia que ligasse São Paulo ao Paraná, a posição de destaque e importância da PRF no cenário nacional, se consolidava. A visão de Turquinho, manifestada em seu juramento de criação da maior instituição policial do Brasil, começava a acontecer.

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Turquinho / Crédito: Wikimedia Commons

 

De tal forma que o desempenho dos policiais rodoviários federais nas estradas viria a inspirar, na década de 1960, o cineasta Ary Fernandes a criar a primeira série televisiva brasileira. O Vigilante Rodoviário foi ao ar em março de 1961, na extinta TV Tupi, logo após o telejornal Repórter Esso.

Patrocinado pela Nestlé do Brasil, logo a série que contava as aventuras do inspetor Carlos e seu cão Lobo, na luta contra o crime, a bordo de uma motocicleta Harley-Davidson 1952 ou de um Simca Chambord 1959, se tornou um sucesso de audiência, ganhando também uma revista em quadrinhos mensal publicada pela Editora Outubro. Segundo o próprio criador da série, desde criança, sentia falta de um herói 100% brasileiro. A criação da série foi a realização deste antigo sonho. A escolha do tema foi a admiração que ele próprio nutria pela Polícia Rodoviária Federal e pela simpatia que a população sentia por este órgão.

Em 1978, cinquenta anos após sua fundação, outro marco. A PRF recebeu em seus quadros as primeiras policiais aprovadas em concurso realizado naquele ano, com vagas distribuídas para todo Brasil.

Com a Constituição Federal de 1988, a PRF foi integrada ao Sistema Nacional de Segurança Pública, recebendo como missão exercer o patrulhamento ostensivo das rodovias federais.

Atualmente é subordinada ao Ministério da Justiça, atuando extensivamente em mais de 70 mil quilômetros de rodovias federais, nas mais diversas frentes, além de contar com um Núcleo de Operações Especiais, mantendo acesa a chama do ideal de Turquinho, uma instituição que tem no seu DNA a vocação de preservar vidas.


M.R. Terci é escritor e roteirista; criador de “Imperiais de Gran Abuelo” (2018), romance finalista no Prêmio Cubo de Ouro, que tem como cenário a Guerra Paraguai, e “Bairro da Cripta” (2019), ambientado na Belle Époque brasileira, ambos publicados pela Editora Pandorga.


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