O que há de tão importante no urinol de Duchamp?

A “Fonte” é considerada por muito críticos a maior obra do século 20. Entenda por quê

sexta 31 agosto, 2018
Fonte, de Duchamp gerou controvérsias
Fonte, de Duchamp gerou controvérsias Foto:Wikimedia Commons

O que é arte? O que define um artista? As respostas para essas perguntas foram abaladas em 1917, quando o francês Marcel Duchamp trouxe um mictório (ou urinol) assinado como R. Mutt, para uma exposição da Associação dos Artistas Independentes de Nova York. A condição para expor era simples: pagar 6 dólares de inscrição. Os membros da associação só não esperavam por Fonte, algo que Duchamp chamaria de ready-made (“já pronto”). Objetos banais transformados em arte. A reação do conselho da associação, do qual Duchamp fazia parte, veio nesta declaração: “Pode ser um objeto muito útil em seu lugar, mas seu lugar não é em uma exposição de arte e ele não é, de forma alguma, uma obra de arte”.

O francês renunciou ao grupo. Para, pouco depois da abertura da mostra, descobrir que o urinol estava ali, escondido atrás de uma divisória. Fotografada em seguida por Alfred Stieglitz, a obra se perdeu, talvez no lixo. Ao menos parte das razões que levaram Duchamp ao urinol está no Salão dos Independentes de Paris, de 1912. Ao submeter Nu Descendo uma Escada No. 2, ele recebeu um pedido dos organizadores para retirar o quadro. Isso foi visto por Duchamp como o ponto de virada em sua vida.

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O francês Marcel Duchamp Reprodução

É muito provável que a ideia para Fonte tenha surgido depois de um almoço de Duchamp com o pintor americano Joseph Stella e o colecionador Walter Arensberg. Na saída, os três foram até o fornecedor de produtos para encanamento JL Mott Iron Works, onde o francês escolheu um urinol. De volta ao estúdio, ele virou a peça em 90 graus e assinou: R. Mutt, 1917. Segundo o próprio Duchamp: “Mutt veio de Mott Works (...). Mas, como Mott era muito próximo, alterei para Mutt, também por causa da tira de quadrinhos diária Mutt and Jeff, que havia aparecido na época”.

Ele não faria mais arte normal. Por Fonte e Roda de Bicicleta, de 1913, Duchamp é um pioneiro do dadaísmo e um artista à frente de seu tempo. Suas obras são (trocadilho intencional) a grande fonte da arte contemporânea, onde o ato de fazer arte pode ser mais importante que o objeto produzido, ou nem produzido, como no caso dele.

Em 1964, Duchamp afirmou que uma das razões para ter escolhido um urinol foram as poucas chances de a peça ser apreciada. “Eu estava chamando a atenção das pessoas para o fato de que a arte é uma miragem. Uma miragem, exatamente como um oásis aparece no deserto. É muito bonito, até que, claro, você está morrendo de sede. Mas você não morre no campo da arte. A miragem é sólida.”

Replica de Fonte na Galeria Nacional de Arte Moderna da Escócia Reprodução

As réplicas expostas hoje em museus foram encomendadas ou autorizadas por Duchamp entre as décadas de 1950 e 1960. Atitude coerente com o pensamento do ready-made e a falta de sentido, nesse caso, para a autenticidade de uma obra. De acordo com o museu londrino Tate Modern, para Duchamp, a produção de réplicas levaria mais pessoas a ver o trabalho, aumentando as chances de que as ideias ali representadas sobrevivessem.

Maria Carolina Cristianini


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