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Abaixo de zero: A vida dos esquimós

Há milênios, eles habitam algumas das mais inóspitas terras do planeta. Comiam carne crua e não conheciam o dinheiro, mas, agora, vivem de forma parecida com a nossa

Alexandre Rodrigues Publicado em 08/02/2019, às 08h00

Família de esquimós no Alasca, nos anos 1920
Ilustração/ Licius Bossolan

Nas águas geladas do Ártico, em agosto de 1576, o ex-pirata inglês Martin Frosbisher ficou impressionado ao ver algo: entre blocos de gelo no mar, o movimento era do que pensou serem baleias ou mesmo cardumes de um peixe desconhecido. “Mas, chegando mais perto”, escreveu George Best, marinheiro da expedição, “ele descobriu que eram homens em pequenos barcos feitos de couro.” Isolada do mundo e sob um frio intenso, a tribo resistia em algumas poucas casas feitas de blocos de gelo. Pelas feições de olhos puxados dos nativos, Frosbisher concluiu: só podiam ser asiáticos. Eram fortes e ágeis, habilidosos na caça e na pesca, mesmo com instrumentos rústicos, e comiam a carne crua.

Podia ser uma surpresa para os europeus, mas os ancestrais dos esquimós já sobreviviam naquela região havia milhares de anos. A Europa medieval imaginava os povos ao norte como os hiperborianos, habitantes míticos de uma terra onde, segundo a mitologia grega, o sol quente brilha nas 24 horas diárias. Vikings – os primeiros a visitar a Groenlândia, no século 10 – os chamavam de skraeling.

Hoje eles estão entre os povos mais conhecidos do planeta, retratados até nos desenhos animados. É só a aventura se passar no gelo e logo eles surgem, instalados nos iglus ou circulando em trenós puxados por cães. Mas os esquimós são assim mesmo? Como foram parar ali? O termo não existe em nenhum dos dialetos do Ártico e pode inclusive ser considerado ofensivo devido a sua explicação mais comum. Emprestado do vocabulário dos índios algonquins, skimatski (“comedor de carne crus”) tornou-se esquimó no século 16. A teoria mais recente e correta, porém, diz que eles começaram a ser chamados dessa forma por causa de seus sapatos de neve.

Migração

Antropólogos não tinham certeza de sua origem até que o exame de DNA de um corpo mumificado (pré-esquimó) encontrado na Groenlândia ajudou a resolver o quebra-cabeça. Segundo Ernest S. Burch, autor de The Eskimos (“Os Esquimós”), entre 15 mil e 20 mil anos atrás, na última glaciação, uma capa de gelo cobriu o atual Canadá, separando os grupos asiáticos que chegavam à América pela "ponte de terra” entre o estreito de Bering e o Alasca – o mar estava em um nível mais baixo, criando o caminho.

Família de esquimós, em foto para a Revista National Geographic, em 1917 Wikimedia Commons

“Os índios americanos (como os algonquins e sioux) são descendentes daqueles povos que foram pegos embaixo do lençol de gelo do Canadá. Os esquimós descendem das pessoas que continuaram em algum lugar a norte ou oeste”, diz Burch, do Centro de Estudos do Ártico, do Museu Smithsonian, nos Estados Unidos. Quando o clima deu uma chance, as tribos espalharam-se. Um dos mais antigos sítios arqueológicos esquimós, em Labrador, Canadá, tem cerca de 3,8 mil anos.

Hoje, dois grupos principais são chamados de esquimós: inuits (ou esquimós do leste) e yupiks (os do oeste). No norte do Canadá e na Groenlândia, dois terços são do primeiro grupo (que comporta várias subdivisões, como inupiat e inuvialuit). Apesar de traços comuns de linguagem, eles têm diferenças culturais e genéticas com os yupiks, que predominam na Sibéria e no Alasca e também mantêm subgrupos, como os naukans e alutiiqs.

Os yupiks são herdeiros da cultura e da bagagem genética dos primeiros povos que migraram da Ásia, estabelecidos nas terras mais férteis próximas ao litoral e com caça abundante. Moravam em casas de madeira ou pedra, que abandonavam e voltavam a habitar de acordo com a oferta de alimento, condicionada sobretudo pelo clima. Já os ancestrais inuits ocuparam as áreas mais inóspitas (embora em algumas regiões fizesse menos frio) por volta de 1400 a.C.. Nômades e vivendo isolados nos iglus, os inuits que ilustram o imaginário sobre os esquimós não passavam de 5% da população estimada de 70 mil nativos durante o ciclo de explorações contínuas no século 18.

Representação de grupo de esquimós Getty Images

Eles praticavam uma religião xamânica, com rituais para atrair bons augúrios para as caçadas, curar ou controlar o clima. O principal meio de transporte era o trenó, puxado por cães. Animais nativos gozavam de um grande simbolismo. A caça ao urso era a cerimônia de transição dos jovens para a idade adulta. A da baleia tornou-se um evento principal, pois produzia carne capaz de sustentar uma tribo por semanas. Caribus, focas e outros mamíferos marinhos também estão entre as caças mais importantes, a base para roupas e equipamentos. O clima sempre ditou a rotina. No frio, que passava de -30°C em certas áreas, não depender de ninguém de fora da tribo era essencial.

Se dá para falar em uma era de ouro dos esquimós, afirma Burch, ela ocorre no primeiro milênio. Com um longo período de clima favorável, a população cresceu e o artesanato se sofisticou. Clãs promoviam o comércio (na base da troca, sem dinheiro) e guerreavam entre si, fazendo a tecnologia dar um salto. Caiaques e técnicas engenhosas de armazenar comida são dessa época. O sistema político, porém, era quase anarquista. Dentro dos clãs, a liderança dependia da idade e do talento na caça e na guerra. No século 16, a Pequena Era do Gelo derrubou a temperatura na América do Norte e na Europa, levando ao despovoamento das regiões mais isoladas.

Mal de branco

Um grupo de inuits sobreviventes desse processo encontrou Martin Frobisher, em 1576. Mas a expedição inglesa, se ainda é lembrada pela história oral dos esquimós, teve um efeito efêmero diante da chegada de exploradores que reivindicaram suas terras para a Rússia, no início do século 18. A partir daí, em contato permanente com as novas culturas, foram expostos a doenças e epidemias até então desconhecidas, que nos séculos 18 e 19 dizimaram milhares de pessoas. No século 20, a medicina moderna conseguiu reverter a mortalidade. Estima-se que são hoje cerca de 150 mil esquimós. A maioria converteu-se ao cristianismo.

O estilo de vida se transformou radicalmente. Algumas práticas tradicionais são mantidas até para o bem do turismo, mas as “maravilhas do mundo moderno” estão em todo canto. Na caçada ao urso branco, para a ira dos ambientalistas, o rifle tomou o lugar do arpão. Pescam com barcos a motor e usam casacos de tecido sintético.

No último meio século, as tribos se tornaram pequenas cidades, com casas de madeira e aquecimento central, escola, comércio e internet. Contrariando uma velha piada, aconteceu: com o aquecimento global, é complicado preservar alimentos ao ar livro. Mesmo no Ártico, é cada vez mais fácil vender uma geladeira a um esquimó.


Saiba mais

The Three Voyages of Martin Frobisher in Search of a Passage to Catchai and India by the Northwest, George Best, Adamant Media Corporation, 2001.

No País das Sombras Longas, Hans Ruesch, Record, 1996.