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Vitória: leia cartas da rainha escritora

Boa parte dos escritos foi destruída após sua morte, pois os filhos consideraram certas passagens inadequadas ou ofensivas demais

Raphaela de Campos Mello Publicado em 15/06/2020, às 14h26

Rainha Vitória em retrato oficial
Rainha Vitória em retrato oficial - Getty Images

Desde nova, Vitória cultivou um hábito que se intensificou após a viuvez: escrevia em seus diários. Questões de Estado, diplomáticas, familiares, paixões e opiniões. Nada ficava de fora. Mas boa parte dos escritos foi destruída após sua morte, pois os filhos consideraram certas passagens inadequadas ou ofensivas demais (renderiam mais de 700 volumes).

Se, por um lado, a soberana se recolheu por um tempo, evitando aparições públicas, por outro se mostrou por meio de seus escritos. Em 1868, publicou extratos dos seus diários privados num volume intitulado Leaves from the Journal of Our Life in the Highlands sobre as temporadas que passou na Escócia com o marido, Albert, e posteriormente com o braço direito, o escocês John Brown – seu suposto amante, segundo os fofoqueiros da época.

Com desenhos de sua autoria, a obra foi best-seller instantâneo: 20 mil exemplares vendidos. Mas a classe política e seus filhos acharam a iniciativa um equívoco e uma exposição desnecessária e constrangedora. Ela reagiu com fúria. Alegou que o sucesso não decorria da curiosidade do povo, e sim da empatia que este sentia em relação à sua pessoa e ao seu estilo de vida simples, familiar e de boas relações com seus funcionários.

Vitória foi um ser humano passional, de enorme excentricidade, e, ao contrário do que dizem, facilmente capaz de se divertir”, atesta Andrew Norman Wilson, escritor e biógrafo inglês que passou anos lendo seus diários. Também não manifestava preconceito racial ou de classe, tão comum naquela época. Tinha uma alma indomável.

Na morte de seu amado marido, Príncipe Albert, no dia 14 de dezembro de 1861, aos 42 anos, no Castelo de Windsor. A rainha Vitória escreveu uma carta para seu tio Rei Leopoldo da Bélgica:

... ser cortado no auge da vida — para ver a nossa vida doméstica feliz e tranquila o que por si só me permitiu suportar minha posição muito antipática, acabar aos 42 anos — quando eu esperei com tanta certeza que Deus jamais iria nos separar, e iriamos envelhecer juntos — é muito horrível, muito cruel!

No Jubileu de Diamante — uma comemoração para celebrar o longo tempo de um monarca no trono —, em 21 de junho de 1897, no Palácio de Buckingham, Vitória escreveu em seu diário:

Ilustração do Jubileu / Crédito: Getty Images

 

O décimo aniversário da celebração do meu jubileu de cinquenta anos. Tomei café com minhas três filhas na Frogmore House (palácio rural de Windsor). Uma bela manhã.

Quase meio-dia nós dirigimos para a estação para começar o desfile em direção à Londres. A cidade estava muito bem decorada, e havia grandes multidões, que celebravam bastante. Em Paddington eu fui recebida pelo Lorde Cork e outros diretores da GWR (Great Western Railway).

Dirigi, indo a um ritmo acelerado para a plataforma Paddington Vestry, onde um endereço foi apresentado pelo Vigário de Paddington. Então nós procedemos em um ritmo lento, com uma escolta dos Soberanos da 1ª Guarda. Passei entre densas multidões, que me deram a recepção mais entusiasmada. Foi como uma entrada triunfal. Nós passamos pelo Terraço de Cambridge, embaixo de um amável arco, o qual carregava a frase “Nossos corações, teu trono”.

As ruas estavam lindamente decoradas, e também as sacadas das casas, com flores, bandeiras e diferentes cortinas... As ruas, as janelas, o telhado das casas, tinham uma massa de rostos radiantes, e aplausos que nunca cessavam.

Entrando no parque, pelo Marble Arch, a multidão era ainda melhor, carruagens eram puxadas em meio a pessoas caminhando, e até mesmo nas pequenas e bonitas pousadas, havia pessoas bem vestidas. Hyde Park Corner e Constitution Hill estavam lotados. Todos competiam uns com os outros para me dar uma acolhida sincera, leal e afetuosa. Eu estava profundamente tocada e gratificada. O dia tornou-se muito bom e muito quente.

Chegando ao Palácio logo após as 13h, e Vicky [a filha mais velha] me trouxe suas três filhas... [A rainha Victoria recebe então um pingente de diamantes com safiras, uma capa de livro "muito bonita" e um "lindo broche de diamante", como os presentes do Jubileu por sua família]... Então eu fui levada em minha cadeira de rodas para a sala de proa, onde toda a minha família me esperava. Sentada na minha cadeira, como não posso ficar em pé por muito tempo. Eu recebi todos os príncipes estrangeiros em sucessão, começando com o Arquiduque Francisco Ferdinando... após o Lord Salisbury apresentar todos os embaixadores especiais e enviados...eu voltei para meu quarto antes das 16h, já exausta. Telegramas continuavam chegando. Foi quase impossível de abrir todos eles… Tomei chá no jardim…

Me vesti para o jantar. Eu usava um vestido do qual toda a frente era bordada em ouro, que tinha sido especialmente trabalhado na Índia, diamantes na minha cabeça, e um colar de diamantes . O jantar foi na Sala de Jantar, com mesas para doze. Toda a família, realeza internacional, os embaixadores especiais e enviados foram convidados. Eu sentei entre o Arquiduque Francisco Ferdinando e o Príncipe de Nápoles.

Depois do jantar eu fui para o Salão de baile, onde minha banda particular tocou, e os seguintes convidados foram apresentados para mim: os primeiros-ministros coloniais com suas esposas, os enviados especiais, os três príncipes indianos e todos os oficiais das duas escoltas indianas que, como de costume, estenderam as espadas para serem tocadas por mim.

O salão de baile estava muito cheio e terrivelmente quente, e a luz era muito ineficiente. Foi só um pouco depois das onze, quando voltei para o meu quarto, me sentindo muito cansada. Havia um barulho nas ruas, e nos disseram que muitos dormiam nos parques.


Os textos foram traduzidos da página oficial da Monarquia Britânica