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William Buckland: o cientista que devorou o coração do rei Luis XVI

Moscas, crocodilos e ratos também conheceram o interior do teólogo que fazia ciência com o estômago

Thiago Lincolins Publicado em 06/09/2019, às 08h00

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- Getty Images

Durante uma recepção, Lorde Harcourt, arcebispo de York, resolveu passar entre os convivas o orgulho de sua coleção: o coração preservado do Rei Sol, Luís XIV, morto em 1715. De mão em mão, a peça passou, causando suspiros impressionados. Com o mais de um século desde sua preservação, encolhera até o tamanho de uma noz.

Até cair nas mãos da celebridade mais duradoura por ali: o reverendo William Buckland, teólogo e naturalista, o descobridor dos dinossauros, primeiro a descrever um deles numa publicação científica. Impressionado com a relíquia, proferiu: “Eu tenho comido muitas coisas estranhas, mas nunca comi o coração de um rei antes”.

William Buckland, o cientista que comeu o coração do rei / Crédito: Wikimedia Commons

E goela abaixo se foi a relíquia histórica, para o choque de todos. Menos quem conhecia Buckland, um dos cientistas mais estranhos da História.

Nascido em Devonshire, na Inglaterra, ganhou uma bolsa de estudos em Oxford em 1801. Atuou como pastor anglicano e professor até que, em 1824, foi nomeado presidente da Sociedade Geológica de Londres. Ano em que batizou o Megalossauro, reconhecendo pela primeira vez que os dinossauros eram uma categoria de animais há muito extintos, não restos de seres mitológicos.

Como resultado de suas muitas descobertas, Buckland tornou-se um dos mais notórios geólogos e paleontólogos da Inglaterra vitoriana. O que deu a ele certa licença para a excentricidade.

Começou quando trabalhou com aclimatação de animais. Obcecado pelas espécies mais exóticas, importou inúmeras delas para a Grã-Bretanha — cobras, águias, macacos e até uma hiena, apelidada de Billy. Disso veio a brecha para saciar o desejo por carne animal fora dos padrões. Nenhum bicho escapou do seu paladar. Toupeiras, moscas varejeiras, panteras, crocodilos e ratos — estes, acompanhados de torradas — conheceram o interior de Buckland.

O hábito não parou na degustação das espécies. Ao visitar uma catedral em Londres, ouviu uma história que afirmava que o sangue dos santos se espalhava pelo chão e paredes da igreja. E a prova estava diante dele, uma mancha no chão.

Usando do exclusivo Método Buckland, investigou a mancha abaixando-se ao chão e lambendo-a. Levantou-se e, diante do que certamente era uma plateia atônita, encerrou com estas palavras a lenda piedosa: “urina de morcego”.

Buckland se foi em 1856, por um problema neurológico. A compulsão foi passada de pai para filho. Frank Buckland continuou a degustar seus objetos de estudo. Seu apelido era “o homem que comia tudo”.