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Historiadora revela como estrangeiros enxergaram a queda dos Romanov: 'Muitos pensavam que o governo agonizava'

Em entrevista exclusiva ao site do Aventuras, Helen Rappaport, autora de Em meio à Revolução, comenta como essas pessoas encararam a revolução

Fabio Previdelli Publicado em 14/03/2021, às 00h00

Soldados e civis se manifestando durante a Revolução, em 1917
Soldados e civis se manifestando durante a Revolução, em 1917 - Wikimedia Commons

Sofrendo com os impactos da Primeira Guerra Mundial, a Rússia passava por um processo de recém-industrialização, onde a massa de operários e camponeses trabalhava muito e recebia pouco. 

Em contra partida, o governo absolutista de Nicolau II desagradava os menos afortunados, que o enxergavam como opressor e pouco democrático. Assim, manifestações populares ganharam vida.  

Entre 8 e 16 de março de 1917, o país viveu sua primeira revolução, que foi responsável por derrubar o czar. O ato ficou conhecido como Revolução de Fevereiro — a divergência de datas se dá pelo fato da Rússia ainda adotar o calendário Juliano naquela época, enquanto a maioria dos países se baseava pelo calendário Gregoriano, o que representava uma diferença de 13 dias entre as datas. 

Reunião realizada na Assembleia Soviética de Petrogado, em 1917 / Crédito: Wikimedia Commons

 

 Já entre os dias 7 e 8 de novembro, que ficaram conhecidos como a Revolução de Outubro, os bolcheviques derrubaram o Governo Provisório e implantaram um governo socialista soviético. O que foi visto com certo otimismo pelos russos, afinal, as promessas de uma vida melhor os enchiam de esperança.  

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Em meio à revolução, de Helen Rappaport / Crédto: Divulgação / Editora Objetiva

Neste mesmo período, o país abrigava grandes colônias de estrangeiros, como jornalistas, diplomatas, empresários, banqueiros, enfermeiras voluntárias e socialistas expatriados. Cada qual com uma vivência e interpretação diferente desses momentos.  

E é justamente esse ponto de vista que a renomada escritora Helen Rappaport apresenta no recém-lançado “Em meio à Revolução” (Editora Objetiva), que mostra como cada um deles presenciou desde o golpe bolchevique de Lenin até a ascensão de Stalin.  

"Havia uma grande lacuna nos relatos da revolução de 1917. Temos muitos livros em russo que descrevem os eventos do ponto de vista russo, mas eu sabia que havia muitos estrangeiros em Petrogrado na época — particularmente Cidadãos britânicos e americanos, também franceses e dinamarqueses”, diz Helen em entrevista exclusiva ao site do Aventuras 

“Mas seus relatos da revolução são subutilizados e apenas algumas das testemunhas oculares mais óbvias foram citadas. Sei que muitas dessas pessoas escreveram cartas para casa, mantiveram diários ou foram correspondentes em jornais. Eu queria encontrar essas fontes e contar a história da revolução em Petrogrado do seu ponto de vista, como testemunhas oculares estrangeiras”, explica sobre a motivação que teve para escrever sua nova obra.  

A historiadora explica que, desde o século 18, já existia uma colônia inglesa em Petrogrado — atual São Petersburgo — que cresceu consideravelmente em 1917.  “Alguns dos expatriados britânicos e americanos estavam lá administrando negócios — especialmente fábricas têxteis — grande número de empresas estrangeiras na cidade”, comenta.  

Revolucionários protestando em fevereiro de 1917 / Crédito: Wikimedia Commons

 

Outra parte era a de colonos americanos, além de diplomatas, correspondentes estrangeiros e, durante a guerra, adidos militares de governos aliados. “Mas também havia muitas mulheres inglesas e escocesas como governantas e babás, e homens britânicos também trabalhavam em Petrogrado como tutores e professores”. 

Nicolau visto por estrangeiros 

Rappaport comenta que muitos desses estrangeiros ficaram em alerta com a natureza repressiva do antigo sistema czarista. “Puderam ver as rachaduras se formando, que estava lentamente se desintegrando sob a ameaça dos revolucionários”.  

“Muitos pensavam que o governo de Nicolau II agonizava e precisava de reformas ou até mesmo morrer”, explica. “Diplomatas estrangeiros — especialmente o embaixador britânico — regularmente alertavam o czar que haveria uma revolução”. 

Porém, apesar de horrorizados com a brutal repressão czarista aos protestos, onde o governo repreendia a população com tiros, os estrangeiros também ficaram igualmente chocados com a “anarquia e a violência dos revolucionários”, garante a historiadora.  

Após o assassinato do czar, Helen conta que as notícias sobre sua morte demoraram a surgir, já que os bolcheviques não admitiam ter matado Alexandra Feodorovna, esposa de Nicolau II, e seus filhos. O que fez com que ninguém em Petrogrado realmente soubesse o que havia acontecido.  

Execução da família Romanov anunciada no Le Petit Journal  em 1926 / Crédito: Wikimedia Commons

 

“Em geral, as pessoas não se surpreenderam com a morte de Nicolau II, mas previram que seu reinado terminaria em violência”, diz Rappaport. “Mas eles ficaram horrorizados quando surgiram notícias sobre as crianças. Mas só muitos anos depois, quando muitos dos expatriados deixaram a cidade”. 

A Revolução sob o olhar dos estrangeiros 

Em geral, a historiadora conta que as pessoas enxergavam a revolução com muita esperança, já que elas estavam famintas por mudanças, por um governo mais democrático, com melhores salários, direitos civis, moradia, entre outras coisas. “Mas nenhuma das promessas da revolução foi cumprida como esperado — houve ainda mais caos, fome e violência”.  

“Então, quando os bolcheviques tomaram o poder, em outubro de 1917, eles introduziram um regime ainda mais repressivo do que o dos czares. As testemunhas oculares ficaram cada vez mais atentas com o passar do ano, pois o que havia recebido com entusiasmo no início se transformava num pesadelo. Mesmo muitos socialistas convictos da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos expressaram seu horror ao novo regime”, revela. 

Porém, nem todos foram pegos de supressa. Helen conta que, durante a Primeira Guerra, muitos estrangeiros começaram a deixar o país, pouco antes da Revolução de Fevereiro, pois já previam o que aconteceria.  

A historiadora Helen Rappaport / Crédito: Divulgação/ Lucy Davies/ Editora Objetiva

 

“Após a revolução de fevereiro, muitos deles ficaram presos e não puderam sair por vários meses. Aqueles que partiram antes da conquista bolchevique, tiveram seus negócios destruídos e vandalizados. Mas, uma vez que os bolcheviques estavam no poder, todos os negócios estrangeiros foram confiscados e muitos dos estrangeiros em Petrogrado perderam tudo". 

“Muito poucos permaneceram na Rússia depois que os bolcheviques assumiram”, conta Helen Rappaport. “Os únicos estrangeiros que ficaram foram aqueles que simpatizavam com a agenda comunista/socialista”, completa.


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