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O horripilante caso dos 170 mil órfãos da Romênia

As atrocidades cometidas no tratamento de crianças órfãs durante o governo de Ceaușescu foram expostas após o fim da Revolução Romena

Caio Tortamano Publicado em 23/02/2020, às 08h00

Crianças em orfanato de Vasilu
Crianças em orfanato de Vasilu - Getty Images

Depois de ter sido deposto em 1989, o governo de Nicolae Ceaușescu na Romênia ficou exposto aos olhares internacionais depois de um período de repressão e fechamento para o mundo exterior por conta da doutrina socialista soviética defendida por Ceaușescu.

Essa abertura revelou uma tenebrosa realidade sobre o país europeu, muitas crianças assustadas e sozinhas, acorrentadas em berços em cima de poças de urina. Distribuídas em 700 orfanatos estatais, mais de 170 mil crianças ficaram órfãs devido aos terrores do processo da Revolução Romena.

Na realidade, foram diversos os fatores que proporcionaram esse triste número. O governo de Ceaușescu promoveu uma política de incentivo ao aumento de capital humano, proibiu os abortos e divórcios (duas taxas altíssimas no país em comparação com a Europa), institui um imposto para casais sem filhos e incentivou financeiramente mães que, também, trabalhassem.

A medida mais extrema pensada pelo governo certamente foi a polícia menstrual. Grupos de ginecologistas entravam em escritórios e escolas para investigar as intimidades das mulheres que não estavam grávidas ou se tinham abortado há pouco tempo.

Crianças esperando para serem adotadas em orfanato de Bucareste / Crédito: Getty Images

 

O Estado empregou profissionais da saúde para cuidar das crianças que eram literalmente dadas ao governo para serem criadas sob supostas melhores condições. Porém, o que se via eram orfanatos superlotados, onde 12 crianças dividiam o mesmo espaço com pouco ou nenhum estímulo.

Depois que esses horrores foram descobertos, médicos ocidentais fizeram exames nas crianças observando um quadro quase geral de subnutrição, retardo de crescimento e abusos sexuais e físicos. Muitas das crianças, inclusive, eram HIV positivo devido à transfusões de sangue usadas discriminadamente para tratar doenças.

De acordo com os relatos de Izidor Ruckel, uma das crianças que sobreviveram a esses horrores, ele sofreu com pólio durante a década de 80, e foi mandado para um orfanato com três anos de idade.

Ruckel conta que eles tinham café da manhã e depois eram colocados em um quarto recém-limpo, em que tudo que faziam de estimulante era balançar pra trás e pra frente. Quando alguma criança estava muito agitada ou batia em outras era colocada em uma camisa de força, se não fosse o suficiente, eram dopadas para que ficassem mais tranquilas.

O então garoto foi adotado por uma família americana de San Diego, depois que a rede televisiva dos Estados Unidos, ABC, fez um documentário mostrando a horripilante realidade dessas  crianças romenas. A exposição ajudou diversos meninos e meninas a serem adotadas, Ruckel conta que foi surreal pisar nos Estados Unidos, um lugar que tinha tantos carros e uma casa que ostentava uma faixa carinhosa dizendo “Seja bem-vindo, Izidor!”.


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