Matérias » Personagem

Hong Xiuquan, o revolucionário chinês que afirmava ser o irmão mais novo de Jesus Cristo

Nascido no século 19, o líder da rebelião Taiping se autodenominava como o "filho de Deus, mandado por Ele para salvar a China"

Giovanna Gomes Publicado em 25/11/2020, às 11h00

Estátua de Hong Xiuquan
Estátua de Hong Xiuquan - Wikimedia Commons

O chinês Hong Xiuquan era um jovem filho de camponeses da província chinesa de Guangzhou que sonhava em se tornar servidor público. No entanto, em determinado momento, sua vida mudou por completo: tornou-se o líder de uma rebelião que tinha como objetivo a derrumada do imperador. Mas, o mais curioso de sua história era que Hong se autointitulava como o irmão mais novo de Jesus Cristo.

Juventude e conversão ao Cristianismo

No ano de 1837, Hong Xiuquan adoeceu e ficou de cama durante mais de um mês. Nesse período, ele tinha diversas visões, ou mesmo delírios. Uma das mais marcantes dessas visões foi a de um ancião de cabelos longos que lhe disse que seu destino era purificar a Terra e iniciar um período de paz divina. Já uma outra revelou a ele que a única forma de realizar tal objetivo seria enfrentando inúmeros demônios.

Segundo o ancião, Hong era o segundo filho de Deus e, portanto, irmão de Jesus Cristo. Porém a visão ficou esquecida durante anos, até que, em 1843, Xiuquan leu um panfleto protestante que o fez se recordar dela. Em seguida, o chinês decidiu se converter ao Cristianismo e ir estudar com missionários.

Hong Xiuquan/ Crédito: Wikimedia Commons

 

Devido às suas ideias radicais, Hong foi afastado. Assim, começou a pregar os princípios cristãos, em especial os do Velho Testamento, misturados com valores orientais.

Rebelião

Conforme pregava, Xiuquan agregava seguidores, os quais se organizavam em milícias. A maioria deles viam na missão uma maneira de escapar da pobreza e da fome. No entanto, apesar do envolvivento com a religião, o evangelho de Hong possuía um forte teor político, já que associava os governantes manchu da dinastia Qing e os oficiais que os serviam com demônios.

Em dezembro de 1850 ocorreu o primeiro confronto entre os rebeldes e as tropas do império. Os Taiping já contavam com 20 mil convertidos e não encontraram resistência durante o ataque. Em 19 de março de 1853, eles tomaram Nanquim, a antiga capital do império, episódio no qual cerca de 30 mil moradores locais foram assassinados.

Pintura retratando a Rebelião/ Crédito: Divulgação

 

No novo governo, tanto o trabalho quanto as propriedades eram compartilhadas. Além disso, algumas práticas antes comuns foram proibidas, tais como a escravidão, a tortura, as drogas, os jogos de azar e a prostituição. Além disso, as mulheres foram liberadas do costume de amarrar os pés e dos casamentos arranjados e os homens deixaram de raspar a testa e trançar os cabelos.

Desfecho

Mais de 32 mil suspeitos de simpatizarem com um contra-ataque organizado pelo governo qing foram degolados. Foi só com o fim da Segunda Guerra do Ópio, em 1860, que o governo conseguiu desmantelar a revolta. Os Taiping tentaram diversas vezes reestabalecer seu domínio, mas sem sucesso.

Estátua de Hong em Nanquim/ Crédito: Wikimedia Commons

 

Assim, Hong deixou de lado os assuntos administrativos e militares, deixando seu filho em seu lugar. Em 1864, Nanquim foi cercada e o novo líder foi capturado e esquartejado. À essa época, seu pai já havia morrido envenenado cerca de dois meses antes. Naquele sangrento episódio, proximadamente 100 mil rebeldes cometeram suicídio para que não fossem mortos pelas mãos dos inimigos.

Contudo, apesar de terem obtido êxito contra os rebeldes, os Qing logo tiveram de deixar o poder, uma vez que o conflito havia inspirado novos grupos a lutarem contra eles. Assim, na chamada Revolução , ocorrida em 1911, os Qing foram derrotados.