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Howard Dully, o jovem que sobreviveu aos horrores da lobotomia

O garoto recebeu um diagnóstico controverso de esquizofrenia e aos 12 anos passou pelo tratamento que deixou marcas eternas

Penélope Coelho Publicado em 23/05/2020, às 08h00

Howard Dully antes do procedimento
Howard Dully antes do procedimento - Divulgação

Em meados da década de 1940, a família Dully levava uma vida normal e tipicamente norte-americana, na cidade de Oakland, Califórnia. As coisas começaram a mudar para o casal Rodney e June Louise Pierce Dully, em 1948, após o nascimento do primogênito, Howard Dully.

Desde cedo Howard teve que aprender a conviver com perdas, criando certa força mesmo muito jovem, devido aos traumas a que seria submetido. O garoto perdeu a mãe para um câncer quando era apenas uma criança, no ano de 1954. Somente um ano depois do falecimento da esposa, Rodney casou-se novamente, dessa vez com a mãe solteira Shirley Lucille Hardin.

Mesmo com esse grande abalo emocional em sua vida, Howard Dully era uma criança comum. Quando criança, ele gostava de andar de bicicleta e jogar xadrez, às vezes brigava com seu irmão mais novo, ocasionalmente desobedecia às ordens dos pais e roubava doces na dispensa, nada que fosse tão incomum para um menino de 12 anos, que perdeu a mãe cedo demais.

Porém, esse comportamento começou a incomodar principalmente sua madrasta, que sugeriu levar o menino para uma consulta médica com o doutor Dr. Walter Freeman. O episódio mudaria para sempre a história de Dully.

Dr. Walter Freeman (esquerda) e Dr. James W. Watts, em 1941 / Crédito: Wikimedia Commons

 

O médico Walter Freeman ficou mundialmente conhecido por práticas de lobotomia, o neurologista era radical no tratamento de doenças mentais e realizou o insólito procedimento em cerca de 2.500 mil pacientes, ao redor de 23 estados dos EUA.

Antigamente, essa prática desenvolvida em 1935, era considerada milagrosa para o tratamento de doenças mentais, antes de existir um conhecimento maior sobre medicamentos e psicoterapia.

A lobotomia consistia na inserção de um instrumento de corte no cérebro do paciente, para perfurar o crânio nas laterais da cabeça. O cirurgião encarregado movia o instrumento cortando as conexões dos lobos frontais do cérebro. Hoje em dia, essa prática bárbara foi praticamente abolida, já que é de conhecimento geral da comunidade médica que os efeitos colaterais são severos.

Dully durante o procedimento

 

Na época, Howard, com toda a inocência de um garoto de 12 anos, prestou atenção em alguns detalhes em Freeman: seus óculos redondos bem apertados na cabeça, o terno elegante do médico e o cavanhaque que ele exibia.

Procedimento macabro

Apenas dois meses após a primeira consulta com Freeman, o pai e a madrasta de Dully decidiram internar o menino em um hospital particular, na Califórnia. Em 16 de dezembro de 1960, Howard foi levado para a sala de operação do doutor Walter, passando por um processo de lobotomia. A última coisa da qual ele se lembra foi de ter sido sedado por choques elétricos.

Freeman era famoso por martelar um picador de gelo sobre o globo ocular do paciente, de modo que quando adentrava no crânio, separava as vias que ligam os lobos frontais a outras regiões do cérebro. O mesmo aconteceu com Howard Dully.

Dully em seu documentário / Crédito: Divulgação 

 

Anos seguintes

Depois de acordar da cirurgia, Dully sentiu os olhos inchados e doloridos, além de passar um tempo com febre alta. Mentalmente sentia-se como um zumbi. O garoto não fazia ideia do que tinha acabado de acontecer com ele.

Mesmo sendo um dos pacientes mais jovens a passar por uma lobotomia, Howard sobreviveu e não ficou com sequelas, algo extremamente raro. O norte-americano nunca apresentou lentidão na fala, problemas nos olhos, falta de inibição social, nem perdeu o movimento das pernas, sintomas comuns em pacientes que sobreviveram a esse procedimento. Howard milagrosamente ficou bem.

Anos depois, tornou-se motorista de ônibus, casou e teve um filho. Mas, sempre se manteve intrigado para saber o que havia acontecido com ele. No ano de 2005, o pai e a madrasta do homem já estavam mortos e ele não confiava muito em suas memórias, por isso, resolveu fazer uma pesquisa extensiva através de viagens pelos Estados Unidos, para entender o que tinha acontecido com ele, quando tinha apenas 12 anos.

Após muitas conversas com membros de sua família e outros pacientes de Walter Freeman, o motorista chegou à conclusão de que era a hora de expor sua história para o mundo. Em 2005, falou pela primeira vez sobre o assunto, através da National Public Radio, como um documentário.

No ano de 2007, publicou seu livro de memórias em parceria com o escritor Charles Fleming. A obra retrata suas experiências quando criança e as consequências do procedimento em sua vida. Além de mostrar em detalhes a busca pelo entendimento do ato desnecessário e brutal ao qual foi submetido. O livro foi sucesso de vendas e de críticas. Atualmente, aos 71 anos, Howard Dully vive bem com sua família e mantém uma vida estável nos Estados Unidos.


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