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Humor e limites: Os Mamonas Assassinas sobreviveriam a era do cancelamento?

Com músicas repletas de sátiras, o grupo chegou a dizer que os mal-humorados eram "falsos moralistas"

Wallacy Ferrari Publicado em 20/02/2021, às 08h00

Os membros reunidos em um ensaio para o encarte do álbum
Os membros reunidos em um ensaio para o encarte do álbum - Divulgação

Unindo estilos brasileiros com humor, o gênero sonrisal autoproclamado pelos Mamonas Assassinas se tornou um sucesso nacional durante a metade da década de 1990; de acordo com dado da Associação Brasileira de Música e Artes, o conjunto totalizou 2,4 milhões de cópias vendidas apenas com o disco de estreia.

O principal combustível para as composições era a 'comédia', apontando em fatores cotidianos presentes na sociedade e, principalmente, construindo personagens em torno das composições.

A sonoridade foi bem recebida pelo país, que apesar das brincadeiras constantes com sotaques e características, possibilitou que o grupo realizasse shows em 24 estados e no Distrito Federal, deixando de visitar apenas o Acre e Tocantins.

A vítima do principal sucesso do grupo, o “Vira-Vira”, eram os portugueses, que também riram junto; de acordo com a Folha, o grupo foi certificado com disco de ouro após atingir 16,5 mil vendas no país europeu. Era para lá que o grupo iria em 3 de março de 1996 — contudo, foram vítimas de um acidente aéreo fatal no dia anterior.

Os Mamonas Assassinas reunidos com fantasias de Chapolin Colorado / Crédito: Divulgação / Facebook

 

O sucesso continuaria?

Com pautas sobre minorias cada vez mais discutidas, o escárnio de classes se torna um debate; a busca pelo limite do humor, sobre o que é ou não ofensivo e se a ofensa caracteriza liberdade de expressão atingiriam o trabalho do grupo diretamente na atualidade. Visando tal fato, a rádio Jovem Pan realizou em 2016 uma análise lírica das composições do grupo e avaliou se estariam enquadradas ao “politicamente correto”.

Em ‘1406’, faixa de abertura do álbum, o veículo apontou o primeiro argumento; o consumismo é apontado como uma característica feminina ao dizer que "a pior de todas é minha mulher, tudo o que ela olha a desgraçada quer".

No ‘Vira-Vira’, a sátira portuguesa é deixada de lado pela rádio, mas os versos de conotação sexual e o relato de um agressivo abuso da personagem Maria aponta um possível cancelamento.

O escárnio de características físicas também é presente, com os “cabelo pixaim parecida com a Medusa” em ‘Uma Arlinda Mulher’. Em ‘Jumento Celestino’, o apelido “cabeção” foi apontado como um exemplo de xenofobia. Na conclusão da análise, a faixa ‘Robocop Gay’ foi apontada como uma construção de deboche e estereótipos sobre “sair do armário”.

Dinho satiriza figura feminina com peruca longa e vestido durante apresentações / Crédito: Divulgação / YouTube

 

Intenção da obra

Em entrevista para Cuca Lazarotto na MTV, em 1995, os Mamonas foram questionados sobre pessoas que possam ter se ofendido com as obras. Dinho brincou, mas depois respondeu de maneira séria: "Não, as pessoas estão entendendo a mensagem da música. [...] A gente só quer dar alegria pro povo, muita gente tem motivo para chorar".

Perguntados sobre os mal-humorados, concluíram: "As pessoas são falsas moralistas... Geralmente, quem não conhece o trabalho a fundo são aqueles que metem o pau”, auxiliou Júlio. No entanto, o então empresário do grupo, Rick Bonadio, teve a oportunidade de falar sobre a situação dos músicos nos dias atuais em outubro de 2020.

Sendo entrevistado por Joca Guanaes, do Correio 24 Horas, Rick afirmou que “eles seriam ‘cancelados’ no primeiro refrão”, mas concorda com a avaliação do teor: “Dinho, que era baiano, sacaneava negros, gays e nordestinos, mas era tudo uma piada com bom senso e inocência, até. Mas a nossa sociedade vive uma situação de amadurecimento que as pessoas estão, com toda razão, defendendo que não se façam piadas dessa maneira”.


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