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Íbis sagrados: o mistério dos 6 milhões de pássaros mumificados no Egito Antigo

Os pesquisadores se questionavam: como foi possível que os egípcios conservassem os corpos dessa exorbitante quantidade de aves?

Isabela Barreiros Publicado em 27/05/2020, às 07h00

Um íbis mumificado
Um íbis mumificado - Divulgação

A mumificação foi um costume comum no Egito Antigo. Faraós e a maioria dos membros da nobreza eram submetidos à prática logo que faleciam, tendo seus corpos guardados para a eternidade por meio do método de preservação. Mas um fato peculiar sobre os antigos é que eles também faziam a mesma coisa com animais.

Crocodilos, camundongos, gatos e aves, mais especificamente os íbis, foram conservados pela técnica geralmente destinada apenas aos mais poderosos. Então, o que teria levados os egípcios a mumificarem meros animais?

Descoberta fascinante

Nas catacumbas de Tuna el-Gebe e no cemitério de Saqqara, no Egito, foram encontrados milhares de múmias de animais. 4 milhões de íbis foram descobertas no primeiro local e 1,75 milhão no segundo. A enorme quantidade intrigou pesquisadores, que passaram a estudar os motivos que teriam levado a realeza a mumificar tantas aves.

Para a pesquisadora da Universidade Griffith na Austrália, principal autora do artigo sobre o tema publicado na revista científica Plos One, Sally Wasef, tratava-se de uma oferenda, parte de rituais para agradar deuses, principalmente o deus Thoth. Realizar tais cerimônias tornou-se comum entre os anos de 450 e 250 a.C.

Crédito: Divulgação

 

"O íbis foi considerado [para representar] o deus Thoth, o deus da sabedoria, o deus da magia, o deus do julgamento, escrevendo todo tipo de coisa”, explicou Wasef. “Se você tinha um chefe que o irrita e não sente que está recebendo um bom julgamento dele ou deseja justiça, peça a Thoth para interferir e, em troca, prometa oferecer a ele um íbis, um íbis mumificado, em sua festa anual”, disse.

“Costumo compará-lo com as velas acesas nas igrejas cristãs”, disse o arqueólogo da Universidade de Oxford, Francisco Bosch-Puche."A múmia [íbis] lembraria ao deus que eles precisavam cuidar de você”, concluiu.

Mas apenas uma parte das dúvidas foi resolvida. A exorbitante quantidade de pássaros em apenas dois locais específicos continuou causando questionamentos nos pesquisadores, que persistiram na pesquisa. Assim, analisaram o DNA de 14 dos íbis sagrados mumificados encontrados e compararam com 26 amostras modernas de toda a África.

As hipóteses

O grupo de Wasef sugeriu que esses animais foram criados em uma espécie de escala “industrial”, em incubatórios, com o objetivo específico de serem utilizados nos rituais. A hipótese apoiou-se em textos antigos, escritos pelo sacerdote e escrita do século 2 a.C. Hor de Sebennytos. Ele dizia algo sobre a necessidade de alimentar milhares de íbis com pão e trevo.

No entanto, o resultado das análises não confirmou essa teoria. "As variações genéticas não indicaram nenhum padrão de agricultura de longo prazo semelhante às fazendas de frango hoje em dia", explicou a pesquisadora. A diversidade no DNA dos antigos animais não difere dos modernos, ou seja, eles provavelmente eram selvagens e não criados pelos egípcios.

Crédito: Divulgação

 

Além disso, os egiptólogos relembraram também que nenhuma estrutura de incubatório foi encontrada ao longo dos anos por eles, o que fragilizou ainda mais a tese. A partir das conclusões, sugeriram uma nova: os pássaros eram encurralados em locais específicos e, então, mantidos em um habitat natural ou em fazendas por um curto período.

“[O mais provável é que] ao lado de cada templo havia um lago ou um pântano —  é um habitat natural para o íbis morar e, se você lhes der comida, eles continuarão chegando”, explicou Wasef. "Eu acho que a ideia de que você possa incentivar os bandos a ficar mais tempo ou chegar a uma área específica em determinadas épocas do ano é boa", concordou Paul Nicholson, especialista no tema, da Universidade de Cardiff.

Portanto, os pesquisadores chegaram à conclusão de que os pássaros, para chegarem em tamanha quantidade, não foram criados especificamente pelos egípcios. Na verdade, os responsáveis pelos cultos apenas agrupavam os animais, fazendo com que eles permanecessem em um local específico por um curto período até serem, finalmente, mumificados e colocados como oferenda para os deuses.


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