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Ícone do esporte: Há 77 anos, Jackie Robinson se recusava a deixar seu lugar em um ônibus

Anos depois, Robinson se tornaria o primeiro atleta negro a atuar na MLB, liga de beisebol

Fabio Previdelli Publicado em 06/07/2021, às 17h33

O atleta Jackie Robinson
O atleta Jackie Robinson - Biblioteca do Congresso/Wikimedia Commons

Quando a Segunda Guerra acabou, os soldados negros que haviam lutado pelos Estados Unidos voltaram a viver uma triste e dura realidade — um tanto quanto irônica por sinal — afinal, aqueles que haviam oferecido sua vida num conflito para combater o racismo e o preconceito, teriam que enfrentar o mesmo mal, só que agora em seu próprio país.   

Entre 1870 e 1960, as Leis Jim Crow separam os brancos das chamadas ‘pessoas de cor’, obrigando esse segundo grupo a viver uma vida afastada de todos os direitos que uma pessoa deveria ter. Desta vez, o inimigo ainda os batia, tão forte quanto ainda é, só que com uma única diferença: toda deslealdade era favorecida pela lei. 

Como se não bastasse, muitos de seus direitos foram negados, não só o acesso à educação ou um lugar digno para viver, mas também eram impedidos de se sentarem em bancos de '‘brancos’, ou de usar seus banheiros, bebedouros e tudo mais que se possa imaginar. A segregação atingia seu período mais crítico.  

Jackie Robinson/ Crédito: Biblioteca do Congresso/Wikimedia Commons

 

Para superá-las, precisaram ser fortes, resilientes e superar barreiras que não deveriam existir. Com muito suor e coragem, muitos negros prosperaram e servem de inspiração até hoje. É o caso do jogador de beisebol Jackie Robinson.  

De combatente a atleta, referência em ambos 

Na carreira de Robinson, o dia que muitos consideram como o mais marcante é o 15 de abril de 1947, quando ele atuou pela primeira vez com a camisa do Brooklyn Dodgers, importante time de beisebol da época. Assim, se tornou o primeiro negro a jogar na Major League Baseball, a principal liga do país. 

Porém, outra data importante em sua vida, é pouco lembrada: o 6 de julho de 1944. Há exatos 77 anos, quando ainda era Tenente, Jackie bateu de frente com a segregação. Na ocasião, como recorda o livro ‘Jackei Robinson: A Biography’, de Arnold Rampersad, “Robinson se envolveu em uma disputa que ameaçava encerrar seu serviço militar em desgraça”. 

Na ocasião, estava em um ônibus militar voltando do “clube de oficiais de cor” para um hospital, quando se sentou ao lado de Virginia Jones, esposa de um de seus colegas oficiais. Porém, o motorista não gostou nada de um negro estar ocupando aquele lugar.  

Depois de alguns quarteirões, o piloto ordenou abruptamente a Robinson "que fosse para a parte de trás do ônibus". Robinson, indignado, com razão, recusou. Entre outras coisas, ele havia lido que a segregação não era mais permitida em ônibus militares, segundo a PBS.  

Porém, segundo artigo da Zinn Education Project, Jackie acabou sendo levado à Corte. Transferido para o 758º Batalhão de Tanques, em 24 de julho, o comandante assinou ordens para processá-lo. No mesmo dia, diz a PBS, ele foi preso. 

Robinson, vestindo seu uniforme do Exército/ Crédito: Biblioteca do Congresso/Wikimedia Commons

 

“Às 1:45 da tarde de 2 de agosto, o caso Estados Unidos vs. 2º Tenente Jack R. Robinson, 0-10315861, Cavalaria, Companhia C, 758º Batalhão de Tanques, começou”, narra Rampersad. Seu destino estava nas mãos de nove homens, oito deles brancos. “Um era negro; outro tinha sido um estudante da UCLA [onde Robinson era estudante de graduação]. Seis votos eram necessários para a condenação”, continua. 

O tenente enfrentou duas acusações: “A primeira, uma violação do Artigo da Guerra No. 63, acusou-o de 'se comportar com desrespeito para com o Capitão Gerald M. Bear, CMP, seu oficial superior' ... A segunda acusação foi uma violação do Artigo No 64, neste caso 'desobediência deliberada do comando legal de Gerald M. Bear, CMP, seu superior”, prossegue a biografia.  

Outras três acusações foram retiradas antes do início do julgamento. Segundo testemunhos da época, aponta a PBS, ele “lutou bravamente para se defender na noite do incidente, incluindo supostamente ter dito heroicamente: ‘Olha aqui, seu filho da pu**, não me chame de negro!’”. 

Depois de quatro horas, Jackie Robinson acabou sendo exonerado. “Robinson obteve pelo menos os quatro votos (secretos e escritos) necessários para sua absolvição. Ele foi considerado 'inocente de todas as especificações e acusações'”, completa Arnold Rampersad

Outro episódio envolvendo um ônibus 

Este, entretanto, não foi o único episódio assim envolvendo Robinson. Em 26 de fevereiro de 1946, Jackie e sua esposa Rachel, com que era casado há menos de três semanas, embarcam no aeroporto de Lockheed, em Los Angeles, com destino a Daytona Beach, na Flórida.  

Lá, Robinson tentaria entrar para o elenco do Montreal Royal, o melhor time da liga secundária, que fazia parte do Brooklyng Dodgers. Entretanto, para ter sucesso, precisaria prosperar num estado sulista que, como aponta a USA Today, era o berço onde a Ku Klux Klan cavalgava à noite.

Quando fizeram uma parada em Nova Orleans, onde a aeronave fez uma escala, os dois acabaram impedidos de voltar ao voo. Segundo o periódico americano, os dois foram informados que a equipe de pilotos havia recebido o alerta de uma tempestade, assim, teria que levar menos peso na segunda parte do trajeto. Entretando, os dois, e somente os dois, foram impedidos de embarcar.  

Robinson com a camisa do Dodgers/ Crédito: National Archives and Records Administration/Wikimedia Commons

 

Com isso, Jackie e Rachel tiveram que seguir o caminho em uma viagem de ônibus. Porém, desta vez, quando o motorista disse a Robinson que ele não poderia ocupar a cadeira logo atras da sua, por ser negro, ele acabou acatando o pedido. 

Jackie não havia aceitado a situação porque queria, mas sim apenas havia seguido algo que conversou meses antes como Branch Rickey, presidente e gerenal manager do Brooklyn Dodgers.

Quando ainda atuava na Negro League, categoria destinada às “pessoas de cor”, Rickey disse que sabia dos problemas que Jackie teve no Exército, porém, como aponta a ESPN, falou que não poderia contratar um jogador que rebatia atos racistas, já que isso poderia inflamar ainda mais os ânimos de poderosos que comandavam a MLB.  

“Sei que você é um bom jogador. O que não sei é se você tem colhões”, disse o manager. "Você está procurando um negro que tenha medo de lutar?", rebateu o atleta. Robinson, estou procurando um jogador com coragem o bastante para não revidar." 

Ao longo da carreira, diz o USA Today, Robinson entendeu a conversa das piores maneiras possíveis, sendo agredido e xingado por adversários e torcedores, entre outras coisas. Porém, sabia que toda sua luta serviria para um ‘bem maior’.  

“Tínhamos concordado que eu não tinha o direito de perder a paciência e comprometer as chances de todos os negros que me seguiriam se eu pudesse quebrar as barreiras. Então eu mudei”, declarou em sua autobiografia ‘I Never Had It Made’. 


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