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Caso Nazino: a ilha canibal de Stalin

Ao isolar pessoas "indesejadas" durante a política de deportação, o governo de Stalin foi responsável por um cruel episódio da história soviética

Isabela Barreiros Publicado em 27/10/2019, às 08h00

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- Getty Images

O Caso Nazino foi uma política de Stalin que deportou mais de 6 mil pessoas para uma ilha, denominada Nazino, localizada na Sibéria Ocidental, a 540 quilômetros da capital Tomsk. Eles foram enviados à região inóspita com o objetivo de construir um “assentamento especial”.

Nos meses de março e junho de 1933, milhares de pessoas foram presas e posteriormente deportadas de Moscou e São Petersburgo, na época Leningrado. As autoridades alegaram que eles foram detidos por falta de passaporte.

As vítimas dessa política foram principalmente os considerados "elementos degradantes e socialmente prejudiciais" pelo governo. Ex-comerciantes e comerciantes, camponeses que fugiam da fome, pessoas condenadas por pequenos crimes foram detidas pela polícia soviética.

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Crédito: Wikimedia Commons

O historiador Nicolas Werth, autor de do livro Cannibal Island (Ilha Canibal, em tradução livre), analisa que essas pessoas não se encaixavam na estrutura de classe, idealizada pela ideologia comunista da Rússia no período.

Em direção à ilha, junto com elas, foram enviados farinha, que serviria de alimento e algumas ferramentas e roupas — apenas isso para sobreviver ao hostil frio da Sibéria. Claro que o resultado foi catastrófico.

“Em um cenário desumano (dois terços dos deportados morreram de fome, exaustão e doenças nas semanas seguintes de seu abandono na ilha), a brutalidade seguiu para transgressões tais quais canibalismo e necrofagia”, escreve Werth.

O cenário era de caos absoluto. Doenças generalizadas, abuso de poder, violência e canibalismo tornaram-se comuns na Ilha de Nazino. Em cerca de três meses, 4 mil das pessoas abandonadas no local morreram ou desapareceram. O restante que sobreviveu estava com sérios problemas de saúde.

A escassez de recursos ainda agravou a situação já complexa. Após essa escassez, as pessoas começaram a formar gangues e usaram violência para dominar o local - isso após o pouco auxílio que estavam recebendo das autoridades russas. Pessoas eram frequentemente assassinadas por comida. Os corpos de quem possuísse qualquer coisa de valor também poderia ser saqueado.

Os guardas não interferiam na situação das gangues. Ainda pior: eles estabeleceram seu próprio reino de terror. Os soviéticos assassinavam qualquer pessoa que tentasse escapar da ilha e ainda condenavam com morte aqueles que cometessem pequenos delitos.

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Crédito: Wikimedia Commons

Quando a falta de alimento tornou-se insuportável, os deportados partiram a cometer uma truculenta atitude: o canibalismo. Primeiro, eles comiam apenas quem já estava morto, mas não demorou muito tempo para que pessoas fossem assassinadas no único intuito de se tornarem alimento.

Nesse meio tempo, os guardas passaram a prender quem tentasse ou conseguisse comer outra pessoa. Cerca de 50 russos foram detidos por canibalismo.

A situação durou apenas alguns meses, sendo oficialmente finalizada com a transferência dos deportados sobreviventes a assentamentos menores ainda no território soviético. Apenas duas mil pessoas conseguiram permanecer vivas. A operação colocou fim aos planos de Stalin de assentamentos em larga escala.

Foi apenas em 1988 que o caso ficou conhecido. A Associação Memorial, uma ONG russa que atua em defesa dos direitos humanos, começou a investigar o caso e reuniu diversos relatos, a fim de expor as atrocidades cometidas no período. A ONG publicou em 2002 relatórios narrando a operação que aconteceu em 1933.


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