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"Imagem dos políticos profissionais atingiu o fundo do poço", diz autor de Povo Heroico - Mãe Gentil

Em entrevista, Victorino Aguiar reflete sobre o colapso político nacional, tema de sua nova obra de ficção

Wallacy Ferrari, com supervisão de Thiago Lincolins Publicado em 07/02/2021, às 09h00

Imagem ilustrativa
Imagem ilustrativa - Imagem de Alex Yomare por Pixabay

Não é difícil imaginar a trajetória de um país que herdou paradigmas ao longo de séculos em decorrência dos colonizadores; o Brasil, em seu crescimento desproporcional e com planejamento comandado pelos mais poderosos, manteve fatores centenários que se adaptaram na sociedade civil até os dias atuais.

Em tal cenário, as crises de classes indicam que a inserção de grupos minoritários está cada vez mais presente para representar a sociedade na política. Porém, e se um estopim ocorresse de maneira repentina e a política nacional fizesse uma transição para algo além da herança dos portugueses?

O cenário citado acima é o pano de fundo da obra "Povo Heróico - Mãe Gentil",uma ficção dramática de uma crise nacional causadas por mortes de milhares de políticos, causando uma transição governamental completa e forçada, desbravando as causas que ocasionariam as uniões e desuniões dos cidadãos brasileiros.

Formado em Letras pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, o autor é o professor Victorino Aguiar, que discorreu sobre as inspirações para a criação da obra, visão política e personagens em uma entrevista exclusiva ao site Aventuras na História.

Capa do livro 'Povo Heroico - Mãe Gentil' com o Brasil de cabeça para baixo / Crédito: Divulgação / Editora Lux

 

Origem do tema

Apesar de ser uma ficção, a mistura de fatores semelhantes a realidade com uma distopia teve como inspiração a falta de representatividade política que ocasionou em diversas manifestações pelo país, entre os anos de 2013 e 2016, como explicou Victorino: "A imagem dos políticos profissionais e seus partidos atingiu o fundo do poço. A presença deles e suas bandeiras eram repelidas nessas manifestações, inclusive com uso de violência física”.

Apesar do aquecimento do tema durante a transição do primeiro ao segundo governo deDilma Rousseff, a ideia de criar um livro sobre o desconforto social com a classe política acabou sendo engavetada com a perda de força dos protestos: “As manifestações comprovaram o fracasso da dita democracia representativa, gravemente derrotada por sucessivos estelionatos eleitorais", acrescentou o escritor.

A obra só foi retomada em novembro de 2019, quando outros importantes acontecimentos começaram a se desenrolarem cotidianamente — gerando novas possibilidades de projeções do autor: “Foi justamente na soltura de Lula e a ascensão política do Bolsonarismo, que, afinal, representou a perenização da falsa e eterna polarização entre as autoproclamadas esquerda e direita”.

Retrato fotográfico do autor, Victorino Aguiar / Crédito: Divulgação

 

Mera coincidência

Apesar de tratar de assuntos sérios no romance, o escritor deixa claro no início da obra que qualquer semelhança é uma mera coincidência: "Uma obra artística sempre será em certa medida um reflexo de aspectos da realidade; ela não surge do nada. Isto vale para todos os gêneros e formatos artísticos. A arte é subproduto do mundo real. Imitação da realidade, como querem alguns; combinação de alguns elementos que compõem a realidade, como querem outros".

Diante disso, ele cita um exemplo atual ao explicar os elementos presentes em sua obra: a cerimônia de posse do político Joe Biden. "Biden repetiu partes da fala de um personagem de “Povo heroico”, personagem sem nome, futuro presidente, que morre durante a posse, quando está lendo o tradicional discurso. Trechos do discurso de Biden são praticamente cópias literais do discurso do personagem de 'Povo heroico'. No entanto, a fala de Biden não é do personagem do livro, nem do personagem que Biden interpreta no cargo que assume. A fala é do modelo, do paradigma, que é, já sabemos, um fóssil, como de resto os atores profissionais que tentam mantê-lo de pé", diz o autor.

"No entanto, a fala de Biden não é do personagem do livro, nem do personagem que Biden interpreta no cargo que assume. A fala é do modelo, do paradigma, que é, já sabemos, um fóssil, como de resto os atores profissionais que tentam mantê-lo de pé. Ao fim e ao cabo, ninguém representa ninguém, muitas vezes, nem a si próprio. Representam o modelo, o sistema, o paradigma. E ai deles, se esquecerem a fala e não seguirem o roteiro. Governarei a favor de todos é um engodo. Impossível tornar realidade esta afirmação, eleitoralmente, politicamente, eticamente, economicamente. O personagem é o modelo, o paradigma. E o paradigma é falso, mentiroso, oportunista. Não profetizei nada. Posso ser acusado de me basear na fala de Biden, que foi proferida depois da publicação de minha obra? Posso ser visto como capaz de profetizar a fala dele? Claro que não. "

Por fim, Victorino espera que os leitores tenham bons momentos de entretenimento com uma "reflexão bem-humorada" sobre o cenário nacional, descrito como "desastroso" pelo autor. "Adicionalmente, tenho a expectativa de que os leitores percebam que estão diante de uma obra experimental, uma distopia bem humorada e atípica", concluiu.


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