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A impressionante jornada de Razan

Ela foi espancada, passou fome e cansaço extremo na Síria. Hoje, tenta reconstruir sua vida no Brasil

Alex Ricciardi Publicado em 19/12/2020, às 10h00

Imagem de Razan Suliman
Imagem de Razan Suliman - Arquivo Pessoal

A guerra civil na Síria está prestes a completar uma década de existência – e Razan Suliman, residente no Brasil, é uma dentre os milhões de refugiados que ela gerou.

O conflito explodiu em março de 2011 em meio a movimentos semelhantes por todo o Oriente Médio – a chamada Primavera Árabe. Até então o país era relativamente estável, embora fosse também uma ditadura.

O tirano local, Bashar al-Assad, apoiava-se nas Forças Armadas e na parcela da população que seguia a vertente alauita do islamismo. Já Razan é muçulmana sunita.

Seu esposo na época, com quem tinha dois filhos, atuava no exército de al-Assad e, em 2012, não aceitou o pedido de separação da mulher, chegando ao ponto de invadir sua casa e esmurrá-la.

Depois fugiu com os filhos, que também são de Razan, para a Alemanha. Até hoje, ela não mais os viu. E sequer consegue falar com eles ao telefone.

Razan vivia em Aleppo, noroeste da Síria, uma das cidades mais belas e prósperas do país antes do conflito. Quando a guerra começou, a região foi castigada pelo exército sírio, pelos fanáticos do Estado Islâmico, por toda sorte de guerrilheiros.

E, hoje, Aleppo é um gigantesco campo de ruínas. Sem os filhos, com um novo marido (Mohamed) e passando fome em Aleppo, ela resolveu ir para a capital do país, Damasco – a pé.

Uma jornada de 310 quilômetros. Razan perdeu a conta dos cadáveres que viu pelo caminho. Chegou a Damasco horrorizada, em estado de choque, e decidida a abandonar a Síria. Foi para Beirute, capital do Líbano, onde ficou por três meses.

Ela e o marido tentaram ir para a França, mas foram impedidos ainda em solo libanês. Desesperados, optaram por refugiar-se em um país que ainda desconheciam: o Brasil.

Chegaram em 2014, em São Paulo, apenas com a roupa do corpo e sem falar português. Com o apoio da comunidade muçulmana local, conseguiram se estabelecer na cidade e agora, Razan, que já teve mais dois filhos e está grávida do quinto, comanda um restaurante de comida árabe ao lado do marido.

 

“As pessoas aqui nos receberam com os braços abertos. Estou feliz no Brasil, mas ainda gosto de meu país e pretendo um dia voltar, para que meus filhos o conheçam”.