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Indígenas: o capítulo pouco lembrado da ditadura militar brasileira

Dez etnias indígenas estão entre as vítimas apontadas na Comissão Nacional da Verdade. Entenda o conflito entre esses grupos e o regime militar

Joseane Pereira Publicado em 25/05/2020, às 15h22

Mulheres Kayapó da Amazônia Brasileira
Mulheres Kayapó da Amazônia Brasileira - Getty Images

O massacre de indígenas na ditadura militar brasileira vem desde o governo Castelo Branco de 1964, que através do Plano de Integração Nacional (PIN), procurou expandir as fronteiras internas do Brasil. Isso significou perseguição, prisão, tortura e assassinato de lideranças indígenas, que lutavam por seus territórios e cujo comportamento era considerado inadequado ao projeto desenvolvimentista do país.

A Comissão Nacional da Verdade apontou a inclusão de dez etnias indígenas entre as vítimas das violações de direitos humanos no regime militar. Segundo o relatório, de 1964 a 1985, 8.350 indígenas foram mortos em massacres, roubo de terras, remoções forçadas dos territórios, prisões, torturas e maus-tratos.

Indígenas amazônicos em 1983 / Crédito: Getty Images

 

A psicanalista Maria Rita Kehl, responsável pelo capítulo dedicado às comunidades indígenas, investigou a violação de direitos humanos entre esses povos e identificou, por exemplo, que os indígenas da etnia Cinta Larga, de Rondônia, foram os mais atacados: 3.500 perderam a vida durante a ditadura.

Os ataques iam de envenenamento por alimentos misturados com arsênico a aviões que atiravam para as crianças das aldeias brinquedos contaminados com vírus de sarampo ou varíola. “Muitas dessas violações foram cometidas com a conivência do governo federal, por meio do SPI (Serviço de Proteção ao Índio), e depois da Funai”, afirma o relatório.

Indígenas do grupo Krain-a-Kores investigam ônibus que atravessa seu território, 1964 / Crédito: Getty Images

 

A abertura da Rodovia Transamazônica, projeto que pretendia atravessar o país através da Amazônia, também contribuiu para o massacre: 29 grupos indígenas foram afetados tragicamente, dentre eles 11 etnias isoladas. Apenas com a Constituição de 1988, instaurada após o fim da ditadura, o direito à terra e à diferença cultural foi consolidado novamente para esses povos.

Incompreensão de longa data

A vista grossa dos diversos governos brasileiros para a ação violenta de seringueiros, garimpeiros e grileiros contra indígenas, como se sabe, não terminou com o fim da ditadura. E se até hoje aldeias são invadidas e tratadas com pouco cuidado, a origem desse descaso talvez esteja naquele primeiro contato dos espanhóis com os nativos do nosso país.

O frei Gaspar de Carvajal, espanhol que em 1541 acompanhou a expedição de Francisco de Orellana cruzando o rio Amazonas, já expunha a incompreensão do europeu com o estilo de vida indígena. Em seus relatos, ele afirma que esses povos eram “seres animalescos e sem Deus”, que não mereciam atenção e nem mesmo uma tentativa de coexistência.

O religioso defendeu, junto ao Estado espanhol, que as sociedades indígenas da Amazônia deveriam ser erradicadas, destituídas de seus grupos e colocadas a serviço da colonização – escravizadas,  portanto.

Embora seja muito antigo, o relato de Carvajal não é tão diferente do que ainda encontramos atualmente. “A cavalaria brasileira foi muito incompetente. Competente, sim, foi a cavalaria norte-americana, que dizimou seus índios no passado e, hoje em dia, não tem esse problema em seu país”. A fala é de 1998. Seu autor, o atual presidente do Brasil.


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