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Inferno em Niihau: a desgraça do piloto japonês que pousou numa ilha havaiana durante o Pearl Harbor

Shigenori Nishikaichi esperava que o lugar estivesse vazio, porém para sua surpresa haviam um pouco mais de 100 pessoas vivendo ali

Ingredi Brunato Publicado em 13/12/2020, às 10h00

Fotografia do avião japonês destroçado
Fotografia do avião japonês destroçado - Wikimedia Commons

O sol mal havia anunciado a manhã do domingo quando um radar, instalado dias antes, acusou a aproximação de um grupo de aviões ao paradisíaco arquipélago havaiano.

O alerta de nada adiantou. Os oficiais responsáveis confundiram o ataque inimigo com a chegada previamente agendada de novas aeronaves.

Em duas horas, os japoneses feriram e mataram 3.581 pessoas e destruíram 18 navios e 249 aviões de Pearl Harbor, base naval e quartel que os americanos mantinham no Pacífico. 

Shigenori Nishikaichi era um dos pilotos japoneses que fizeram parte do ataque surpresa nos Estados Unidos. Ele, todavia, pilotava um dos aviões de uma segunda leva de ataque, em um ponto em que o Japão já não tinha o elemento surpresa e precisava enfrentar a reação norte-americana. 

Em meio à confusão, o avião pilotado pelo  soldado de apenas 22 anos foi alvejado no tanque, causando uma perda significativa de combustível. Para evitar uma queda fatal, Nishikaichi fez o que foi instruído em caso de emergência: um pouso forçado, numa ilha considerada deserta pela inteligência japonesa. 

Entretanto, para sua surpresa, ele rapidamente descobriu que Niihau, a menor das ilhas havaianas, era sim habitada. Apenas não possuía uma grande população: em 1941, no ano do ataque, havia apenas 136 pessoas morando no território. 

Uma curiosidade é que em um censo mais recente, de 2010, foi verificado um aumento sutil, com Niihau alcançando 210 moradores. 

Fotografia aérea da ilha / Crédito: Wikimedia Commons

 

Infelizmente para o piloto, quando percebeu às residências no pedaço de terra flutuante, já era tarde para abortar o pouso forçado. O avião japonês, que era do modelo Mitsubishi Zero, foi destroçado contra a cerca de um fazendeiro. 

Dilemas iniciais 

Um morador de Niihau chamado Hawila Kaleohano se deparou com o acidente aéreo e decidiu avaliar a situação. Ele ajudou o piloto inconsciente, arrastando-o para longe do metal amassado, ao mesmo tempo que também decidiu pegar os documentos e a arma do militar japonês, apenas por garantia. 

Quando Nishikaichi acordou, o fazendeiro da ilha havaiana tentou conseguir informações dele chamando imigrantes japoneses estabelecidos no território para servirem de tradutores. 

Retrato do piloto japonês / Crédito: Wikimedia Commons

 

Sua primeira tentativa foi um apicultor, já na meia-idade, que preferiu não se envolver com o caso. Ele chegou a ouvir o jovem asiático dizer que o Japão havia declarado guerra aos Estados Unidos, mas julgou que seria melhor não ajudar nenhum dos lados, mantendo-se neutro. 

Mais tarde, ainda, Kaleohano chamou o casal Yoshio e Irene Harada, porém os dois também preferiram não traduzir o que escutaram, provavelmente prevendo que não seria de grande benefício informar aos norte-americanos que viviam na ilha que eles eram de nações inimigas. 

Mudança

Naquela noite, como apenas três pessoas de Niihau sabiam o que tinha acontecido, os moradores acabaram dando um luau para o piloto, onde Nishikaichi, provavelmente pouco perplexo com a situação, teve a chance de ouvir música ao vivo e comer comidas diferentes. 

Depois, os habitantes da ilha havaiana acabaram descobrindo via rádio o que havia acontecido, e surgiu a questão do que fazer com o jovem militar japonês. Acabou sendo decidido que era melhor mantê-lo na costa e esperar por Aylmer Robinson, o proprietário do lugar paradisíaco, que vinha para Niihau toda semana. 

No entanto, para o azar deles, as viagens marítimas haviam sido temporariamente proibidas pela situação de guerra que havia se instalado após o ataque japonês. Durante esse período, Nishikaichi teve a oportunidade de convencer o casal que o Japão iria ganhar o conflito, e era melhor passar para o lado dele o quanto antes. 

Ao mesmo tempo, o combatente ganhou vantagem ao forçar o japonês Ishimatsu Shintani a ajudá-lo. Conforme apontado por um relatório do exército e divulgado pelo famoso The Honolulu Advertiser, ele deveria subornar Hawila Kaleohano e pegar de volta a documentação. Contudo, foi em vão. Embora Ishimatsu tivesse afirmado que temia por sua vida, Kaleohano não só recusou o dinheiro, como também alertou os outros moradores.

Foi assim que o piloto conseguiu escapar de onde estava sendo mantido, e, levando uma espingarda roubada, foi até a casa de Hawila (que percebeu a movimentação antes que tudo pudesse dar errado), na busca pela documentação. Esses papeis continham informações tácticas sigilosas, que forneceriam uma vantagem ao inimigo caso acabassem em mãos do exército norte-americano.  

Com o dono da casa escondido e sem sucesso na recuperação dos documentos, a situação foi tomada pelos caos. ″Durante a noite, os dois japoneses queimaram o avião e a casa de Kaleohano. Eles passaram pela aldeia, disparando e fazendo todos os havaianos de prisioneiros″, revelou o relatório do Exército, segundo a AP.

Shigenori e Yoshio aterrorizaram a ilha em busca da documentação. Tentaram encontrar Hawila, contudo, o mesmo fugiu em busca de ajuda. Enfurecido, o piloto acabou fazendo dois moradores, Ben Kanahele e sua mulher, Ella, de reféns. Pensou que dessa maneira, o homem que fugiu sem devolver os papeis acabaria voltando.

Entretanto, a situação mudou quando a dupla notou o cansaço de Shigenori e Yoshio. Perceberam que seria o momento ideal para imobilizá-los e conseguiram. 

Conforme noticiado pelo Atlas Obscura, o havaiano acabou sendo baleado e o militar japonês foi nocauteado com uma pedra por Ella. Ele não resistiu aos ferimentos. Já Yoshio, ao perceber que a situação acabara de forma negativa, acabou tirando a própria vida com uma arma.

Shintani foi capturado pelas autoridades e enviado para um campo de internamento. Tempos após a confusão foi liberado sem maiores acusações.

Mais tarde, algumas pessoas diriam que foi devido a esse incidente que os nipo-americanos foram retirados de suas casas e enviados para acampamentos, o que não é consenso, com outras fontes afirmando que o acontecimento isolado de Niihau não teria sido levado em conta na implementação da medida.


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