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Inferno na Terra: Valongo, a porta da escravidão

A infernal história do porto de escravos que agora é Patrimônio Mundial

Flávia Ribeiro Publicado em 18/06/2020, às 17h14

Cais do Valongo
Cais do Valongo - Wikimedia Commons

Descobeto em 2011 na zona portuário do Rio, após ficar 168 anos soterrado, o Cais do Valongo traz com ele memórias da escravidão no país. É essa razão por ter sido nomeado Patrimônio Mundial da Unesco: o resgate de uma história que havia sido literalmente enterrada durante o "processo civilizatório" da então capital do Brasil.

Em 1843, foi feito um aterro de 60 centímetros de espessura precisamente sobre o Cais do Valongo, para a construção de um novo ancoradouro para receber a imperatriz Teresa Cristina, que se casaria com dom Pedro II.

"O Cais do Valongo é um lugar simbólico, porque ali está o passado da população afrodescendente do país", explica Tânia Andrade Lima, arqueóloga do Museu Nacional que supervisiona as obras no porto. "Ele não foi encontrado por acaso. Desde 2010, sabíamos da existência de um sítio arqueológico naquele lugar".

Havia um totem no local informando que ali existira o Cais da Imperatriz, também enterrado no início do século 20, dessa vez para a reforma de toda a região central do Rio. Em nenhuma referência ao Valongo, que recebeu o maior número de africanos na Américas.

Durante as escavações, foram descobertos os dois ancoradouros, um sobre o outro. Junto a eles, uma grande quantidade de objetos de uso pessoal, especialmente amuletos e objetos de culto vindos do Congo, Angola e Moçambique.

"Aquela região, mais do que o cais, era um complexo de escravos, que incluía o lazareto, para onde os negros que chegavam doentes iam se curar ou morrer, o Cemitério dos Pretos Novos e os armazéns de engorda e venda dos escravos, que se concentravam na Rua do Valongo, atual Rua Camerino", diz Tânia. A área ia desde a atual Rua Barão de Tefé até a Cidade do Samba, englobando os bairros da Gamboa, da Saúde e do Santo Cristo.

Até meados da década de 1770, os escravos desembarcavam na Praia do Peixe, atual Praça 15, e eram negociados na Rua Direita, hoje Rua 1º de Março. Bem no Centro do Rio, à vista de moradores e dos estrangeiros que chegavam para conhecer a colônia. Uma nova legislação, de 1774, estabelecia a transferência desse mercado para a região do Valongo.

Os motivos apresentados eram sanitários: proteger os cidadãos das doenças trazidas pelos negros. Mas já havia, permeando a decisão, a sensibilidade de que manter aquele comércio no coração do Rio maculava sua imagem de cidade europeia.

A mudança partiu do segundo Marquês de Lavradio, dom Luís de Almeida Portugal Soares de Alarcão d'Eça e Melo Silva Mascarenhas, vice-rei do Brasil, alarmado com "o terrível costume de tão logo os pretos desembarcarem no porto vindos da costa africana, entrarem na cidade através das principais vias públicas, não apenas carregados de inúmeras doenças, mas nus". Mas ainda não havia o ancoradouro, e a alternativa encontrada foi desembarcar os escravos na alfândega e imediatamente enviá-los de bote ao Valongo, de onde saltariam diretamente na praia.

Em 1779 o comércio de africanos se estabeleceu finalmente na região do Valongo. Cresceu a cada ano, e viveu seu auge de 1808, com chegada da família real, a 1831, ano em que o comércio de escravos da África para o Brasil passou a ser feito às escondidas. Só em 1811 o cais foi construído, para que o desembarque fosse direto no local.

"A partir de 1808 o tráfico quase dobra, acompanhando a cidade que, com a vinda da corte, passa de 15 mil para 30 mil habitantes. De 1811 a 1831, metade da economia do país, metade do PIB, é movida a escravos" diz o historiador Carlos Líbano, da Universidade Federal da Bahia (UFBA.

É nesse período de apenas 20 anos que 1 milhão de africanos - dos 4 milhões que aqui chegaram até 1850 - entram no Brasil pelo novo ancoradouro. A distância do Centro não impediu, como gostariam as autoridades, que olhares estrangeiros continuassem a descrever o funcionamento do mercado de escravos do Rio. A viajante inglesa Maria Graham, por exemplo, que esteve no Brasil entre 1821 e 1823, escreveu em seu Diário de uma Viagem ao Brasil que, no Valongo, "todo o tráfico de escravos surge com todos os seus horrores perante nossos olhos".

Cada "peça" tinha um preço. Um africano novo e saudável, em 1811, podia chegar a algo em torno de cem mil réis, mas podia alcançar 200 mil se tivesse alguma habilidade especial, como a carpintaria. Como comparação, uma casa pequena no Rio de Janeiro custava cerca de um conto de réis, o que daria para comprar dez escravos normais ou cinco habilidosos.

No fim dos anos 20 do século 19, o tráfico de escravos para o Brasil vivia seu apogeu, e o Valongo era a principal porta de entrada principalmente para os negros vindos de Angola, da África Oriental e da Centro-Ocidental - nos entrepostos do Maranhão e da Bahia, ainda chegavam navios vindos respectivamente da Guiné e da África Ocidental. Mas a maioria tinha necessariamente que ao menos passar pelo Valongo, para que os traficantes pagassem seus impostos. "A renda da tributação do mercado negreiro era alta. Mas o Rio era um polo distribuidor de escravos, não concentrador", explica Carlos Líbano.

Esses escravos saíam da capital para as plantações de café, fumo e açúcar do interior e de outras regiões do país, especialmente no Vale do Paraíba e em São Paulo. "O escravo é o insumo básico dessa economia, o motor, o petróleo dela", diz Líbano. Os que ficavam geralmente eram os escravos domésticos, além dos usados como força de trabalho nas obras públicas.

Muitos eram especialistas, como sapateiros, quitandeiras, cabeleireiros ou ourives, que gahavam do seu senhor o direito de exercer suas profissões na rua, tornando-se escravos de ganho. Parte do dinheiro ficava para o próprio escravo, que tinha sua vida, independente da do patrão: pagava aluguel e andava pelas ruas. Quem conseguia juntar dinheiro comprava a alforria.

Em 1831 o Valongo foi fechado, quando o tráfico transatlântico foi proibido por pressão da Inglaterra. A norma foi solenemente ignorada e recebeu a alcunha irônica de "lei para inglês ver". Os traficantes usavam portos clandestinos para trazer sua mercadoria.

Em 1850, com a assinatura da Lei Eusébio de Queirós, pôs-se fim verdadeiramente ao tráfico para o Brasil, embora a escravidão persistisse até a Abolição, em 1888. "A última remessa de que se tem informação é de 1872" conta Líbano. A área do Valongo, entre 1850 e 1920, se transformou no que ficou conhecido como Pequena África: um espaço ocupado por negros libertos de diversas nações.