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Influências estrangeiras: as missões militares europeias no Brasil

A França já foi a principal parceira militar do Brasil, responsável por profissionalizar e modernizar o Exército brasileiro

Ricardo Lobato Publicado em 30/06/2020, às 17h00

Soldados brasileiros durante a Segunda Guerra Mundial
Soldados brasileiros durante a Segunda Guerra Mundial - Arquivo Nacional

Na virada do século 19 para o 20, o mundo experimentava a Belle Époque. A despeito de ser um período cosmopolita e de progresso material, as transformações da Era Industrial não afetavam apenas o modo de vida das pessoas.

Seu impacto também era sentido no modo de “fazer a guerra”. Junto à abundância e à prosperidade vinha a “Paz Armada”. Na América do Sul não era diferente. No esteio das independências, vieram os conflitos regionais, as guerras civis e, principalmente, as disputas fronteiriças, muitas das quais envolvendo o Brasil.

Os países do Cone Sul perceberam que não estavam preparados para conflitos nos moldes europeus. O uso de militares estrangeiros (entre eles, muitos mercenários) para intervenções pontuais — como ocorrera nas guerras de independência — não era solução viável a longo prazo. Precisavam de uma completa revisão de suas doutrinas de combate, o que culminou na contratação de Missões Militares europeias.

Os franceses, em boa parte pela lembrança dos sucessos napoleônicos, eram um modelo seguido por muitos. Essa visão não duraria. Com a capitulação da França, em Sedan, e a ascensão do Império Alemão, os germânicos passaram a ser o novo ideal. Diversos países, como Chile, Argentina, e Bolívia, contrataram Missões Militares alemãs. Também no Brasil começou a se desenhar a ideia de treinamento estrangeiro.

Desde o fim da Guerra da Tríplice Aliança, o Exército, que adquirira maior prestígio social e político, vinha investindo no aperfeiçoamento da tropa. Entre 1906 e 1912, chegou a mandar oficiais à Alemanha para estudar as táticas de combate prussianas — os “Jovens Turcos”, como ficaram conhecidos, em alusão à germanização das Forças Armadas pela qual passava o Império Turco-Otomano.

Com o advento da Grande Guerra, o alinhamento do Brasil com os Aliados e a derrota dos Impérios Centrais, o prestígio francês foi restaurado, crescendo sua influência sobre o Brasil. Contratada em setembro de 1919, meses após o fim das hostilidades da I Guerra, a Missão Militar Francesa (MMF) iniciou seus trabalhos no Brasil em 1920.

Seu comandante em chefe era o general Maurice Gamelin, um dos ideólogos da guerra de trincheira e militar com grande experiência de combate. Os franceses desembarcaram no Brasil com o objetivo de reorganizar por completo o Exército Brasileiro. Assumiram o comando das escolas militares, fundaram a Escola de Aviação Brasileira (precursora da FAB), efetivaram um Estado-Maior permanente, entre diversas mudanças.

Mesmo com o fim da República Velha e a ascensão de Vargas ao poder, o contrato com a MMF foi renovado. Do período inicial de quatro anos, a Missão ficou no Brasil por duas décadas. Encerrando suas atividades em 1940, justamente por conta de outra Guerra Mundial.

Com a Blitzkrieg avançando até Paris, e a subsequente queda da França, os franceses renunciaram à Missão. Com a entrada do Brasil na guerra, a doutrina europeia foi substituída pela norte-americana, o que não significa que o legado da MMF tenha sido apagado. Além da profissionalização e modernização do Exército, a França é, até hoje, importante parceira militar do Brasil.


Ricardo Lobato é Sociólogo e Mestre em economia pela UNB, Oficial da Reserva do Exército brasileiro e Consultor-chefe de Política e estratégia da Equibrium — Consultoria, Assessoria e Pesquisa. 

**Esse texto não reflete necessariamente a opinião da Aventuras na História


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