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Invasão nazista, tortura e chacina: o massacre de judeus na Ucrânia durante a Segunda Guerra

Em entrevista ao site Aventuras na História, Rodrigo Trespach, historiador e autor de Personagens do Terceiro Reich, explica o período sangrento vivido pelo país

Ingredi Brunato, sob supervisão de Thiago Lincolins Publicado em 27/02/2021, às 08h00

Fotografia da ravina onde ocorreu massacre de Babi Yar, então vazia
Fotografia da ravina onde ocorreu massacre de Babi Yar, então vazia - Divulgação

Quando se pensa a respeito do Holocausto ocorrido durante a Segunda Guerra Mundial, é comum imaginar o sofrimento de vítimas da Alemanha nazista e na Polônia, que foi o primeiro país invadido sob as ordens de Hitler, e também onde foi construído Auschwitz, um dos maiores campos de extermínio da época. 

Todavia, nem todos os prisioneiros enviados aos campos de concentração nazista vinham desses dois países. Isso porque o exército alemão invadiu outras nações, e por cada lugar que passou, realizou deportações para a Alemanha.  

Na Ucrânia, em particular, uma outra medida radical e devastadora foi colocada em prática: o fuzilamento dos judeus pelos Esquadrões da Morte da SS (partido nazista). A prática acabou gerando diversas chacinas, incluindo a da ravina de Babi Yar, que é considerada hoje um dos piores massacres da Segunda Guerra Mundial. 

Para contar mais a respeito desse capítulo sanguinário escrito pelo nazismo, a redação do site Aventuras na História entrevistou o historiador brasileiro Rodrigo Trespach, que é autor de inúmeras obras, incluindo a saga de “Histórias não (ou mal contadas)”, em que ele aborda fatos menos conhecidos de certos eventos históricos, como a Primeira Guerra Mundial e a Escravidão.

Recentemente, Trespach lançou Personagens do Terceiro Reich, que revela detalhes do Holocausto a partir de figuras que influenciaram ― diretamente ou indiretamente ― este período. 

Babi Yar 

No decorrer de cerca de 36 horas —  entre 29 e 30 de setembro de 1941 —  inúmeros  ucranianos foram levados até a ravina (nome dado a uma área que foi erodida pela passagem de um rio no passado) e assassinados no próprio local, que se tornaria cova coletiva.

Uma vez que as deportações para a Alemanha eram comuns, o fuzilamento foi inesperado: “Os judeus receberam ordens para se reunir em determinado local. A maioria achou que seriam reassentados. Na verdade, eles foram despojados de seus pertences e vestimentas”, explicou Trespach

“Homens, mulheres, idosos e crianças eram obrigados a tirar a roupa. Os objetos pessoais, principalmente joias ou coisas de valor, precisavam ser entregues ou depositadas em um lugar específico. Então, nus, eles eram levados à ravina e obrigados a deitar no fundo do buraco, onde eram executados com tiros. Depois, o local foi soterrado”, completou o autor de Personagens do Terceiro Reich.

Fotografia recente da ravina de Babi Yar, que hoje é uma região arborizada / Crédito: Wikimedia Commons

 

O episódio apresentou um impacto desolador para a comunidade judaica do país, segundo os números assustadores comentados por Rodrigo: “O relatório oficial fala em 33.771 judeus mortos só em Babi Yar. Mas até o fim da ocupação nazista no país, em 1943, é estimado que 100 mil pessoas tenham sido executadas em Kiev [capital da Ucrânia]”, diz o historiador. 

Outro fato que coloca os fuzilamentos nazistas realizados na Ucrânia em perspectiva é que só temos conhecimento de 29 sobreviventes de Babi Yar. Um dos exemplos é a atriz Dina Pronicheva. “Ela e fingiu de morta deitando-se sobre um cadáver no fundo da ravina. Mesmo soterrada, Dina conseguiu sobreviver e fugir”, contou o profissional. 

Humilhação 

Com informações repercutidas pelo The Independent, o historiador canadense-ucraniano John-Paul Himka, com ajuda de testemunhas oculares do cruel período, contou no livro “Pogrom de Lviv de 1941: Os Alemães, Nacionalistas Ucranianos e a Multidão do Carnaval” as crueldades ocorridas em Lviv, outra cidade ucraniana. 

Lá, diversos judeus foram forçados a limpar a rua usando apenas escovas de dente, ou então colocar esterco de cavalo em seus chapéus, em uma humilhação pública. "A julgar pelas fotos, os gentios em Lviv acharam os limpadores divertidos. Até certo ponto, foi um carnaval", escreveu Himka

Multidão cercando mulher na cidade de Lviv em 1941 / Crédito: Divulgação/ Instituto Memorial da Polônia 

 

A reportagem publicada em 2014 também documenta que judeus foram despidos e espancados, com centenas sendo obrigados a rastejar sem roupas durante todo o caminho até as prisões onde seriam mortos (em Lviv, não havia ravina).

Ameaças por todos os lados 

Vale dizer ainda que a comunidade judaica ucraniana sofreu violências não apenas das mãos dos nazistas alemães, mas também dos próprios ucranianos que faziam parte de grupos nacionalistas. 

Isso porque o país já vivia uma situação extrema, onde a vida humana era pouco valorizada, antes mesmo da invasão dos alemães. Na época, os russos tentavam tomar a Ucrânia à força. 

“Antes da guerra, no começo dos anos 1930, Stalin promovera o que os ucranianos chamam de 'Holomodor', um programa de fome responsável por pelo menos 2 milhões de mortos. Assim, os grupos nacionalistas ucranianos colaboraram com os nazistas acreditando que os alemães eram libertadores e os ajudariam a escapar do jugo soviético”, explicou Rodrigo em conversa com a nossa redação. 

Dessa forma, os moradores da Ucrânia estavam dispostos a virar-se contra seus próprios vizinhos para livrar sua pele. O ódio, tampouco, não lhes era novo: “O antissemitismo na Ucrânia, assim como na Rússia, vinha de longa data”, afirmou o historiador. 

Foi esse o contexto infeliz que resultou em tristes capítulos como o massacre de Babi Yar. Todavia, a violência na região não pode ser considerada apenas um aspecto do passado — isso porque, até hoje, ocorre hostilidade entre grupos de etnias ou culturas diferentes no local.  

“Depois da Segunda Guerra, a área territorial da Ucrânia foi ampliada e até hoje, depois da independência nos anos 1990, muitas regiões são um caldeirão em ebulição política. Veja-se, por exemplo, a questão da Crimeia.”, concluiu Trespach.


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