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Invisível e microscópico, o vírus da gripe aterroriza a humanidade há milênios

Da canja de galinha aos atuais remédios, muitos tratamentos já foram usados, mas a doença continua imbatível

Álvaro Oppermann Publicado em 01/07/2020, às 11h33

Os efeitos da Gripe Espanhola no Rio de Janeiro
Os efeitos da Gripe Espanhola no Rio de Janeiro - Wikimedia Commons

Em setembro de 1918, o mundo descobriu, atemorizado, um inimigo mortífero. Já não bastassem os horrores da Primeira Guerra Mundial, milhões de pessoas foram dizimadas por outra causa.

A humanidade estava sendo atacada pela gripe espanhola – pelo menos um quinto da população mundial contraiu a doença –, e não sabia como se defender. Os sintomas eram violentos. O doente sentia dor de cabeça e era tomado por calafrios tão intensos que os cobertores se tornavam inúteis.

Depois começava a tossir sangue e os pés ficavam pretos. Quando os pulmões se enchiam de uma mistura de secreções, era o fim. E tudo isso ocorria com velocidade assustadora: da saúde ao óbito, passavam-se poucos dias, ou mesmo horas.

“Pessoas saíam de manhã para trabalhar e não retornavam”, escreveu a jornalista científica americana Gina Kolata em seu livro Gripe: A História da Pandemia de 1918. Sozinha, a gripe espanhola devastou populações inteiras, matando de 30 milhões a 100 milhões de pessoas.

Mais que a Primeira Guerra, que deixou 10 milhões de vítimas fatais.

A fúria de um vírus

Alguns historiadores acham, inclusive, que a guerra de 1914-1918 pode ter terminado mais cedo por falta de soldados. E o fim do conflito, aliás, não significou o fim da pandemia: a Alemanha, derrotada, recebia de volta 6 milhões de ex-soldados desmoralizados e famintos. Isso sem falar em outras regiões do mundo, como África, Índia e China, onde a ausência de dados tornava impossível avaliar a extensão da hecatombe.

No Alasca, populações foram dizimadas pelo mal que os esquimós acreditavam ser causado por um “espírito branco”. Em Londres, cartazes afixados nos teatros proibiam expressamente tossir. E, nos Estados Unidos, o costume de apertar as mãos foi praticamente abandonado.

Os rastros da Gripe Espanhola / Crédito - Divulgação/Otis Historical Archives Nat'l Museum of Health & Medicine

 

A doença se propagou em duas gigantescas ondas: a primeira, na primavera e no verão de 1918. Nessa fase, a gripe era muito contagiosa, mas causou relativamente poucas mortes. Em agosto, contudo, uma forma altamente virulenta da doença disseminou-se pelo mundo, chegando ao auge nos meses de setembro a novembro
(ou seja, o outono do Hemisfério Norte).

A curva que mostrava os óbitos por faixas etárias tinha a forma de um W, com três picos, um correspondendo a crianças pequenas, outro a adultos jovens (o que era uma novidade; pensava-se que esse era um grupo mais resistente) e um terceiro, que era o dos idosos. Nos Estados Unidos a expectativa de vida, isto é, o número de anos que uma pessoa pode esperar viver desde o nascimento, foi reduzida em dez anos.

Os brasileiros foram atingidos pela gripe antes mesmo que a doença chegasse ao país. Uma divisão que o governo enviara de navio para participar da guerra adoeceu enquanto a esquadra que transportava os militares estava ancorada em Dacar, Senegal: 156 mortos.

E o país não poderia escapar à espanhola. Ainda que as viagens aéreas não fossem comuns à época, muita gente viajava de navio, e o país estava recebendo então grandes contingentes migratórios. Em setembro de 1918 chegava um navio com imigrantes vindos da Espanha, vários com sintomas de gripe.

Outros navios foram apontados, entre eles o inglês Demerara, que atracou em Recife e Salvador, mas o certo é que no início de novembro de 1918 a doença já estava no Brasil. As cidades portuárias foram as que mais sofreram.

“Já morrem 24 pessoas por dia em Coritiba”, dizia uma manchete do dia 14 de outubro. Na mesma data, um anúncio: “Precisa-se de dois cocheiros na Empreza Funerária de P. Falce”. Essas manchetes dos jornais da época, reproduzidas no livro O Mez da Grippe (assim mesmo, com essa grafia), de Valêncio Xavier, dão uma ideia do quadro assustador.

A reação entre os curitibanos foi de pânico e, por isso, as notícias a respeito foram censuradas. O livro mostra a primeira página do jornal Diário da Tarde, em que, de um artigo sobre “A Influenza”, só ficou o título – o resto está em branco.

Já o Commercio do Paraná adotou uma atitude diferente; a epidemia seria apenas uma gripe comum. Mas teve de admitir, em 25 de outubro: “A nossa edição de hontem saiu muito aquem da expectativa em consequência de terem adoecido operários da secção da composição, obrigando-nos assim ao sacrifício de matéria redaccional cuja inserção foi absolutamente impossível”.

Em outras cidades a repercussão não foi menor. A imprensa carioca estava cheia de notícias alarmantes – e de protestos contra as autoridades sanitárias, consideradas omissas: “O que se está passando na Saúde do Porto da nossa capital é simplesmente assombroso. Os navios entram infeccionados, os passageiros e tripulantes atacados saltam livremente, contribuindo para contaminar cada vez mais a cidade, não sofrendo os navios o mais rudimentar expurgo!”.

Telegramas chegados havia dias de estados do Norte anunciaram detalhadamente dezenas de casos de “influenza hespanhola” ocorridos a bordo da “Itassucê”. Era o caso de o Sr. Carlos Seidl tomar providências para isolar os enfermos e expurgar o navio, mal chegasse ele a Guanabara, se levasse a sério seus deveres.

Nada disso, entretanto, aconteceu. O “Itassucê” chegou, foi desimpedido, e os doentes desceram calmamente à terra, sem que o diretor da Saúde Pública mandasse tomar a mínima providência!” (Rio Jornal, 11 de outubro de 1918).

Ou esta outra notícia: “Em todas as ruas, e todas as horas, vemos cahir subitamente, tombar sobre a calçada victimas do mal estranho. Os hospitais estão repletos.” (Rio Jornal, 14 de outubro de 1918). A criticada “medicina oficial”, como aconteceu com as autoridades em Curitiba, tentava minimizar o problema e evitar o pânico.

Mas, no final de 1918, a gripe era, no Brasil e no mundo, uma realidade brutal.

O fantasma retorna

Ainda é cedo para saber como será o desdobramentodo atual surto de coronavírus (Covid-19) em vários países. Mas, a cada nova pandemia, o fantasma de 1918 retorna. E com bons motivos: os métodos de transmissão só foram identificados décadas depois, e ainda não se conhece a receita para interromper uma crise da doença, que parece ter se tornado mais fatal no século 20.

A primeira referência à gripe na História foi feita por Hipócrates. O médico grego relatou em 412 a.C. que uma doença respiratória atacou de forma epidêmica a Grécia e em poucas semanas matou centenas. Foram os gregos que cunharam a palavra “epidemia” para as doenças infecciosas que se abatem sobre grande número de pessoas em uma localidade.

A expressão vinha de epidemos, indivíduos que não moravam nas cidades. “O médico [Hipócrates] fez tal comparação porque as doenças infecciosas não eram da região e iam embora”, escreveu o médico Stefan Cunha Ujvari em A História e Suas Epidemias.

A epidemia de gripe só reapareceu em 1173 e o primeiro caso sério veio no século 16. Em 1580, uma pandemia se alastrou pela Europa a partir da Espanha. Os agentes do contágio teriam sido os soldados do rei Felipe II (1527-1598).

No século 18, três novos grandes surtos provocaram o surgimento do termo “influenza”. Muitas teorias versam sobre a origem do nome, da influência dos astros à interferência do frio (já que a gripe é mais comum no inverno). Em 1837, a combinação de doença e baixas temperaturas foi tão séria em Berlim que, em janeiro, o número de mortos pela gripe excedeu o de recém-nascidos.

As pandemias de gripe atravessaram o tempo, os vírus sofreram mutações e os tratamentos também mudaram muito desde a época de Hipócrates, que, no século 5, prescrevia sangrias. Adepto da teoria clássica dos humores (secreções do corpo), ele dizia que a sangria eliminaria o fluxo sanguíneo excessivo, o suposto causador da doença.

Tal tratamento foi amplamente utilizado pelos médicos até o fim do século 19. Porém, ele nem de longe era o mais bizarro. No século 18, médicos franceses garantiam que a
gripe era causada pelo excesso de relações sexuais e recomendavam a castidade. Em Londres, do fim do século 19 até a década de 1920, os banhos quentes e o vinho eram recomendados como tratamento certeiro. No Brasil, em 1918, ficou popular o uso do quinino e purgantes.

Nem um nem outro tinham efeito algum sobre a doença. O quinino era usado para a malária, que, sabe-se hoje, é causada por protozoário, não por vírus. Os purgantes, por sua vez, só funcionavam para causar uma bela dor de barriga no doente, que já estava debilitado.

A Diretoria-Geral de Saúde Pública, em 1918, também indicava canja de galinha. Resultado: grandes armazéns no Rio de Janeiro e em São Paulo foram saqueados pela população em busca do frango salvador. A primeira vacina surgiria em 1945, nos Estados Unidos, feita de vírus mortos. As vacinas se popularizaram nos anos 1960, mas só em 2003 foi aprovado o uso de vírus vivos.

A descoberta do vírus

Graças ao microscópio, o estudo das causas e dos tratamentos só ganhou rigor científico no século 20. No século 19, já se conheciam as bactérias, mas o vírus da influenza A seria isolado apenas em 1933, pelos cientistas Wilson Smith, Christopher Andrews e Patrick Laidlaw. A versão B foi identificada em 1939, e a C em 1950. Essas letras, A, B e C, foram criadas nos anos 1950 para identificar os três tipos que existem: a C é a comum,
a B é a típica gripe de inverno, que ataca especialmente as crianças, e a A é selvagem e perigosa – um verdadeiro peso-pesado.

O habitat natural do vírus A, causador das grandes pandemias, é o mesmo dos patos e de outras aves aquáticas. Ele também pode viver em mamíferos como porcos, cavalos, baleias e leões-marinhos. Isso explica por que se costuma dizer que uma gripe é “suína” ou “aviária”.

O apelido indica a origem do vírus A. Quando Smith isolou o micro-organismo, na década de 1930, notou que ele tinha uma estrutura muito simples. “É constituído apenas do seu material genético, seja DNA, seja RNA. Ao contrário das bactérias, não tem o maquinário necessário para reprodução”, afirmou Stefan Cunha Ujvari. Por isso, precisa, necessariamente, viver dentro de um hospedeiro.

Ele invade as células e lá dentro faz cópias exatas de si mesmo. É a forma de se replicar. Os vírus têm extrema dificuldade de saltar de uma ave para um ser humano. Porém, conseguem fazer essa migração utilizando os porcos como “escala”. Foi isso que aconteceu em 1918, segundo a teoria de dois eminentes professores de virologia, Robert Webster e Kennedy Shortridge.

O causador da gripe espanhola, dizem eles, começou provavelmente em uma ave, foi transmitido a um porco, que por sua vez infectou pessoas – razão pela qual os sobreviventes da epidemia tinham anticorpos da gripe suína. De acordo com Shortridge, foi na China, um milênio antes da era atual, que os plantadores de arroz começaram a criar porcos junto com patos.

“Foi a oportunidade ideal para o vírus saltar para nós”, disse o cientista. Devemos ficar bravos com os porcos? Bem, se eles pudessem entender de virologia, também teriam motivo para ficar irritados conosco. Afinal, esses bichos também pegam gripe dos seres humanos.

No início de maio de 2009, cientistas investigavam o caso de um fazendeiro de Alberta, no Canadá, que teria transmitido a gripe para sua criação de porcos: cerca de 200 animais foram contaminados após ele passar uma temporada no México, onde contraiu o vírus originado em outros porcos. Com isso, o ciclo se fecha.