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Irã: Da Revolução de 1979 à teocracia

Há 40 anos, a Revolução Iraniana mudava a face do Oriente Médio e plantava as sementes para o mundo geopolítico do século 21

Carlo Cauti Publicado em 03/03/2019, às 13h00

Bandeira do Irã
Getty Images

O Irã é uma ilha de estabilidade em uma das regiões mais instáveis do mundo, graças à liderança do xá”, foi com essa frase que o então presidente dos Estados Unidos, Jimmy Carter, começou seu discurso em Teerã no Réveillon de 1978. Durante uma visita oficial incomum para um presidente recém-empossado, que surpreendeu muitos em Washington. E que mostra o quanto, naquele momento, o Irã era um aliado estratégico dos EUA. Um país considerado sólido e fundamental para os interesses geopolíticos de uma superpotência em plena Guerra Fria.

E, no entanto, no final do 1979 que começava, tudo estaria acabado. O Irã estava em plena revolução, o xá tinha fugido e o país estava prestes a se tornar uma República Islâmica. Um regime impopular no exterior, impopular entre várias camadas da sociedade iraniana, que completa 40 anos de história. Que mudou radicalmente o Irã, sua imagem e seu papel no Oriente Médio e no mundo, e ao inspirar a ideologia revolucionária islamista (que não é o mesmo que islâmica), propondo algo que, veremos, era radicalmente novo, foi central em conduzir à situação do pós-Guerra Fria.

O que estava em jogo era bem mais que a ideologia de um grupo ou, muito menos, um país inteiro de fanáticos. “O que ocorreu em 1978-79 foi uma revolução, não necessariamente uma revolução islâmica. As pessoas queriam mais liberdade, mais independência, menos corrupção. Queriam a república contra a monarquia. A questão islâmica foi imposta somente em seguida”, explicou para AH Abbas Milani, diretor do programa Estudos Iranianos na Universidade de Stanford. Milani, exilado político, foi preso antes, durante o governo do xá e, em seguida, durante a República Islâmica, por ter se oposto contra os abusos do regime.

Velha Pérsia e novo Irã

Para entender as verdadeiras causas da Revolução Iraniana é necessário olhar para 50 anos antes. Em 1925, com a tomada do poder pelo primeiro monarca da dinastia Pahlavi, Reza Shah, o Irã começou um rápido processo de modernização.

E aqui entra um mito no qual alguns dos próprios iranianos exilados, que preferem ser chamados de persas, acreditam: o sentido de mudar o nome de Pérsia para Irã não tem qualquer coisa a ver com religião, e não vem de 1979. Muito pelo contrário, era parte do projeto de ocidentalização nacionalista: Pérsia era um exônimo que vinha desde a Antiguidade. O nome Irã não tem qualquer relação com religião: é como os persas chamavam seu país desde basicamente sempre. Deriva de aryan, os arianos – os reais, históricos, um grupo falante de língua indo-europeia que migrou do Cáucaso para o sul da Ásia, sem qualquer relação com o que os nazistas decidiram chamar assim por sua pseudociência.

O farsi – persa moderno, escrito num alfabeto árabe modificado – se tornou a língua oficial, foram criados tribunais civis e unificados os pesos e as medidas, pelo sistema métrico, estruturadas as Forças Armadas, criadas universidades, proibido o véu para as mulheres e garantidos seus direitos de estudar e trabalhar, entre outras coisas. Uma modernização imposta com punho de ferro pelo xá, que queria ocidentalizar o Irã nos moldes do que tinha sido feito na vizinha Turquia por Mustafa Kemal Atatürk. Um processo que prosseguiu de forma ainda mais acelerada com seu filho, Mohammad Reza Pahlavi, que assumiu um longo mandato começado em 1941. O monarca tentou reformar o país em profundidade, com a chamada “Revolução Branca”. Um amplo conjunto de reformas econômicas e sociais cujo objetivo era transformar o Irã em uma potência econômica e industrial.

O novo xá introduziu conceitos econômicos inovadores e lançou projetos industriais financiados com as receitas do petróleo, do qual o Irã é um grande produtor. Entre as reformas mais importantes estava o direito de voto para as mulheres, a educação de massa especialmente nas áreas rurais e a reforma agrária, que expropriou e redistribuiu para os camponeses as grandes propriedades fundiárias.

O aiatolá Khomeini num jardim em Pontchartrain, nos arredores de Paris,
no final de seu exílio

 

Entretanto, essas mudanças foram impostas do alto pelo xá, um homem formado na Europa, com uma personalidade culta, cosmopolita e bastante secular. Bem distante da população, que em grande maioria ainda era rural, pouco instruída e tradicionalista. O povo iraniano não compreendia as reformas, e muitas vezes opôs resistência. Tanto que naquela época um importante intelectual iraniano, Ahmad Fardid, criou o termo gharbzadegi, a “intoxicação do Ocidente”, para descrever o que a sociedade iraniana estava atravessando. Mas o xá, em vez de tentar o caminho da persuasão, percebeu essa dissidência como perigosa e decidiu impor sua vontade com a força. A Savak, a polícia secreta, instaurou uma repressão brutal, com prisões sumárias, abusos, torturas e execuções.

Democracia perdida

“O xá era um modernizador autoritário. Ele amava seu país, e queria deixá-lo mais forte e moderno. Mas atropelou tradições milenares. Tentou impor essas reformas com a força, e fracassou”, explica para a AH Amir Tadjik (nome de fantasia), exilado político iraniano. Um empresário forçado a deixar seu país depois da Revolução de 1979 e que hoje vive na Europa.

Além do mais, as reformas da Revolução Branca irritaram profundamente os clérigos xiitas – o islã xiita é a religião de até 95% dos iranianos, com os 5% restantes preenchidos pelos sunitas, exceto por 0,6% de não islâmicos. Aqueles entre eles que consideravam as mulheres subalternas (em sua interpretação da Sharia) tinham o monopólio do ensino nos vilarejos agrícolas e eram os principais proprietários de latifúndios do país. A reforma agrária tirou dos clérigos enormes porções de terras. Os religiosos, horrorizados com a secularização da sociedade, e percebendo-se atacados em suas posses, reagiram.

O xá tinha um lado progressista, mas politicamente se alinhou ao Ocidente contra a União Soviética. Para tentar financiar seus planos, deixou a indústria petrolífera ser controlada por britânicos e se alinhou politicamente aos americanos. Algo inaceitável, agora, para os iranianos seculares, nacionalistas e/ou esquerdistas.

O Irã era ou tentava ser uma democracia. E alguém foi eleito para atender aos descontentes. O primeiro-ministro nacionalista Mohammed Mossadegh assumiu em 28 de abril de 1951. O xá então se conformou. Mossadegh estatizou a indústria petrolífera e expulsou os estrangeiros – causando sanções e uma crise de produção que levou o país à beira da paralisia. Ao mesmo tempo, foi concentrando poderes, tornando-se um líder autoritário. O próprio xá acabaria exilado, em julho de 1953. A reação foi fulminante: em 19 de agosto do mesmo ano, um golpe de Estado organizado pelas agências do Reino Unido e EUA depôs Mossadegh e restaurou o xá no trono. A democracia iraniana estava enterrada. A partir daquele momento, Mohammad Reza Pahlavi, que pela Constituição deveria ter poderes limitados, se tornou cada vez mais um monarca absoluto.

Mas a insatisfação continuou. No começo, os protestos se limitaram ao Parlamento e com alertas ao xá sobre as possíveis consequências de suas políticas. O grande aiatolá Borujerdi, um importante líder religioso, escreveu uma carta ao soberano afirmando que o governo não deveria tocar nas terras dos religiosos, pois “qualquer medida que limite o tamanho das terras é contrário à lei islâmica”. Para acabar também com essa oposição dialética, Reza Pahlavi – influenciado também por sua esposa, a imperatriz Farah Diba, muito empenhada na causa da emancipação feminina – decidiu convocar um referendo em janeiro de 1963, no qual a esmagadora maioria aprovou as reformas. A partir desse momento, o confronto com os clérigos se tornou aberto.

Contra o Xá

Religiosos começaram a alimentar revoltas e tumultos. Uma série de manifestações cada vez mais violentas em todo o país ameaçam o poder e os projetos do xá. Um dos líderes desses protestos foi um clérigo chamado Ruhollah Khomeini. Ele tinha pedido o boicote do referendo e a partir da cidade sagrada de Qom começou a criticar o soberano em sermões sempre mais duros. “Khomeini nem era um clérigo de tão alto nível. Tinha clérigos muito mais importantes do que ele naquele momento, como o grande aiatolá Shariatmadari. Ele apenas foi um dos mais comunicativos. E, por incrível que pareça, no começo ele nem queria uma mudança de regime político. Apenas se limitava a exortar o xá a cortar as relações com Israel e com os EUA, dos quais era aliado, e a seguir a Sharia para se manter no trono”, explicou Milani.

Em 3 de junho de 1963, em um discurso em Qom, Khomeini chegou a chamar o xá de “homem arruinado e miserável”. Foi demais. Dois dias depois, ele foi preso, causando uma série de revoltas que terminou em 400 mortes. Com sua sentença comutada em prisão domiciliar, em agosto, no ano seguinte, em 26 de outubro, apareceu novamente criticando o governo por suas relações com os EUA.

A essa altura, o clérigo era forte demais para ser eliminado sem incendiar o país. Decidiu-se então pelo exílio. Assim, em 4 de novembro de 1964, Khomeini foi capturado por agentes da Savak e enfiado num voo para a Turquia. Mudou-se no ano seguinte para o Iraque e, em 1978, expulso por Saddam Hussein, para a França.

Sangue e champanhe

No Irã, o resto dos anos 60 continuou com reformas e protestos. Começou uma espiral de contestação política e de repressão brutal. Em 21 de janeiro de 1965, o primeiro-ministro Hassan Ali Mansur foi assassinado por um jovem de 17 anos, membro do grupo Fada’iyan-e Islam (“Discípulos do Islã”), que apoiava o clérigo exilado. Em 10 de abril de 1965, uma tentativa de assassinato foi feita contra o próprio xá, matando dois policiais no lugar.

O soberano então nomeou o general Nematollah Nassiri como chefe da Savak. Um militar truculento e linha dura, que tentou esmagar os protestos de forma fulminante. Segundo as estimativas de Anistia Internacional, naqueles anos era executado um iraniano por dia.

Iraniano rural, que migrou para Teerã e se tornou morador da favela ao fundo, mostra seu apoio a Khomeini, no final de 1979

 

Paradoxalmente, vários iranianos relembram o período com saudade. “É preciso entender que naquele momento as coisas estavam indo bem sob muitos aspectos. A economia iraniana crescia intensamente. O país era atravessado por uma forte influência ocidental e efervescência cultural. Os cinemas e teatros estavam lotados, as noites de Teerã pareciam infinitas. Tínhamos uma relativa felicidade, otimismo e muita esperança para o futuro”, diz Tadjik. Graças a esse desenvolvimento acelerado, o xá podia levar adiante seus planos.

As Forças Armadas foram aparelhadas com armas norte-americanas, e foi lançado um projeto ambiciosíssimo de obras públicas faraônicas, como dezenas de centrais nucleares. A grandiosa cerimônia de 1967, em que o xá se proclamou imperador, e aquela ainda mais nababesca de 1971 em Persépolis, em que foram celebrados os 2500 anos da fundação do Império Persa, representaram toda a megalomania de Reza Pahlavi. O custo de apenas essas duas festas superou US$ 2 bilhões.

“Também por causa desses gastos desenfreados a inflação foi às estrelas. E todo esse dinheiro em circulação gerou uma corrupção endêmica, que não foi enfrentada de forma eficaz pelo governo do xá”, explicou para a AH o professor Ali Ansari, iraniano docente da Universidade de St. Andrews (Reino Unido) e autor de muitos livros sobre o Irã, como Iran, Islam & Democracy (sem tradução).

E isso encerraria o “milagre” do xá. Com ajuda desses gastos desenfreados, a inflação foi às estrelas. A distância entre os ricos e os pobres aumentou e as reformas mostraram todos os seus limites. As terras distribuídas aos camponeses na reforma agrária se demonstraram pequenas demais. Muitos deles acabaram se endividando e quebrando, sendo obrigados a se transferir para as cidades, que se tornaram cercadas por favelas. Surgiu um lumpesinato urbano, classe miserável que os clérigos xiitas logo começaram a mobilizar. Além disso, os influentes e tradicionais comerciantes dos bazares, os bazari, começaram a se revoltar contra a elevada inflação e a corrupção dos funcionários públicos.

“A causa fundamental da Revolução foi a falência das reformas. Ou melhor, a existência de reformas econômicas e a ausência de reformas políticas. E, quando ocorre esse desalinhamento, deflagra quase sempre uma revolução”, explica Ansari.

A hora da vingança

A crise petrolífera de 1973 acabou com o fluxo de dólares que lubrificava a economia iraniana, e começaram demissões em massa, a parada das grandes obras públicas e o aumento da pobreza. A tensão foi montando, até que uma faísca provocou a explosão. E essa faísca foi o incêndio do cinema Rex, em Abadan, no sul do país, em agosto de 1978. Uma carnificina com 477 mortes. Militantes islâmicos trancaram todas as saídas do cinema e colocaram fogo na sala.

O objetivo era purificar o islã de todas as manifestações oriundas do Ocidente, como o cinema (que não por acaso viria a ser proibido durante a República Islâmica). Mas eles não assumiram a autoria: em uma campanha de propaganda, a responsabilidade foi atribuída ao governo do xá, que teria provado assim mais uma vez sua “índole sanguinária”.

“Esse foi um caso de fake news manipulado pelas forças de oposição. Assim como outras falsidades que foram colocadas em circulação, como a suposta vontade do soberano de restaurar o zoroastrismo. Tudo na base da mudança do calendário, de islâmico para imperial. Na verdade Mohammad Reza era um muçulmano xiita extremamente religioso, beirando a superstição. Ele apenas era obcecado por Ciro, o Grande, fascinado pelo passado glorioso iraniano, e se inspirava nas antigas tradições e na mitologia do país”, diz Ansari.

As manifestações então não pararam mais. No dia 7 de setembro cerca de 5 mil pessoas se reuniram na praça Jaleh, em Teerã. O governo reagiu impondo a lei marcial. Mas os manifestantes responderam convocando um novo protesto no mesmo local para o dia seguinte. Só que no dia 8 de setembro as forças de segurança abriram fogo. Foi um massacre com centenas de mortos. A Revolução tinha seus primeiros mártires.

Mulheres nas ruas de Teerã nos protestos de 1º
de Maio de 1979

 

“A partir desse momento as oposições começaram a provocar confrontos cada vez mais violentos, tentando deliberadamente gerar vítimas. Isso porque a única exceção ao toque de recolher era para celebrar funerais, que se tornaram manifestações contra o regime. Iniciando um ciclo de violência sem fim”, explica para a AH o professor Nicola Pedde, diretor do Institute for Global Studies de Roma e autor de Iran 1979: La Rivoluzione Islamica.

Segundo Pedde, é importante entender que a revolução contra o xá foi, em seu começo e grande parte, uma revolução de caráter marxista. Levada adiante principalmente pelos comunistas do Tudeh, o mais forte partido comunista do Oriente Médio. “Eram os militantes do Tudeh que mais iam para as ruas, e que também mais morriam nos confrontos. Junto com eles havia os jovens nacionalistas, os libertários, os estudantes universitários etc. Mas o grosso das forças era de matriz marxista.”

O banho de sangue do final de 1978 começou a preocupar o governo e também o Ocidente, que fez pressão sobre o xá. Em outubro, Mohammad Reza fez um discurso na televisão tentando recuperar o controle. Foi um desastre. Ele pediu que o povo deixasse completar a Revolução Branca e disse que a partir daquele momento respeitaria a Constituição. Admitindo de forma tácita que até então a tinha violado. Mais um enorme erro político que gerou ainda mais violência.

A encarnação da revolta

A figura de Khomeini começou então a se tornar cada vez mais central, conquistando um consenso unânime no Irã. “Naquele momento não havia um líder da Revolução. E, graças ao trabalho feito ao longo dos anos, Khomeini surgiu quase espontaneamente como liderança natural”, explica Milani.

Durante seu exílio, o governo iraniano literalmente ignorou Khomeini. Tanto que uma vez o então presidente da França, Valéry Giscard d’Estaing ligou para o xá e lhe perguntou o que fazer com esse clérigo que se abrigava em Neauphle-le-Château. Mohammad Reza lhe respondeu que a coisa não lhe interessava.

“O que esse velho e piolhento mulá pode nos fazer de mal em Paris?”, teria dito o soberano. Mas, se o governo iraniano se esqueceu de Khomeini, o clérigo não se esqueceu do Irã. E ao longo dos anos ele levou adiante sua batalha fazendo o que ele sabia fazer melhor: falando. Ele gravou uma série de áudios em fitas cassete que eram contrabandeadas no Irã pelos seus seguidores, transmitidas por alto-falantes instalados nas lajes das casas e ouvidas nas mesquitas do país inteiro. Sermões virulentos que prezavam a revolta. Mesmo a 5 mil quilômetros de distância, aquele “clérigo velho e piolhento” de 78 anos conseguiu conquistar corações e mentes. Khomeini se tornou uma figura quase mítica. Não sujou as mãos em brigas políticas e acabou se tornando um personagem suprapartidário. A única alternativa capaz de congregar as oposições ao regime: a esquerda, a direita liberal, os intelectuais, os estudantes e, naturalmente, os religiosos conservadores.

“Khomeini também investiu muito tempo cultivando os jovens. Ele organizou uma série de escolas religiosas em todo o país nas quais, ao longo dos anos, se formaram centenas de iranianos, e em que foi instilado o culto à personalidade do aiatolá. Mais tarde eles se tornariam revolucionários, clérigos e Pásdárán”, afirma Ansari.

Os revolucionários queriam usar Khomeini: acreditavam que o clérigo presidiria simbolicamente a fase transitória do país, da monarquia à república, e depois voltaria para suas mesquitas de Qom.

Logo descobririam o quão longe da marca estavam. Khomeini faria um hábil malabarismo entre as ideias e os slogans das diferentes – e incompatíveis – facções da Revolução. Um populista nato que gradualmente transforma a Revolução Iraniana em uma Revolução Islâmica e transformaria a nova República Iraniana em uma República Islâmica – o primeiro caso na História. Uma revolução que começou decisivamente secular, liderada por estudantes e políticos de esquerda, transformada em um movimento religioso.

Duas quedas

Em 1978 o Irã estava tomado por tumultos, tiroteios, ataques contra casernas e desordem. Em janeiro de 1979, quando a violência começou a tomar um rumo insustentável, o xá decidiu deixar o país. Ele temia acabar como Nicolau II da Rússia, Faysal do Iraque ou Abdallah da Jordânia. “Mas também ele era muito fatalista, e queria evitar um banho de sangue. Por isso preferiu ir embora. Uma posição muito diferente, por exemplo, daquela de ditadores como Bashar al-Assad na Síria. E demonstra como o xá, mesmo autoritário, tinha uma percepção da responsabilidade com seu próprio povo”, declarou Ansari.

Mesmo com a fuga do xá, Khomeini esperou mais de um mês para regressar ao Irã. Isso demonstra como ele não tinha o pulso das manifestações nem controlava os rumos da Revolução. E também que tinha medo de ser eventualmente preso ou executado pelas forças leais ao xá. Somente quando ficou claro que Mohammad Reza não teria retomado seu trono, e que o velho regime estava totalmente derrotado, o velho aiatolá voltou para seu país.

Guarda Revolucionária em Khorramshahr, fronteira com o Iraque, após conflitos entre sunitas e xiitas

 

Quando Khomeini voltou, ninguém pensava que ele iria instaurar uma República Islâmica. Seus seguidores tinham preparado uma Constituição baseada nas da França e Bélgica. O Irã tomava o rumo da democracia representativa secular.

Mas a tempestade revolucionária ainda estava para alcançar seu clímax. No dia 4 de novembro de 1979 uma manifestação de estudantes islâmicos em frente à embaixada dos Estados Unidos em Teerã acabou com a invasão da sede diplomática. Foram feitos reféns 63 cidadãos dos EUA, forçados a desfilar vendados e amarrados em frente às câmeras. Começou uma crise internacional que duraria 444 dias. Um episódio particularmente humilhante para Washington, que tenta libertar os reféns com uma operação militar secreta. A operação Eagle Claw acabou em um fracasso retumbante, com as forças especiais aniquiladas por uma tempestade de areia, oito marines mortos, seis helicópteros e um avião militar destruídos.

O ressentimento contra o golpe de 1953, apoiado pelos EUA, ainda era muito forte na consciência coletiva iraniana. Os estudantes achavam que a Revolução estava sendo ameaçada pelos estrangeiros, e que o golpe contra Mossadegh poderia ter ocorrido novamente. Por isso atacaram a embaixada. O governo revolucionário usou esse episódio para tentar distrair a atenção dos graves problemas internos que enfrentava.

“A Revolução se tornou islâmica somente depois da crise dos reféns. Até aquele momento o governo provisório era composto de tecnocratas seculares e liberais. Um grupo liderado por Mehdi Bazargan, professor da universidade de Teerã. Mas os clérigos pressionavam muito para obter o poder. Depois do assalto à embaixada dos EUA, ninguém conseguiu pará-los”, explica Milani.

Fogo e enxofre

A partir desse momento, começou o triste ritual da violência revolucionária. Em nome das facções mais intransigentes, o aiatolá Khalkhali organizou um golpe dentro da Revolução graças à força dos Guardiões da Revolução, os Pásdárán. Tropas de jovens fanáticos religiosos, que obedeciam a qualquer ordem dos clérigos xiitas. Até os mais sanguinários. Dessa forma, o governo provisório foi deposto e os partidos não islâmicos aniquilados. Os políticos não alinhados, eliminados. Assim como todos os velhos dignitários, políticos e generais do antigo regime, presos e executados após processos sumários. As sentenças de morte eram muitas vezes cumpridas na própria sala do tribunal. A tumba de Reza Xá foi destruída pelos guardiões da Revolução. E tudo isso apenas no primeiro ano. Khalkhali sozinho teria julgado e ordenado a execução de pelo menos 8 mil pessoas. Uma fúria que acabou obrigando o próprio Khomeini a removê-lo do cargo.

“Esse foi um período extremamente sangrento. O que vimos durante a época do xá com a Savak foi uma pálida antecipação do enorme massacre que o Irã enfrentou nos primeiros meses depois da Revolução. E do qual ainda não se recuperou totalmente. Dezenas de milhares de pessoas foram mortas em menos de três anos. Enquanto de 1963 até 1978 morreram 3164 pessoas, a grande maioria durante as manifestações de 1978”, explica o professor Ansari.

A proposta de Constituição liberal e secular foi substituída por um governo dos clérigos. Em dezembro de 1979 foi instaurada a República Islâmica, com um referendo de legitimidade duvidosa. O papel do Guia Supremo foi consagrado definitivamente como superior ao poder político e a lei civil foi fundida com aquela religiosa.

O Estado foi aparelhado capilarmente e, além de todas as alavancas do poder e do monopólio religioso, os clérigos xiitas voltaram a controlar amplas fatias da economia nacional. Assim como tinha sido até a Revolução Branca do xá, a que dera voto às mulheres em 1963, iniciando a virulenta oposição.

“A proclamação da República Islâmica foi a maior mudança na cultura iraniana. As leis, a estrutura social e até as diretrizes morais começaram a ser baseadas na Sharia”, explica Tajik. “Antes da Revolução Islâmica nós tínhamos liberdade econômica e liberdade religiosa no Irã, mas não tínhamos liberdade política. Depois da Revolução perdemos a liberdade política, assim como a liberdade religiosa, e nossa liberdade econômica foi muito limitada.”

Os primeiros meses da Revolução foram muito complicados, com constantes terremotos políticos e muitas revoltas contra a imposição da lei islâmica, especialmente entre as minorias étnicas e religiosas. O Irã vivia em estado de guerra civil. O novo regime tentou reprimir as rebeliões, mas então já parecia nas cordas. A Revolução acabou salva por uma figura inesperada: Saddam Hussein.

O Iraque tem maioria xiita. Saddam, parte da minoria sunita, era um ditador secular que não queria ver seu país arrastado para o turbilhão revolucionário do vizinho – e terminar perdendo a cadeira, quando não a cabeça.

Os xiitas iraquianos começaram a mostrar sinais de rebeldia, inspirados pelos irmãos iranianos. Por isso Saddam encabeçou uma frente sunita contra o Irã, e em setembro de 1980 atacou o vizinho. Começou assim uma guerra extremamente sangrenta, com mais de 1 milhão de mortos, e onde foram cometidas atrocidades de todos os tipos e todos os lados. Do uso de gases venenosos proibidos pelo Iraque até o alistamento de crianças-soldado nas brigadas Basij iranianas. Saddam foi abundantemente financiado pelos outros países sunitas para acabar com a República xiita, mas, não obstante a evidente superioridade nos armamentos, falhou. A guerra terminou em 1988 sem nenhum vencedor no campo de batalha, mas com a vitória moral do Irã, que repeliu a agressão iraquiana.

Deus no comando

A guerra contra o Iraque garantiu a sobrevivência da República Islâmica. O ataque iraquiano acabou com as revoltas internas e provocou uma onda de nacionalismo, com uma grande mobilização popular. Milhões de voluntários se alistaram no exército revolucionário. E com essa guerra o novo regime se consolidou de vez.

A partir daquele momento o Irã começou a levar adiante uma própria política regional. Propagandeando uma visão radical do islã. Ameaçando Israel. Desafiando os EUA. Pleiteando com seus vizinhos sunitas. E apoiando governos ou movimentos de inspiração xiita, como o regime da Síria, do clã alauita dos al-Assad, ou o grupo Hezbollah, no Líbano. Aumentando assim a instabilidade no Oriente Médio, e também em outras regiões do mundo. Por exemplo na Argentina, onde apoiou os ataques contra a embaixada de Israel em 1992 e contra a associação israelita Amia de Buenos Aires em 1994. Ambos de direta responsabilidade dos Pásdárán.

“No Oriente Médio o Irã se tornou um exemplo, político e ideológico”, explica Ansari. A Revolução Islâmica foi o momento em que o mundo muçulmano se desencantou com o nacionalismo árabe, de Gamal Abdel Nasser, Yasser Arafat e o próprio Saddam Hussein. A resposta secular e socialista ao Ocidente ainda parecia ocidentalizada demais. No lugar, entra o fundamentalismo islâmico, triunfante no Irã, e logo também no mundo sunita.

A Guerra Irã-Iraque desencadeou uma série de consequências também nos anos seguintes. Como a invasão iraquiana do Kuwait, a Primeira Guerra do Golfo, a Segunda Guerra do Golfo, de 2003, a chegada dos militares dos EUA ao Oriente Médio, que levou à criação da Al-Qaeda, e até, em última análise, do Estado Islâmico. Ainda que sejam inimigos: o EI é uma monarquia na qual seu líder, Abu Bakr al-Baghdadi, se diz califa, o detentor do poder do Profeta, líder de todos os islâmicos do mundo.

O Irã pode ser teocrático, mas ainda é um tipo de república. “Até por questões teológicas que diferenciam os sunitas do Estado Islâmico dos xiitas do Irã, Khomeini nunca se deixou tentar por tendências messiânicas, que no islã se denominam madistas. Como foi o caso de Abu Bakr al-Baghdadi. Khomeini sempre preservou a forma republicana do regime, mesmo sob forte influência religiosa”, explicou Pedde.

Hoje, após 40 anos da Revolução Islâmica, o Irã ainda está em meio a uma falha tectônica geopolítica. E a pergunta é: o Irã revolucionário vai viver mais 40 anos? “Eu acho sinceramente que não. O regime mudará nos próximos 40 anos. Por causa dos problemas econômicos internos, pela corrupção endêmica e pelo fim do ciclo do petróleo. Ou eles mudam radicalmente ou não haverá outros 40 anos de República Islâmica”, conclui Milani.


Para Saber Mais
› Revolutionary Iran: A History of the Islamic Republic, Michael Axworthy, 2013
› The History of Modern Iran Since 1921: the Pahlavis & After, Ali Ansari, 2003
› The Politics of Nationalism in Modern Iran, Ali Ansari, 2012