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Isoladas da sociedade e trancadas num quarto: conheça o fenômeno social Hikikomori

No Japão, muitas pessoas vivem sem nenhum contato social

Fabio Previdelli Publicado em 10/10/2020, às 09h00

Um jovem japonês vivendo como hikikomori em 2004
Um jovem japonês vivendo como hikikomori em 2004 - Wikimedia Commons

Com uma sociedade cada vez mais alienada nas redes sociais e vivendo em função de trabalhos que, com o passar do tempo, se tornam ainda mais desgastantes psicologicamente, têm se tornado cada vez mais comum, ao menos no Japão, pessoas que escolhem se isolar do mundo e de qualquer contato e interação social. Por lá, essas pessoas, em sua maioria homens, são conhecidas como Hikikomori.  

Ao abrirem mão de participarem da sociedade, elas dependem exclusivamente de seus pais para serem cuidadas. Um censo de 2016 estimou que esse montante representa 540 mil pessoas, ou 1,57% da população, entre 15 e 39 anos. Entretanto, como muitos preferem manter o anonimato, esse número pode ser facilmente o dobro do registrado. 

Apesar do transtorno ser, em um primeiro momento, considerado cultural, de uns tempos para cá, ele passou a ser entendido em outros lugares do mundo. A Coreia do Sul, por exemplo, estima que 33 mil adolescentes decidiram se isolar socialmente. Para não ficar só na Ásia, países como os Estados Unidos, Espanha, Itália e França já registraram casos assim. 

No Japão, esse problema fez com que surgisse a Novo Começo, uma organização sem fins lucrativos que tem o foco em tirar os hikikomori da reclusão. Com um custo anual de 26 mil reais, aproximadamente, famílias pagam profissionais para se comunicarem com seus filhos. 

O trabalho

O processo começa com o envio de cartas. Depois, esse contato passa a ser por telefone, através da porta fechada, até que, quando conseguem a confiança da pessoa, esse contato passa a ser fisicamente, até que esses exclusos topem sair de seus quartos.  

O objetivo desses profissionais é de levarem os reclusos para viver no centro da Novo Começo, onde eles participam de um programa de formação profissionalizante. Oguri Ayako, que trabalha na iniciativa, diz que, em uma década trabalhando como assistente social, já ajudou entre 40 e 50 pessoas a saírem do isolamento.  

“No início, achei que eram preguiçosos e egoístas”, afirmou em entrevista ao National Geographic no ano de 2018. Mas após conhecê-los melhor, diz ter aprendido como eles podem ser atenciosos e perspicazes. “Há tantas pessoas por aí trabalhando até o esgotamento. Os hikikomori, de certa forma, trazem o Japão a um equilíbrio.” 

O que acontece?

Ayako acredita que existem inúmeras razões para isso acontecer: uma delas é de como no Japão muitas famílias possuem apenas um filho, os pais acabam depositando todos seus sonhos e idealizações nas costas de uma criança.  

Como por lá a sociedade ainda é muito patriarcal e atribuiu ao homem toda responsabilidade financeira da família, muitos pais passam dias e noites no trabalho, se abstendo de um modelo masculino na formação do indivíduo. Entre outras razões.  

“No Japão, onde ainda se preza pela uniformidade e onde reputações e aparências são primordiais, a rebelião chega de forma muda, como os hikikomori”, diz Oguri, que também vê o país saindo de uma sociedade mais coletivista para uma mais individualista.  

“Quanto mais tempo os hikikomori permanecem de fora da sociedade, mais eles se tornam cientes de seu fracasso social. Eles perdem qualquer autoestima e confiança que poderiam ter e a perspectiva de saírem de casa torna-se cada vez mais assustadora. Trancar-se no quarto faz com que eles se sintam ‘seguros’”.


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