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Jean-Marie, o possível filho bastardo — e renegado — de Adolf Hitler

Em vida, o francês não conseguiu provar que era filho do Führer. No entanto, documentos trouxeram informações insólitas sobre o caso

André Nogueira Publicado em 05/02/2020, às 10h00 - Atualizado às 10h07

Jean-Marie Loret
Jean-Marie Loret - Divulgação/Youtube

Existem casos bizarros na História em que uma ação despretensiosa se torna uma confusão depois de décadas. Um caso assustador é o de Charlotte Lobjoie, uma jovem francesa que, em 1917, afirmou ter conhecido um soldado alemão que estava numa breve licença.

Durante sua passagem pelos campos de Fournes-in-Weppe, esse combatente, que era pintor, desenhava em seu bloquinho quando atraiu a atenção da moça, que cortava feno do outro lado da rua. Logo, a mulher se interessou pelo estrangeiro, se aproximando tentando se comunicar.

Os dois começaram, então, um caso amoroso, passando algumas noites caminhando e bebendo juntos. Simpático e estourado, esse alemão tinha temperamento forte e conquistou o coração da francesa, mas em pouco tempo voltou a ser convocado às trincheiras, abandonando a cidade.

Hitler na época de militar / Crédito: Wikimedia Commons

 

Quando o alemão foi embora Charlotte descobriu que havia engravidado. Solteira, a situação poderia gerar grande constrangimento para ela e sua mãe. Como consequência, optou por deixar a criança com os avós em Paris. Ele recebeu o nome Jean-Marie e ficou sem ver a mãe por sete anos. Só voltou a ter contato quando ela voltou a Paris. Casando-se com Clément Loret, Jean-Marie passou a adotar o sobrenome Loret.

Jean-Marie nunca teve contato com o pai, que não fazia ideia de quem poderia ser: só sabia a informação de que era um soldado alemão. Sua identidade, porém, era desconhecida. O nome dele, inclusive, seria uma das últimas opções imaginadas pelo jovem francês, cuja mãe era membro da Resistência Francesa contra a invasão do Reich.

Jean só descobriu o verdadeiro nome de seu pai em 1948, ano em que sua mãe veio a óbito. Segundo ele, Charlotte contou-lhe a verdade num último momento de desespero, durante seu leito de morte. Somente para ele, então, ela revelou que se tratava de um soldado despretencioso de nome Adolf Hitler, que na época já tinha morrido, depois de governar a Alemanha (e a Europa) com mão de ferro.

Diante da insana informação que recebera, Jean passou a estudar o caso de sua mãe com o soldado, a fim de provar ser ou não descendente do ditador. Na década de 1950, ele procurou cientistas que pudessem fazer testes de sangue e de caligrafia que pudessem elucidar o caso.

A investigação, porém, era bastante difícil: não só não restavam partes do corpo do Führer como ele nunca relatou em texto algum a possibilidade de um filho francês (ao contrário, Hitler negava ter filhos em várias ocasiões).

Philippe Loret, possível neto de Hitler / Crédito: Divulgação/YouTube

 

Heinz Linge, que foi mordomo do tirano, chegou a alegar que Hitler suspeitava da existência de um filho desconhecido, no entanto, a informação por si só era completamente sem fundamento. Enquanto isso, pela Europa do pós-guerra, o medo de crias do genocida existirem e tentarem seguir os caminhos do pai era grande.

Jean-Marie passou o resto da vida enfrentando uma batalha para provar que era filho do ditador, e chegou a escrever uma autobiografia chamada O Nome do Meu Pai era Hitler, descrevendo suas idas e vindas para revelar informações sobre sua ascendência. Segundo ele, Hitler sabia de sua existência, agindo no sentido de destruir qualquer vestígio dela (o que inclui, segundo ele, uma missão no interior do Exército Francês para matá-lo).

Os argumentos de que Jean é mesmo filho de Adolf são poucos, ao mesmo tempo em que fracos: ambos eram do mesmo tipo sanguíneo e eram visualmente muito parecidos. Até sua morte, em 1985, o francês não conseguiu provar essa linhagem.

Porém, a partir do fim da década de 1980, novas informações foram reveladas sobre o passado familiar de Adolf, elucidando o caso de Jean-Marie. Um documento oficial da Wehrmacht, por exemplo, provou que, durante a ocupação da França, o governo alemão entregou envelopes de dinheiro para Charlotte. Isso pode ser uma evidência de que Hitler manteve contato com a amante depois de deixar a França.

Quadro de Hitler com possível representação de Charlotte / Crédito: Domínio Público

 

Depois, foram descobertas pinturas assinadas por Hitler no antigo sótão da moça. Também foi encontrado um quadro do ditador na época em que não era político, cuja face da imagem se assemelha muito à de Charlotte.

Porém, como os familiares de Loret não têm nenhum interesse em associarem sua linhagem à de Hitler, as investigações não seguiram em frente. Seus filhos, caso fosse provada a descendência, teriam direitos aos royalties do Mein Kampf até hoje, mas a questão foi completamente abandonada.


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