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Jelling Stones: a certidão de nascimento da Dinamarca medieval

Monumentos em homenagem aos chefes vikings, as pedras revelam a transição entre o "paganismo" e a religião cristã

Joseane Pereira Publicado em 15/05/2019, às 09h20

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- Crédito: Reprodução

A cidade de Jelling, localizada no centro da Dinamarca, abriga o conjunto mais monumental de pedras rúnicas do mundo viking existentes. Entre elas, é possível encontrar uma pedra ricamente trabalhada com iconografia cristã e nórdica, que pertenceu à Harald Blatonn – ele entrou para a história como um dos mais notórios chefes vikings.

Também conhecido como Haroldo I da Dinamarca o chefe foi coroado no ano de 998 d.C. e teve papel central na conversão do território dinamarquês à religião cristã - à maneira Viking, é claro.

As Pedras 

As pedras podem ser consideradas a representação física da transição do panteão nórdico para a nova religião cristã, fenômeno ocorrido entre 953 e 965 d.C. Erguidas por volta do ano 965, essas relíquias reproduzem cenas da mitologia dos povos locais, simbolicamente derrotada por representações de Cristo e imagens cristãs. Por essa razão, especialistas no assunto referem-se frequentemente às Jelling Stones como a "certidão de nascimento" da Dinamarca medieval.

As pedras / Créditos: Reprodução

Embora Harold tenha contribuído para a expansão do cristianismo e professado essa lei durante toda a vida, sua moral e conduta violavam de várias formas os mandamentos bíblicos.

Esta atitude perante o cristianismo podia ser observada por todo o mundo nórdico, pois embora o Deus cristão se tornasse parte da vida dos povos locais, a força dos rituais aos deuses da natureza resistia - e inclusive resiste até hoje, em vilas localizadas no interior desses países.

 

Local de conservação em frente à Igreja / Créditos: Reprodução

 

Nas pedras, que misturam motivos pagãos e cristãos, podemos ver um típico dragão escandinavo semelhante a cobras marinhas. No lado oposto da pedra está o que, segundo os especialistas, é a mais antiga representação de Cristo no Norte da Europa que resistiu ao tempo.

É uma imagem que transborda com típicos elementos nórdicos: aparecendo crucificado, Jesus tem seus membros entrelaçados nas linhas serpentinas típicas do estilo Jelling de arte nórdica. 

Cristo é retratado com uma barba, como a maioria dos homens nórdicos da época, e também está vestindo roupas típicas de um dinamarquês. Abaixo da imagem está uma inscrição rúnica que versa sobre a vida do grande chefe Harald Blatonn.

Pagãos versus Cristãos

Harald não foi o primeiro a propagar a religião cristã em seu reinado. Séculos antes, em 826, os reis francos da Dinastia Carolíngia já haviam chegado a essas terras geladas, instigando os chefes antecessores.

Entretanto, parte da população continuava com práticas tradicionais de culto a deuses nórdicos como Odin, Tor e Freia, relacionados a fenômenos da natureza, cujas lendas eram contadas de geração em geração desde tempos imemoriais no que hoje são os territórios da Dinamarca, Noruega, Suécia e Islândia.

Como sabemos, o pensamento cristão resumia essas manifestações singulares sob o estigma de "paganismo", embora a conversão tenha sido um processo custoso. E aí está a contribuição de Harald nesse processo: misturar manifestações cristãs e pagãs em uma iconografia única, na tentativa de conduzir uma transição suave entre o paganismo e o cristianismo, tanto para ele quanto para seus súditos.

Igreja atual / Créditos: Reprodução

 

Além das pedras rúnicas, o reinado de Harald está marcado pela construção de um importante centro cerimonial cristão, no local onde atualmente se encontra a igreja de pedra caiada de Jelling. 

Na Escandinávia, devido à produção significativa de madeira e a falta de materiais como pedra ou mármore, tanto edifícios religiosos como não religiosos eram tradicionalmente construídos em madeira, restando aos arqueólogos apenas vestígios das estruturas.

De fato, foram encontrados vestígios de três igrejas diferentes abaixo da atual, reconstruções sucessivas que revelam a importância do lugar para a população local.