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Seria Jesus Cristo filho de um soldado romano?

O relato de filósofo grego e uma estátua encontrada no século 19 instigam a hipótese

Redação Publicado em 23/11/2019, às 09h00

Uma das mais insólitas pinturas de Jesus
Uma das mais insólitas pinturas de Jesus - Wikimedia Commons

No século II d.C, o Império Romano ainda dominava grande parte do velho mundo. No entanto, o Cristianismo continuava marginalizado e, muitas vezes, perseguido no grande império, o In Hoc Signo Vinces — e o subsequente Édito de Milão — de Constantino ainda alguns anos distante. 

Nesse contexto, Celso, um filósofo grego da época e grande crítico da religião que desabrochava e conquistava cada vez mais adeptos, escreveu um ensaio chamado A Verdadeira Palavra (em tradução livre). Nele, Celso tentava refutar todos os aspectos, doutrinas e ritos da fé cristã, colocando-a como um mero amálgama deturpado de correntes de pensamentos anteriores, como as antigas religiões orientais ou a filosofia clássica helenística.

Quando o Cristianismo se tornou a religião oficial do Império Romano, a obra de Celso foi proibida e, provavelmente, eliminada. Só se sabe de sua existência porque, algumas décadas depois de sua autoria, Orígenes de Alexandria se preocupou em refutá-la em seu livro, Contra Celsum — literalmente Contra Celso.

Um dos pontos detalhados por Celso foi a genealogia de Jesus. Ele dizia que Maria não tinha nada de virgem, mas sim que fora rejeitada por José, a quem estava prometida, depois de aparecer grávida de um soldado romano chamado Pantera. A hipótese foi debatida por inúmeros séculos. No Talmude, a coletânea de livros sagrados para os judeus, Jesus é chamado de “Yeshu ben Pantera”, ou, segundo alguns estudiosos, “Filho de Pantera”.

Apesar de já ter sido refutada por Orígenes há quase dois milênios, em 1859 uma estátua encontrada na Alemanha trazia a inscrição Tiberius Julius Abdes Pantera. Ela também continha seu local de nascimento, a Fenícia, e sua especialização, arqueiro. Segundo os arqueólogos, o seu nome Abdes significa servo de Deus, o que dá a entender que Pantera tinha ascendência judia ou pelo menos semita, com alguma relação aos judeus. Não foi difícil para alguns arqueólogos e teólogos juntarem 2+2 e concluírem que esse soldado poderia ser o pai de Jesus como pregava a teoria de Celso.

O problema é que Orígenes também era um grande filósofo, considerado o maior pensador que a Igreja, ainda dando seus primeiros passos, gerou naquela época. E ele refutou cada vírgula de Celso, e, para dar crédito a quem merece, o pensador se mostrava muito a frente de seu tempo no que diz respeito às interpretações da Bíblia, advogando pelo livre arbítrio e pelo pacifismo.

Em meados de 248, no último livro que escreveu, Contra Celsum, Orígenes buscou responder da maneira mais racional — e helenística — possível às acusações feitas pelo adversário pagão. Ele tentou, em seu trabalho, espertamente minar a credibilidade de Celso, e, sobre a paternidade de Jesus, dizia que era apenas uma história inventada pelo outro autor.

Outro ponto que incomodou o alexandrino foi quando Celso afirmou que “nenhum filósofo que seguisse a tradição Platônica de pensamento seria burro a ponto de se converter ao Cristianismo”. Orígenes, a exemplo de pensadores posteriores como Santo Agostinho, mesclava ideias de Platão aos dogmas da religião cristã, e dizia que o mesmo logos que habitava Jesus, às vezes inspirava Platão.

Hoje, o trabalho de Orígenes foi preservado e se encontra intacto, enquanto o de Celso se perdeu no tempo, ou seja, o cristão ganhou o debate por W.O. A hipótese de que o Leão de Judá seria filho de Pantera (além de Deus, é claro) é desconsiderada por ausência de evidências contundentes.

De qualquer forma, como escreveu o próprio Orígenes, a Bíblia não deve ser interpretada de maneira puramente literal. É improvável que Pantera seja mesmo o pai de Jesus. Nunca teremos certeza.


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