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Joan Barry vs Charles Chaplin: o teste de paternidade que parou os EUA

Em 1943, o suposto envolvimento amoroso com a atriz e a possível geração de um filho abalou a popularidade do cineasta

Nicoli Raveli Publicado em 17/05/2020, às 09h00

Joan Barry e Charles Chaplin
Joan Barry e Charles Chaplin - Divulgação

O ator, dançarino, diretor e produtor inglês Charles Chaplin, também conhecido como Carlitos, ganhou o coração do público devido suas incríveis performances como artista de cinema mudo no século 20.

Em meio a tantas interpretações, um de seus papéis mais conhecidos foi em The Tramp, no qual Chaplin dirigiu e também trabalhou como o Vagabundo Carlitos, um andarilho que tinha a dignidade de um cavalheiro.

Diante tamanho sucesso, o homem pôde fundar sua própria produtora, a United Artists e também teve participação, em 1927, no cinema falado. No novo modelo cinematográfico, o artista trabalhou em The Great Dictator, um filme que fez sátira a regimes de extrema direita, como o nazismo.

Escândalo

Todavia, suas notáveis interpretações não foram suficientes nos tablóides. Em 1941, o ator conheceu a atriz Joan Barry e a contratou para trabalhar em seu potencial filme, Shadow and Substance. A aproximação resultou num escândalo. Na época, Chaplin, que era casado com Oona O'Neille e tinha oito filhos, teria se envolvido amorosamente com a mulher. 

Mas o matrimônio não impediu que ambos se encontrassem às escuras. Em 1942, o artista a convidou para ir a Manhattan encontrá-lo. De acordo com documentos do FBI, Barry participou de várias festas com Chaplin. Foi alegado que, enquanto ela estava em Nova York, o ator a ofereceu para outras pessoas com fins imorais.

Chaplin em um O Garoto / Crédito: Wikimedia Commons

 

Relacionamento turbulento

Dois meses após os inúmeros encontros, Barry foi até a casa do artista e, num acesso de fúria, invadiu o local enquanto segurava uma arma em sua mão. Ela queria colocar um fim às mentiras de Chaplin. 

Durante a discussão, a atriz alegou que estava grávida. O caso foi parar no tribunal, onde ela o acusou de violar a Lei Mann — ou a Lei do Tráfico de Escravos Brancos - que alega que uma pessoa não pode ir para outro estado para praticar qualquer comportamento imoral, como a prostituição. 

Barry deu à luz no ano seguinte e, sempre que questionada, afirmava que Chaplin era o pai da criança. Diante das afirmações, o símbolo do cinema mudo ainda negava a paternidade. A defesa informou que os dois haviam se relacionado quatro vezes em dezembro de 1942, data em que, no curso normal da natureza, a criança deveria ter sido gerada. 

Testes

Um ano depois, foi exigido que todos realizassem testes. Uma vez analisados, três médicos concluíram que o artista não era o pai da criança. Mas, novamente, o caso foi questionado pelo júri, que alegou – mesmo que os exames provassem o contrário – que continha laço paternal e tentava desmentir o trabalho realizado pelos profissionais.

Naquela época, por mais que a única forma de descobrir o parentesco fosse por meio de um exame, eles não eram bem aceitos no tribunal. Por isso, Chaplin passou por dois julgamentos.

O primeiro, entretanto, terminou sem um resultado. Já no segundo, foi determinado que ele seria obrigado a pagar uma pensão alimentícia a Joan. Incrédulo, o famoso recorreu, mas não obteve sucesso.

Na mesma época, surgiu outro problema. Barry não cumpriu com o prometido: eles haviam assinado um acordo que, caso o artista não fosse o pai da criança, a amante o deixaria em paz. Porém, ela passou a persegui-lo ainda mais. 

Charlie Chaplin, em 1915 / Crédito: Getty Images

 

Dessa maneira, Carlitos fez o que era determinado: pagou a pensão até a garota completar 21 anos – mas nunca a reconheceu como filha. É fato que a situação ganhou os olhares do público e foi encarada como um escândalo e, como consequência, abalou a popularidade do artista, que passou a ser chamado de Urubu Velho e de Cabelos Grisalhos, entre outros nomes.

Os anos após a conturbação

Todavia, conforme o tempo passava, Chaplin retornou a sua rotina e obteve sucesso novamente. Porém, sua felicidade estava com os dias contados já que, na década de 1950, ele foi perseguido pelo Macarthismo nos Estados Unidos, uma política que pregava o anticomunismo.

Taxado como comunista, foi perseguido e teve que voltar a sua terra natal, a Inglaterra. Entretanto, após a intensa perseguição, o sucesso continuou. Lá, ele estreou o filme Limelight, em 1952, que foi um marco na sua carreira.

Um ano depois, Chaplin teve conhecimento de que o seu caso gerou uma mudança nas leis de paternidade da Califórnia, Oregon e New Hampshire. Naquele ano, os governos locais decidiram redigir a Lei Uniforme de Testes de Sangue para Determinar a Paternidade.

Foi alegado que “Se o tribunal determinar que as conclusões de todos os especialistas, divulgadas através de evidências baseadas nos testes, são que o suposto acusado não é o pai da criança, a questão da paternidade será resolvida em conformidade".

Entretanto, o homem ainda estava longe dos Estados Unidos. A fim de aproveitar sua estadia no exterior, o procurador-geral dos EUA revogou sua permissão de entrada no país. Como resposta, Chaplin afirmou que não retornaria ao país da América do Norte nem mesmo se Jesus Cristo fosse o presidente.

Não obstante, ele permaneceu na Inglaterra, mas teve que voltar aos Estados Unidos em 1972 para receber um Oscar Honorário por seu intenso trabalho e dedicação a carreira cinematográfica.

Charlie Chaplin durante filme / Crédito: Divulgação

 

Joan Barry e a suposta filha de Chaplin

Nos anos seguintes ao processo judicial, nunca mais se ouviu falar de Joan Barry. Acredita-se que ela tenha morrido em 2007, aos 87 anos de idade, na cidade de Nova York.

Foi somente dois anos mais tarde que sua filha, Carol Ann Barry, veio a falecer aos 65 anos. Ela levava uma vida anônima e, para isso, mudou de nome e sequer comentava sobre o caso.

Joan Barry e sua filha, Carol Ann Barry / Crédito: Divulgação 

 

De acordo com poucas notícias sobre o filme que Chaplin dirigia para Barry, acredita-se que os restos do roteiro permanecem em um cofre na Suíça — ao lado de todos os trabalhos do artista — e nunca foi finalizado.


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