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João de Deus, o médium acusado de mais de 300 estupros

Desde que criou a Casa Dom Inácio de Loyola, em Goiás, o curandeiro foi acusado de diversos outros crimes, como assassinato, atentado ao pudor e contrabando

Pamela Malva Publicado em 29/03/2020, às 12h00

João de Deus, o médium de Abadiânia
João de Deus, o médium de Abadiânia - Wikimedia Commons

Grande parte das vezes em que alguém procura ajuda de um médium, é pra encontrar cura ou esclarecimento. Basicamente, as pessoas vão até curandeiros para descobrir respostas acerca de algum aspecto de suas vidas.

Mas não era isso que as visitantes da Casa Dom Inácio de Loyola receberam. Localizada em Abadiânia, Goiás, a casa foi palco do maior caso de abuso sexual já registrado no Brasil, segundo os promotores do julgamento.

Todo o sofrimento foi causado por uma única pessoa: João de Deus, ou João de Abadiânia. O homem, conhecido pelos seus poderes mediúnicos, foi indiciado por mais de 300 casos de estupro, todos cometidos na casa onde ele dizia curar doenças.

João de Deus durante sessão na Casa Dom Inácio de Loyola / Crédito: Wikimedia Commons

 

Um jovem sobrenatural

Natural de Goiás, João Teixeira de Faria afirma que teve o primeiro contato com sua mediunidade aos nove anos. Em 1976, supostamente orientado por Chico Xavier, criou a Casa Dom Inácio de Loyola. 

Pelas supostas curas que promovia, João de Deus atraiu multidões para as suas sessões religiosas. A reputação do médium era tamanha, que a casa onde ele atendia as pessoas era a principal fonte de renda de Abadiânia.

Com 11 filhos, cada um de uma mãe diferente, o curandeiro logo passou a ser conhecido no mundo todo. Apareceu em programas de televisão e realizou sessões de cura na Alemanha, Estados Unidos, Suíça, entre outros.

Em Goiás, homens, mulheres e crianças assistiam João de Deus curando todo tipo de doenças em um palco. Segundo a biografia João de Deus – o curandeiro brasileiro que tocou a vida de milhões, ele teria atendido mais de 8 milhões de pessoas, até 2007.

João de Deus durante entrevistas / Crédito: Divulgação/Instagram

 

Uma vida criminosa

Desde o início, João de Deus foi acusado de exercício ilegal de medicina. Para Sebastião Moreira, o presidente do Conselho Regional de Medicina de Goiás, João nunca realmente curou alguém. “Algumas pessoas pensam que saíram curadas”, afirmou. “Na verdade, eram portadoras de doenças psicológicas”.

Os delitos cometidos pelo suposto médium não ficavam apenas no campo do sobrenatural. Em 1985, ele foi acusado por contrabandear 300 kg de autunita, um minério com alto teor de urânio. Na época, os três defensores de João afirmaram que ele não fazia ideia que o material era radioativo. 

Em janeiro de 1980, João de Deus foi iniciado pelo assassinato do taxista Delvanir Fonseca, que foi baleado nas costas. Segundo testemunhas, João teria matado o homem por ciúmes, já que a vítima estaria tendo um caso com a esposa do médium.

Tudo piorou quando, em setembro daquele mesmo ano, o curandeiro foi acusado de atentado ao pudor. Na época, ele foi indiciado pelo crime de sedução contra uma adolescente de 16 anos. O processo foi arquivado seis anos mais tarde, por desinteresse da família e por não haver provas contra o curandeiro.

João de Deus já preso / Crédito: Divulgação/Youtube

 

Mais de 300 estupros

Foi apenas em dezembro de 2018 que o maior dos crimes veio à público. Durante um programa de entrevistas, dez mulheres acusaram João de Deus de estupro. Segundo as vítimas, ele teria as molestado após sessões na casa em Goiás.

A partir das entrevistas, a quantidade de denúncias aumentava a cada dia e, no final, os Ministérios Públicos de São Paulo e Goiás já tinham mais de 320 casos listados. Até mesmo a filha de João, Dalva Teixeira, o acusou de abuso sexual, afirmando que ela foi molestada durante a infância.

Segundo as mulheres, o médium as abordava sempre da mesma forma. Após atendimentos coletivos, João de Deus pedia que elas retornassem mais tarde, para uma sessão particular. Emocionadas, as meninas, mulheres e senhoras ficavam sozinhas com ele e, assim, eram violentadas sexualmente.

O fim de um pesadelo

Em dezembro de 2018, o Ministério Público de Goiás emitiu a prisão preventiva de João de Deus e ele mesmo se entregou, após um dia foragido. Para a promotoria, aquele era o maior caso de esquema de estupros que o Brasil já viu, considerando que muitos funcionários da casa sabiam que os assédios aconteciam.

Um ano mais tarde, em 2019, o médium de 77 anos foi condenado pelos crimes sexuais cometidos contra quatro mulheres. Sua sentença, julgada por uma juíza, foi de 19 anos e quatro meses de regime fechado. Ele ainda responde a outras 12 denúncias, mas nega todas elas, alegando inocência desde o começo.


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