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Joice Heth, a escrava apresentada no circo como a enfermeira de George Washington de 161 anos

Nas apresentações pelo país, era anunciado que a idosa nascera no século 17, mas na verdade ela era violentada e tinha os dentes arrancados para parecer mais velha

André Nogueira Publicado em 04/05/2020, às 05h00 - Atualizado às 07h49

Arte sobre Joice Heth
Arte sobre Joice Heth - Divulgação/Youtube

Durante a década de 1830, nos EUA, uma exibição circense famosa se encarregava de enganar a população com premissas mentirosas em relação a uma escrava apresentada como uma aberrante idosa de 161 anos que teria sido enfermeira pessoal do jovem George Washington, primeiro presidente estadunidense. Tratava-se da afro-americana Joice Heth, uma mulher cuja vida e a morte tomaram o conhecimento público nos EUA.

A vida pregressa de Joice é envolta em mistérios e lacunas documentais, coisa pouco incomum ao se tratar de escravos nos EUA. Porém, seus últimos anos são bem conhecidos: em 1835, ela, que trabalhava compulsoriamente em exibições no Kentucky, foi vendida pelos Bowling a R. W. Lindsay e Colay Bartram. A partir de então, ela começou a ser apresentada como a centenária escrava doméstica de George Washington.

Na medida em que a informação absurda ligando Heth ao já falecido presidente e fundador estadunidense não teve sucesso, Lindsay vendeu a escrava idosa para o também promotor de eventos P. T. Barnum, que insistiu na divulgação dela como inconcebivelmente velha e pertencente à família Washington.

Segundo cartazes da época, era falado que Heth era escrava de Augustine Washington, sendo a primeira pessoa a vestir aquele que seria o primeiro presidente do país. Também é creditado que Joice nascera no ano de 1674, o que significaria que ela tinha 161 anos de idade em 1835. Praticamente tudo que era vinculado a ela na propaganda eram mentiras feitas para atrair mais público ao circo.

Anúncio de paresentação de Heth / Crédito: Wikimedia Commons

 

Joice realmente aparentava ser bastante velha, já estando cega e praticamente paralisada, apenas com movimentos suficientes para mover um braço e falar, acenando com a cabeça. Baixinha, enrugada, sem dentes e com longas unhas mal cuidadas, ela era apresentada como mais que centenária de maneira a que mesmo os céticos admitissem que sua imagem realmente fazia parecer que tinha a idade que era anunciada, mesmo que não acreditassem.

Porém, o que foi revelado por relatos contemporâneos é que Barnum, dono do Niblo’s Garden de Nova York, violentamente arrancou os dentes de Joice e a colocou em situação de perigo à saúde para que aparentasse a velhice tão reparada. Forçada a entrar na farsa, Heth era levada a cantar hinos e contar histórias inventadas sobre a fazenda dos Washington e o Pequeno George, enquanto Heth conseguia lucrar extensivamente.

A medida que o show promovido por Barnum crescia nos EUA, mais o tema aparecia em discussões em jornais e as dúvidas sobre a verdadeira vida de Heth cresciam. Com sua morte em 1836, em Connecticut, foi anunciada que a autópsia da escrava seria amplamente divulgada, tornando-se um evento midiático gigante. Joice morreu com cerca de 80 anos e seus restos foram analisados por David Rogers, cirurgião relevante.

George Washington / Crédito: Wikimedia Commons

 

Sua autópsia ocorreu num evento com mais de mil espectadores que compraram ingressos para assisti-la. Foi declarada publicamente a idade real de Joice Heth, desmentindo a farsa do circo, mas Barnum insistiu numa versão de que aquele corpo era outra pessoa, enquanto a escrava ainda estaria viva. Porém, não foi possível manter a farsa por tanto tempo.

O caso de Joice alcançou amplitude nacional e modificou fortemente os rumos da medicina no país, impactando a maneira como era vista a participação de negros escravizados nas apresentações circenses, abordados como aberrações e desumanizados. Num país segregado e escravista, foi denunciada uma grande mentira sobre um corpo negro mal tratado por anos.


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