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José Bonifácio, Joaquim Nabuco e dom João VI: Heróis em carne e osso

Vontade própria? Não! Os três foram obrigados a fazer sua parte na História

Laurentino Gomes Publicado em 13/05/2019, às 09h00

Dom João VI
Dom João VI - Reprodução

Três anos antes da independência do Brasil, José Bonifácio de Andrada e Silva pediu autorização ao rei dom João VI para voltar a Santos, sua vila natal, no litoral paulista. Depois de viver 36 anos na Europa, sentia-se velho e cansado. Queria morrer em paz ao lado do seus familiares.

Pouco antes da Abolição, Joaquim Nabuco procurava a ajuda dos amigos influentes para conseguir um emprego em Londres. Queria viver ali como um dândi, estilo de vida fútil consagrado pelos intelectuais do início do século 19, como Oscar Wilde e Marcel Proust.

Em 1805, três anos antes da fuga da corte para o Brasil, dom João, o príncipe regente de Portugal, retirou-se da vida da familia e da corte. Às voltas com uma de suas crises de depressão, foi morar em Vila Viçosa, no Alentejo. Queria que o deixassem viver em paz.

O que Bonifácio, Nabuco e dom João têm em comum? Os três são personagens que recusaram até o último instante o papel que a História lhes reservava. Às vésperas de momentos cruciais de Portugal e do Brasil, sequer imaginavam o lugar que caberia a eles no decorrer dos acontecimentos. Aparentemente, se dependesse só da vontade deles, preferiam ter passado a vida sem grandes sobressaltos e, se possível, incógnitos.

Por isso mesmo, os três são a prova de que a História não é feita por heróis de estátuas de pedra e bronze em praça pública, mas por pessoas em carne e osso, com suas virtudes, defeitos, medos, dúvidas e inseguranças. Engolfadas pelo rio caudaloso das circunstâncias e dos acasos, essas pessoas acabam por exercer papéis e tomar decisões que, por livre vontade, talvez não fossem capazes de executar.

O patriarca

José Bonifácio / Crédito: Wikimedia Commons

 

Ao retornar para o Brasil, em 1819, José Bonifácio tinha 56 anos, idade relativamente avançada para a época. Até ali, tivera uma vida memorável. Havia partido para a Europa em 1783, com apenas 20 anos. Na famosa Universidade de Coimbra, formou-se em Direito, Filosofia e Matemática. Aluno brilhante, ganhou uma bolsa para estudar Química e Mineralogia em outros países da Europa.

Esteve na Alemanha, na Bélgica, na Itália, na Áustria, na Suécia e na Dinamarca. Em 1790 chegou a Paris e ali testemunhou as paixões da Revolução Francesa, que haveria de mudar o mundo. Alguns anos mais tarde, estava nas trincheiras de Portugal, lutando contra as tropas do imperador Napoleão Bonaparte, que invadira o país enquanto a corte portuguesa fugia para o Brasil.

Por isso, em 1819, o homem que haveria de passar para a posteridade como o “patriarca da independência” acreditava já ter cumprido seu destino. José Bonifácio não imaginava que seu grande papel na História ainda estava por acontecer. Caberia a ele ser o principal conselheiro do futuro imperador dom Pedro I num momento fundamental para a construção do Brasil. Sem ele, provavelmente o Brasil de hoje simplesmente não existiria.


O Abolicionista

Joaquim Nabuco / Crédito: Wikimedia Commons

A Joaquim Nabuco caberia um lugar igualmente glorioso na História, como o pai do movimento abolicionista brasileiro. Mas, até alguns anos antes, ele não se via nesse papel. Filho do senador baiano Nabuco de Araújo, a quem dedicou uma de suas obras mais importantes, Um Estadista do Império, passou a infância num engenho em Pernambuco. Foi amamentado por uma negra. Aos 8 anos, mudou-se para a casa dos pais, no Rio de Janeiro, e passou a freqüentar os salões da corte, um ambiente solene, que valorizava a etiqueta e a oratória.

Nabuco viveu até quase os 40 anos entre os salões do Rio e das capitais européias. Acostumou-se à vida fútil. Magro, com 1,86 metro de altura, usava roupas impecáveis e ficou conhecido como Quincas, o Belo. Grande namorador, teve inúmeros casos no Brasil e no exterior. Seu cuidado com a aparência era extremo. Usava terno claro, chapéu de palha, pulseira de ouro e sapato inglês.

Em 1878, no entanto, o destino cobrou o papel que lhe estava reservado. Com a morte do pai, Nabuco teve de voltar ao país e assumir a vocação política. Eleito deputado por Pernambuco, revelou-se um orador extraordinário e logo se tornou a principal figura do movimento abolicionista brasileiro. Apesar da relutância, entrou para a história como um dos pais da pátria.


O fundador

Dom João VI / Crédito: Wikimedia Commons

 

Desses três personagens, dom João VI é hoje o mais conhecido. Tímido, medroso, indeciso e solitário, não tinha sido preparado para governar. De índole tranquila, gordo e bonachão, detestava esportes e preferia a vida sossegada na companhia dos monges e cantores de música sacra. A História, no entanto, não lhe deu paz. Esse é um soberano que agiu sob pressão o tempo todo: dos franceses, dos ingleses, dos espanhóis, da corte portuguesa e, em especial, da própria mulher, Carlota Joaquina, que contra ele conspirou até o fim da vida.

Apesar do caráter medroso e indeciso, o monarca teve uma obra memorável. Ao tomar a difícil decisão de fugir para a colônia, trazendo toda a corte portuguesa, ele promoveu uma transformação na História dos dois países. Conseguiu assegurar a independência de Portugal, que àquela altura estava seriamente ameaçada. Preservou igualmente a coroa e, ainda que de forma involuntária, preparou a independência do Brasil. O historiador Oliveira Lima o definiu como “o verdadeiro fundador da nacionalidade brasileira” porque, sem ele, o Brasil de hoje não existiria. Tanto quanto talvez não existisse sem o papel decisivo de José Bonifácio e Joaquim Nabuco.