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José de Anchieta, Dom João VI e Machado de Assis já presenciaram - e relataram - chuvas devastadoras no Rio de Janeiro

Apesar do prefeito Marcelo Crivella ter dito que se tratava de "chuvas atípicas", registros catastróficos datam de séculos

Redação Publicado em 10/04/2019, às 14h33

Rio de Janeiro
Getty Images

No começo desta semana, os cariocas foram atingidos por uma grande enchente que causou 10 mortes e diversos estragos no Rio de Janeiro. Em comunicado, o prefeito Marcelo Crivella afirmou que a chuva era "completamente atípica". Entretanto, a cidade presencia temporais devastadores há séculos.

Um dos relatos mais antigos é datado de 1575. Em carta enviada a um jesuíta, o padre José de Anchieta descreveu as devastadoras chuvas na cidade carioca. "Choveu tanto que se encheu e rebentaram as fontes”. 

Em 1811, num episódio apelidado de “Águas do Monte”, a cidade testemunhou uma das primeiras grandes tempestades. Parte do Morro do Castelo foi destruída, assim como as casas que foram construídas no local, e pessoas ficaram feridas. Em inquérito, Dom João VI determinou que o estrago foi causado por “falta de conservação das valas e drenos pelos entulhos, lixos e demais imundícies lançados nelas”.

Ruas alagadas em 1911 / Reprodução Careta/Acervo da Biblioteca Nacional

O escritor Machado de Assis citou a tragédia - e outras tempestades - em suas obras. "Se remontares ainda uns 60 anos, terás o dilúvio de 1756, que uniu a cidade ao mar e durou três longos dias de 24 horas. Mais que em 1811, as canoas serviram aos habitantes, e o perigo ensinou a estes a navegação".

O caos em 1966 / Reprodução 

No século seguinte, as enchentes voltaram a tirar a paz dos moradores. Em 1966, após os rios transbordarem, a cidade ficou debaixo d'água durante 5 dias. O Jardim Botânico foi o bairro mais devastado. A chuva foi tão forte que as tubulações que drenam o rio dos Macacos ficaram completamente destruídas. O caos tomou conta cidade: 250 pessoas faleceram e outras 50 mil perderam suas casas. A situação se agravaria nos anos seguintes.

Em 1967, o deslizamento de uma encosta, causado pelas chuvas, resultou na morte de 119 pessoas. O número quase triplicou em 1988, quando uma devastadora enchente causou a morte de 300 cidadãos em apenas duas semanas.

As consequências mais trágicas foram presenciadas em 2011. A força dos deslizamentos e alagamentos causou a morte de 918 pessoas na Região Serrana (Friburgo, Teresópolis, Petrópolis e Sumidouro). Além disso, 30 mil ficaram sem moradia e 99 foram considerados 'desaparecidos'.

O cenário em 2019 é tão alarmante quanto nos anos anteriores. De acordo com o Corpo de Bombeiros, mais de 2 mil ocorrências foram registradas entre os dias 8 e 9 de abril. Uma média de 1.200 chamadas por dia.

As 10 mortes registradas nos últimos dias foram causadas por afogamentos, deslizamento de terra e descargas elétricas. O número, resultado de chuvas “atípicas”, pode aumentar nos próximos dias.