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Joseph Fouché: o traidor perfeito

Conheça o oportunista senador francês que articulou contra reis, Napoleão e Robespierre

Rodrigo Casarin Publicado em 15/11/2019, às 10h00

Joseph Fouché, o político francês que sempre esteve ao lado do poder
Joseph Fouché, o político francês que sempre esteve ao lado do poder - Getty Images

Junho de 1815. Napoleão cai. Não há um substituto imediato. É preciso alguém para assumir provisoriamente o governo francês. Após manobras políticas, o cargo é entregue ao então senador Joseph Fouché, que se torna por cinco dias o maior mandatário da França, situação inusitada para uma figura que evitava escancarar seu protagonismo na política, embora sempre estivesse muito próximo do poder.

Fouché nasceu em 1759, em Le Pellerin. Foi professor eclesiástico — e depois saqueou igrejas; intitulava-se comunista — e em poucos anos era milionário. Sem qualquer pudor, ao longo da vida, sempre se manteve ao lado do poder e alinhava-se às pessoas e ideias que estivessem no comando.

Em grandes disputas, não declarava publicamente qual lado defendia, mas, assim que a disputa terminava, lá estava junto do vencedor. Foi dessa forma que conseguiu jogar tanto com Napoleão como com Maximilien de Robespierre, um dos grandes líderes da Revolução Francesa, e se tornar um dos nomes mais importantes da política no país.

Para o escritor Honoré de Balzac, Joseph Fouché foi “um gênio singular” e “a mente mais forte” que conheceu. “Esse homem estudou gradual e silenciosamente as pessoas, as coisas e as práticas do cenário político (...). Nem os novos nem os antigos colegas suspeitavam então da extensão de seu gênio, que era essencialmente um gênio de governo: exato em todas as previsões e de uma argúcia inacreditável”, registra Balzac em Um Caso Tenebroso. O biógrafo austríaco Stefan Zweig, autor de Joseph Fouché — Retrato de um Homem Político, o aponta como o “Maquiavel da era moderna”.

Da religião à revolução

Fouché estudou em instituições católicas e foi professor de matemática e física no seminário, cargo que ocupou entre os 20 e 30 anos. No entanto, quando as revoluções que agitavam a França chegaram às organizações religiosas do interior do país, o então educador passa a se envolver com a política: primeiro redigindo propostas para as lutas de seus colegas, depois, quando enviado a Nantes, rompendo com a postura revolucionária da ordem à qual pertencia e se alinhando aos afortunados da região, que não suportavam ouvir falar em causas como fim da escravatura e da propriedade privada. Foi aceito como membro da burguesia, que em pouco tempo o elegeria deputado graças a promessas como proteção ao comércio local.

Luís 16 governou num período caótico da França. Foi deposto em 1792, durante a Revolução Francesa, e sua vida ficou nas mãos dos deputados que, na prática, governavam o país. Os parlamentares precisavam tomar uma dramática decisão: que fim deveria levar o rei? Clemência ou morte? Seguindo os interesses da burguesia, que o elegeu, Fouché inicialmente era simpático a Luís 16, mas, ao perceber que na bancada a oposição – liderada por nomes como Robespierre – era maioria, na hora dos votos optou pela morte do mandatário. A condenação de Luís 16, porém, foi decidida numa votação apertada: 361 votos a favor e 360 contra sua pena de morte. O rei foi guilhotinado em 1793.

Robespierre morreu na guilhotina com ajuda de Fouché / Crédito: Wikimedia Commons

 

O deputado passa a amaldiçoar os ricos e a tomar para si as causas da Revolução, chegando a escrever a Instruction , documento que serviria de norteador aos revolucionários e no qual bradava contra a propriedade privada e o acúmulo de riquezas. Não bastasse isso, Fouché também assume um discurso contrário à Igreja, que passa a tratar como um “culto hipócrita que deve ser substituído pela fé na República e na moral”.

Suas rápidas e radicais mudanças de posição eram comuns: “Quando abandona um partido por traição, [Fouché] não o faz de forma lenta e cuidadosa, não se afasta despercebidamente. Ele se alia ao até então inimigo e assume todo o seu discurso e seus argumentos”, escreve Zweig.

Carniceiro de Lyon

Com o progresso da Revolução, os antigovernistas se tornam cada vez mais poderosos e consideram um grande golpe atacar a rica Lyon, considerada a segunda capital do país. Fouché é escolhido como um dos líderes da tomada, que deveria saquear igrejas, confiscar fortunas e reprimir qualquer tipo de resistência dos cidadãos locais: a guilhotina e as armas esperavam por quem se rebelasse. Ao final, mais de mil pessoas foram mortas, o que valeu ao deputado a alcunha de “o carniceiro de Lyon”.

Ao perceber que a Justiça francesa começava a detectar e a punir os assassinos, Fouché muda de postura. Ordena o fim dos fuzilamentos e diminui drasticamente o uso da guilhotina. Diante de tal procedimento, a população de Lyon passa a vê-lo não mais como o frio mandante da carnificina, mas como o herói clemente que a fez cessar.

Para satisfazer a Justiça era preciso que uma grande liderança pagasse pelos crimes cometidos. Fouché começa, então, a medir forças com Robespierre: aquele que conseguisse mais poder entre os revolucionários fatalmente conquistaria forças para responsabilizar o outro pelas conspirações. Enquanto Robespierre atacava Fouché publicamente, este atuava e se fortalecia nos bastidores, conseguindo imputar a culpa pela violência da Revolução no adversário. Robespierre foi guilhotinado no dia 28 de julho de 1794. Fouché saiu de cena por três anos.

Napoleão x Fouché

Em 1797 ele reaparece, mas sem nada de revolucionário. Pelo contrário, sua maior preocupação agora era enriquecer. Foi convidado pelo governo — com quem nunca deixou de ter relações — a viajar por vários países para conduzir negociações secretas em favor de banqueiros. Bem-sucedido na tarefa, não demorou para ser reconhecido publicamente e nomeado ministro da Polícia.

Com acesso a informações sigilosas, descobre que Napoleão Bonaparte planeja dar um golpe de Estado e tomar o poder. Coloca-se como um servidor de Bonaparte após o bem-sucedido golpe, e passa a ser uma das articulações políticas mais importantes da nação, facilitando a aceitação do novo mandatário junto ao povo. Fouché, entretanto, logo perde a confiança do ditador, ao não deixar claro em que lado estava quando Napoleão e seu Exército sofrem derrota na Itália.

Para Napoleão Bonaparte, não havia traidor mais perfeito do que Fouché / Crédito: Wikimedia Commons

 

Napoleão decide afastar o ministro como retaliação, e para não se opor à opinião pública, então favorável a Fouché pelo bom trabalho prestado na segurança, anuncia que seu assecla fora tão bem-sucedido que o país não necessitava mais de um ministério para a Polícia. Com isso, o indicaria ao Senado.

Afastado do protagonismo político, Fouché se insubordina contra as ordens do imperador. Napoleão, permanentemente vigilante, descobre que seu senador está negociando secretamente a paz com a Inglaterra. Não é nem de longe o que ele deseja, todavia, diante de seu povo, não seria sensato  condenar um cidadão que propõe o fim da hostilidade entre dois países.

Em vez de demitir Fouché pela provocação, nomeia-o embaixador da monarquia em Roma: manda-o para longe de Paris. Fouché, por sua vez, se apropria de diversos documentos importantes do governo napoleônico que estavam em seu poder, despertando de vez a fúria do ditador.

Vai para a Itália, mas agora fugido, sem cargo para assumir. De lá, tenta ir para a América do Norte, mas fracassa. Sua mulher, Bonne-Jeanne Coignaud, fica em Paris e devolve os documentos a Napoleão. A situação se acalma e é permitido o regresso de seu marido, que, aos 52 anos, afasta-se novamente da política.

Traidor verdadeiro

A situação interna na França se complica e a violência nas ruas cresce. Napoleão é — a contragosto — pressionado a convocar o antigo desafeto para que reassuma o Ministério da Polícia. Fouché aceita, porém Napoleão — que certa vez declarou que só havia conhecido um único traidor verdadeiro, perfeito, que era Fouché —, depois de agradar aqueles que o desejavam, afasta-o novamente e lhe designa o cargo de administrador dos territórios ocupados na Prússia.

Tais terras ainda tinham que ser conquistadas, mas Fouché deveria partir de imediato e lá seria, secretamente — e supostamente — um auxiliar do imperador.

Napoleão, contudo, perde batalhas e não consegue ocupar os territórios. Manda Fouché para Nápoles, para mantê-lo mais um tempo longe. Quando finalmente ele regressa à França, encontra um governo bastante enfraquecido e compreende que aqueles seriam os últimos dias do país aos pés do ditador.

Como é de costume, não existe um posicionamento declarado se permanece ao lado de Napoleão ou se pende para o lado do futuro rei Luís 18, que planejava voltar para reaver o cargo antes ocupado pelo seu irmão Luís 16.

Durante a queda de braço entre Napoleão e o rei, é justamente Fouché quem se fortalece, mesmo sem ter o apoio de nenhum dos lados. “No país e fora dele, todos procuram Fouché. Nenhuma decisão no Parlamento é tomada sem ele”, registra Zweig.

Quando o Exército napoleônico perde a Batalha de Waterloo, é o ex-senador quem toma as rédeas da França: o gesto decisivo para que assumisse a presidência do país quando Napoleão definitivamente cai. 

Exílio

A permanência no cargo máximo francês foi breve. Logo ele negociou a volta de Luís 18 ao país para que ocupasse o governo. Fouché assumiria uma das pastas ministeriais – era ainda um homem do governo, ainda que longe dos holofotes.

O novo rei, entretanto, aproveitou a primeira oportunidade de mandar para longe aquele que votara pela morte de seu irmão no passado. Fouché foi nomeado embaixador na corte de Dresden, na Alemanha, para logo em seguida ser banido da França e passar a ser perseguido fora do país. Foge para Praga e mais tarde consegue exílio em Linz, na Áustria. De lá, muda para Trieste, na Itália, onde morre em 25 de dezembro de 1820.

O especialista em filosofia política Fernando Schüler retrata Fouché como um “gênio da política”, que “sabia aquilo que Maquiavel já dissera sobre a flexibilidade dos homens e a instabilidade dos estados da História. Cabia ao político manejar com destreza os acontecimentos, evitar lealdades precipitadas, antecipar os fatos de modo a perceber o que ainda não aparece à luz do dia. Fez isso como ninguém”.


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The Memoirs of Joseph Fouché – Duke of Otranto, Joseph Fouché, 2007, Fournier Press (Kindle) - https://amzn.to/2rJOIHO

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