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Juan Catalan: O estadunidense que foi salvo da pena de morte por uma partida de beisebol

Quando o norte-americano foi acusado de assassinato, ele tinha grandes chances de parar no corredor da morte - até que percebeu que possuía um álibi inesperado

Ingredi Brunato, sob supervisão de Thiago Lincolins Publicado em 27/04/2021, às 17h04

Fotografia de Juan Catalan no tribunal
Fotografia de Juan Catalan no tribunal - Divulgação / Netflix

Em um dia de agosto de 2003, quando Juan Catalan chegou à oficina de máquinas onde trabalhava junto a seu pai, o proprietário do lugar, ele foi surpreendido por policiais. O estadunidense rapidamente descobriu, para seu horror, que havia sido acusado pelo assassinato de uma jovem de 16 anos, que ocorrera três meses antes. 

Suas perspectivas não eram promissoras - todas as evidências apontavam para ele, e a sentença de pena de morte era uma realidade cada vez mais próxima. Juan sabia que era inocente, mas não tinha nenhuma maneira de provar isso. 

Até que, um dia, após meses de julgamento, o norte-americano se lembrou de algo que mudaria totalmente seu destino: onde estava na noite do homicídio.

Em 12 de maio de 2003, Catalan havia ido a um estádio com sua filha para assistir uma partida de beisebol com seu time preferido, o Los Angeles Dodgers. Assim, sua dedicação ao esporte que amava acabou gerando o álibi que salvou sua vida.  

As evidências contra ele 

Para a promotoria de Los Angeles, não havia nenhuma dúvida que Juan era culpado pelo assassinato de Martha Puebla. Ele se encaixava com a descrição do criminoso, com seu rosto parecendo com o do retrato falado, e uma das testemunhas do homicídio confirmando que era ele. O caso foi relembrado por uma matéria do UOL de 2019. 

O cenário se tornava ainda pior ao se levar em conta que o estadunidense tivera uma passagem pela polícia durante a adolescência, quando ajudou seu irmão mais velho a cometer um roubo. 

E uma das testemunhas que ajudara a condenar esse irmão citado fora justamente a jovem Martha, assim conferindo uma motivação convincente para seu assassinato por Catalan

Construindo a defesa 

Ainda de acordo com o UOL, o advogado do norte-americano era Todd Melnik, um defensor que deu tudo de si para limpar o nome do fã de beisebol.

Isso porque ter descoberto onde Juan estava na noite do crime não era o suficiente - era preciso conseguir evidências de que ele estava lá mesmo, e a despeito de ter sido um evento público, essa tarefa se provou mais difícil do que aparentava a princípio. 

Isso pois os vídeos de segurança do estádio infelizmente não tinham registrado a passagem de Catalan, por exemplo. Essa dificuldade foi driblada pelo dedicado representante do norte-americano, mas apenas após a sorte ajudá-los mais uma vez: uma produção humorística da HBO havia feito gravações naquele mesmo dia, e fizeram a gentileza de permitir que Todd analisasse as fitas em busca de seu cliente. 

Assim, no dia que a defesa do estadunidense foi feita, sua filha pequena e a namorada foram chamadas como testemunhas, e tinham até mesmo os ingressos para mostrar, que foram encontrados após o apartamento do estadunidense ter sido vasculhado de cima a baixo. A chave de ouro era a gravação da HBO, que mostrava o homem com sua filha assistindo a partida de beisebol, e dava ainda o horário em que eles estavam lá.

Imagem mostrando Juan no estádio durante noite do crime / Crédito: Divulgação

 

"Levou alguns meses para que ele lembrasse do jogo, depois foi mais um mês até chegar ao estúdio de TV que produzia a série. Foram longas horas de estresse", contou o advogado, segundo repercutido pelo UOL. 

Infelizmente, apesar de todos os esforços, nada disso podia ser considerado como prova definitiva. A menina podia estar mentindo, tendo sido manipulada por adultos para dizer o que disse, os ingressos podiam pertencer a outras pessoas, e os vídeos eram do início do jogo, de forma que não provavam que Catalan havia ficado até o final. Se ele tivesse saído mais cedo, ainda teria dado tempo de cometer o crime. 

Virando o jogo 

"A promotoria nunca havia sido derrotada em casos de pena de morte. Mas eu sabia que ele era inocente, que não tinha feito nada e que se eu perdesse ele morreria. Eu dei todas as evidências para a promotoria, e ela dizia que não ligava e tentava levá-lo à pena de morte. Até que eu cheguei aos registros telefônicos", explicou Melnik ainda. 

Imagem do julgamento que mostra Todd Melnik realizando defesa de Juan / Crédito: Divulgação/ Youtube 

 

Esses registros foram de quando Juan ligou para sua namorada, logo após o jogo terminar. Uma ligação que pode ser rastreada, e revelou a área em que ele estava - uma região em que, naquele horário, tornava impossível que o norte-americano tivesse cometido um homicídio. Era o álibi irrefutável que eles estavam buscando desde o princípio. 

Diante disso, não houve mais discussão: Catalan era comprovadamente inocente, apesar de todas as casualidades que apontavam para ele. Após seis meses na cadeia, onde foi mantido em prisão preventiva antes e durante o julgamento, o norte-americano finalmente podia voltar para casa. 

"Quando eu soube que ele seria solto, eu não estava somente feliz. Eu estava aliviado de um estresse enorme. Foi um dos maiores casos em que trabalhei. Mas, pelo estresse, nenhum se compara", concluiu Todd, também de acordo com o UOL. 

Uma curiosidade é que a Netflix inclusive produziu um documentário contando a história do fã de beisebol. Chamada “Um álibi improvável”, a produção foi lançado em 2017.