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Matérias / Personagem

Julinho da Adelaide: a icônica tática de Chico Buarque para tapear a censura da ditadura

No dia 7 de setembro de 1974, uma icônica entrevista do compositor 'Julinho da Adelaide' foi publicada pelo jornal Última Hora

Redação Publicado em 06/04/2021, às 16h14 - Atualizado em 31/03/2022, às 10h00

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Chico Buarque durante apresentação de 1970 - Wikimedia Commons, via Arquivo Nacional
Chico Buarque durante apresentação de 1970 - Wikimedia Commons, via Arquivo Nacional

Durante a ditadura, ser um compositor que criticava o regime era tarefa difícil. Toda produção cultural deveria passar por um censor, que diria quais poderiam ser lançadas ao público e quais não poderiam. Chico Buarque, renomado músico brasileiro, estava entre os mais famosos artistas, com obras que costumavam ser censuradas pelo governo. Cansado, ele buscou uma forma de driblar o insistente obstáculo.

"Suas músicas eram proibidas somente porque levavam sua assinatura. A saída para burlar a censura foi a criação de um heterônimo. E deu certo", explica o site Chico Buarque.

A solução 

Julinho da Adelaide era a resposta para o problema. Assim como Chico, o compositorJulinho, assim que surgiu, se mostrou excelente no que fazia. Era capaz de conquistar grandes multidões com suas letras únicas e inteligentes. 

O que logo se tornou claro para os admiradores do artista, mas não para os censores, era que Chico e Julinho eram, na verdade, a mesma pessoa.

A ideia era perfeita, já que, assinando com outro nome, o músico tinha muito mais chances de ter suas canções aprovadas. Seus grandes sucessos JorgeMaravilha ("Você não gosta de mim, mas sua filha gosta") e Acorda Amor foram assinados como sendo de autoria de Julinho.

De acordo com a descrição que Buarque fazia de seu "colega", Julinhoda Adelaide era um "compositor de morro carioca que vivia mais nas páginas policiais e que de repente passou para as páginas de crônica musical."

Nada disso

A história era uma tática, mas isso não impediu que o famoso Julinho fosse entrevistado na época. Era 1974, quando Mario Prata, amigo de Chico, teve a ideia de entrevistar o novo grande nome da música popular. De acordo com o Estadão, o resultado icônico foi publicado no jornal Última Hora, no dia 7 de setembro daquele ano.

A entrevista, que ocorreu na casa do pai do artista, o grande historiador Sérgio Buarque de Holanda, foi um verdadeiro sucesso, já que Chico era muito criativo em suas respostas. Logo de início ele deu uma explicação aceitável para o fato de ter recusado tirar fotos para a publicação.

O motivo era que, sete anos antes, enquanto se encontrava em uma apresentação de Sérgio Ricardo, teria sido atingido por um violão jogado pelo músico na plateia. O mais engraçado é que a história do instrumento de fato ocorreu, mas a presença de Julinho (que nunca existiu) e as supostas cicatrizes que ficaram em seu rosto não passavam de lenda.

"Foi neste momento aí que eu despertei pra música popular", disse Julinho ao contar sobre o episódio do violão. "Pegou assim: o cabo aqui e a caixa desse outro lado."

Quase quatro décadas depois, Prata declarou em entrevista ao Estadão que "antes de começar, Chico pediu um tempo e subiu para o seu antigo quarto. Ficou uma hora lá e quando desceu e pediu para ligar o gravador já não era ele, mas o Julinho." Era como se Buarque tivesse realmente incorporado seu pseudônimo.

O artista tratou sobre diversos temas, dando, por exemplo, sua opinião sobre o que achava de determinados músicos da MPB, bem como sobre os diversos acontecimentos do cenário musical da época.

Não tardou muito para que a tática fosse descoberta, mas aquele cômico episódio jamais foi esquecido pelos admiradores de Chico Buarque, afinal, o músico conseguiu de fato, driblar a censura.