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Júlio César e a ruína da República

Nascido em julho de 100 a.C., o grande general transformou um governo por voto e consenso num regime de poder absoluto

Rodrigo Casarin e Fábio Marton Publicado em 12/07/2019, às 09h00

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- Wikimedia Commons

Aproximadamente 60 senadores tramaram o ato. Foram em bando, com Caio Cássio Longino e Marco Júnio Bruto liderando. Tão logo a reunião do Senado começou, cercaram Júlio César, que estava acomodado em sua poltrona, e passaram a — a expressão ficou para o tempo — “brutalizá-lo”. O ditador até esboçou alguma reação, mas é difícil afirmar quais foram exatamente suas palavras.

"Até tu, Bruto, meu filho?” não foi. Essa é uma criação de William Shakespeare. É improvável que alguém tenha algo para dizer diante de 23 punhaladas. Se César ainda assim disse qualquer coisa, foi após ouvir o grito de guerra de Bruto: Sic semper evello mortem tyrannis (assim eu sempre trago a morte aos tiranos). Abreviado por seus fãs para Sic semper tyrannis (assim sempre aos tiranos).

Essa frase, tão cheia de impacto, possivelmente também foi uma criação posterior. O historiador Plutarco retratou uma cena bem mais mundana: Bruto se aproximou de César como que para dizer algo, mas deu meia-volta e saiu correndo. Dito o que tivesse sido dito, foi nessa cena caótica e patética de março de 44 a.C. que, na visão dos perpetradores, o monstro estava morto. Acabava a carreira do ditador que ameaçava tornar a República Romana uma monarquia.

Problemas na largada

Gaius Iulius Caesar — pronuncia-se cáisar — nasceu numa família de patrícios, a nobreza romana, em julho de 100 a.C.. Seu pai morreu quando tinha 16 anos, deixando-o como o líder da família. O grande general Caio Mário, basicamente o inventor do exército romano como o mundo conheceria e sete vezes cônsul, era casado com a irmã de seu pai.  

Uma guerra civil opôs o ditador Sulla a Mário, que morreu antes de seu fim. Sulla marchou por Roma para destruir a facção de Mário. Por sua relação, César teve de se exilar e encontrou refúgio servindo ao exército na Ásia. Só voltaria a Roma após a morte de Sulla, em 78 a.C., quando tinha por volta de 23 anos.

Estátua representando Júlio César / Crédito: Reprodução

 

Após uma breve carreira como advogado e um contratempo com piratas, seria
nomeado como tribuno militar pelo Senado. Durante essa época, aconteceu a revolta de Espártaco, mas nada se sabe sobre seu papel. Na década de 60 a.C., ele passaria por diversos cargos e funções militares e civis, culminando como o pontifex maximus, em 63 a.C..

Esse era o líder da religião romana, um cargo mais simbólico que qualquer outra coisa. Que era decidido por eleições, com a campanha saindo do bolso de César, que, assim, mergulhou em dívidas. Em 61, após um perrengue relacionado a essas dívidas, elas foram pagas por Marco Licínio Crasso, o homem mais rico da história de Roma.

O generalíssimo

Na Hispânia, César venceu as tribos dos Callaici e Lusitani (celtas que viviam na Galícia e em Portugal). Por isso, foi aclamado imperator — um termo então de sentido militar, algo como generalíssimo. Imperium era o poder de comandar exércitos.

Para Adrian Goldswothy, autor de Em Nome de Roma, César pode certamente “figurar numa lista dos comandantes mais capazes da história”. Segundo ele, normalmente os líderes militares romanos eram essencialmente amadores. “A maioria passou apenas parte da carreira — normalmente menos da metade da vida adulta — a serviço do exército”, lembra. César, veremos, era mesmo um generalíssimo.

Quando regressa a Roma, em 60 a.C., o general tem um norte bastante claro: candidatar-se ao cargo de cônsul, o posto mais alto da República. A eleição foi suja, com seus concorrentes admitindo ter subornando os votantes. César venceu, com o apoio do rico Crasso e do general Pompeu — este casado com Júlia, sua filha.

A tríplice aliança seria conhecida como Primeiro Triunvirato. Enquanto César apoiava a distribuição de terras públicas para os mais pobres — algo que desagradava a elite romana —, Pompeu garantia a tranquilidade nas ruas com o seu exército (tranquilidade de não incomodar o cônsul). Crasso apaziguava os mais afortunados.

Sucesso militar

O sucesso militar sempre foi uma via para que políticos conquistassem popularidade, mesmo quando os recursos financeiros eram parcos, como o endividado Júlio. Findo seu mandato, com quatro legiões em mãos, rumou para a fragilizada Gália — sabia que anexar um novo território a Roma lhe daria ainda mais prestígio.

Não só conquistou aquelas terras imediatamente ao noroeste mas prosseguiu com batalhas contra tribos mais ao norte, angariando uma área que chegou até o mar que levava à Grã-Bretanha. Por manobras políticas e militares, Júlio César tinha então sob seu comando uma vasta região ao noroeste de Roma.

Soldados de César / Crédito: Reprodução

 

"O talento militar de César foi fundamental. Além de lhe dar renome, permitia usar os exércitos como instrumento político, como já vinha acontecendo antes dele - no caso de Pompeu, sobretudo. Além dos exércitos que ficavam sob seu comando, a atividade militar permitia a constituição de uma grande clientela, especialmente através dos veteranos que ganhavam terras no momento de sua baixa, e alianças com potentados de povos nas fronteiras", aponta Faversani.

Depois de campanhas, que ainda passaram pela Bélgica, Germânia e pela própria Grã-Bretanha, o Triunvirato começou a fazer água. Primeiro, Júlia morreu de parto e Pompeu escolheu como nova mulher a filha de um dos principais opositores de César no Senado. Não bastasse, logo na sequência, Crasso foi morto em uma batalha vergonhosa — origem da expressão erro crasso. Com o fim da tríplice aliança, Pompeu, agora contrário a César, ganhou a simpatia e o apoio da aristocracia e foi nomeado o novo cônsul de Roma.

Alea jacta est

A bem-sucedida campanha de César na Gália havia lhe dado prestígio junto à população e o respeito dos militares que estavam sob seu comando. Isso seria decisivo para o que viria na sequência. Com seu mandato como governador de quatro regiões tendo chegado ao fim, o Senado exigiu que César dispensasse suas tropas e retornasse a Roma. A situação extinguia sua imunidade, o que certamente acarretaria processos por seus desmandos — quem sabe até sua execução, dado que seus inimigos estavam no poder.

Após ponderar e ouvir opiniões diversas de seus conselheiros, César tomou a decisão que levaria ao fim da República Romana.

Rubico — latim para o rio que entrou para o português como o não exatamente elegante Rubicão — é um rio a 250 quilômetros de Roma. Era o limite até onde um general podia chegar com o seu exército. Ir além dele com a tropa seria uma declaração de guerra contra a capital.

À beira daquelas águas, o líder poderia dar meia-volta e manter a paz ou seguir adiante — iniciando uma tentativa de golpe militar. Consta que, quando César chegou a esse limiar, proferiu uma frase que entraria para a História: Alea jacta est — "Os dados estão lançados". E avançou.

O que ele queria então? "Parte da historiografia moderna sustentou que a luta de César tinha uma causa genuína: salvar a República, corrompida por senadores mais preocupados com o enriquecimento e a manutenção de seus privilégios do que com o funcionamento adequado das instituições políticas.

É claro que a corrupção abundava nos finais da República, mas inseri-la nessa equação como fator determinante é algo radicalmente diferente", afirma o historiador Henrique Modanez de Sant'Anna, autor de História da República Romana. "O problema é que César nada disse sobre salvar a República. Com efeito, ele não se posicionou contra Roma e seu Estado corrompido, mas simplesmente contra seus inimigos pessoais. Tratava-se, no limite, de um conflito entre César e Pompeu".

A ousadia de César pegou Pompeu desprevenido, sem ter como organizar um exército capaz de defendê-lo. Além disso, não queria travar uma guerra no coração de sua nação. Restou a fuga.

Guerra civil

César desencadeou uma guerra civil para caçar as forças de Pompeu, que estavam espalhadas. Deixou a liderança política nas mãos de Marco Antônio, seu general e homem de confiança, e se dirigiu para a Hispânia, onde o exército fiel ao rival esperava acéfalo. Vencidas essas forças, partiu para bem longe, agora caçando Pompeu em pessoa, por Dirráquio (hoje pertencente à Albânia) e Farsalos (Grécia). Mesmo com um exército consideravelmente menor — cerca de três combatentes para um —, César era um general superior. Pompeu tentou escapulir para o Egito. E César voltou para Roma, por ora.

César recebe a cabeça de Pompeu / Crédito: Wikimedia Commons

 

"Assim que entrou em Roma, César deu início aos seus planos de reorganização da cidade, de modo a se encaixar na estrutura política tradicional", continua Sant'Anna. "Imbuído desse espírito, convocou os senadores e exigiu auxílio, para evitar derramamento de sangue e garantir que nenhum tipo de resistência ao seu poder fosse organizado."

Roma agora era seu playground. Foi nomeado ditador — cargo que existia para situações emergenciais como aquela, com o seu ocupante tendo o poder máximo da República durante seis meses para colocar as coisas em ordem. Levou apenas 11 dias no cargo, até se tornar novamente cônsul.

Continuou sua caçada contra Pompeu, terminando, desgostoso, com sua cabeça entre as mãos. Ao fim da guerra civil, seu poder era incontestável. César se tornava a voz dominante numa república que caminhava a largos passos para a tirania.

El Presidente

Enfim livre para fazer as coisas de seu jeito, César perdoou boa parte de seus outros adversários e indicou Caio Otávio, seu sobrinho-neto, como seu principal herdeiro. Marco Júnio Bruto — esse mesmo — tornou-se seu herdeiro secundário, caso algo acontecesse com os dois.

César assumiu o poder de uma máquina enfraquecida. Dinheiro faltava, a corrupção imperava e Roma era vista com desconfiança pelas outras províncias, com a república sob risco de se esfacelar.

Para o povo, o novo cônsul colocou em prática a política que viria a ser chamada de pão e circo. Garantia que houvesse condições mínimas de sobrevivência e nunca faltassem distrações. De forma que ninguém tivesse tempo ou motivos de tentar interferir no âmbito político. Aprovou leis que visavam constranger a compra de mercadorias de luxo e que premiavam famílias que tivessem muitos filhos, a fim de repovoar a devastada península italiana. Reestruturou cargos políticos, reviu a dívida pública, criou medidas que buscavam diminuir a corrupção e apostou em grandes obras que empregavam muitos de seus cidadãos.

César atuou como um rei em tudo, menos no nome / Crédito: Wikimedia Commons

 

Como não era de abandonar os seus, distribuiu terras para cerca de 15 mil dos veteranos que tinham combatido ao seu lado. E até no calendário mexeu, fazendo vigorar em Roma a métrica juliana, regulada pelo Sol, não pela Lua, como era a até então utilizada por ali. "César era muito popular e trabalhava de forma bastante consciente a circulação de sua imagem e ideias. A cunhagem de moedas e o fato de ele ter se dedicado à atividade literária (com brilhantismo) e às disputas no Fórum deixam isso claro", lembra Fábio Faversani, professor de história antiga da Universidade Federal de Ouro Preto.

Acumulando cargos proferidos pelo Senado, César chegou a ser intitulado Pai da Nação. Opositores, por sua vez, viam sua figura monárquica. Além de concentrar o poder, César já espalhava estátuas suas por Roma e mandava confeccionar moedas com a sua face. Podendo nomear inclusive os senadores, era difícil imaginar que qualquer tipo de oposição legal à sua figura tivesse força e espaço para ser articulado. Além disso, ampliou o número de cargos públicos para que pudesse empregar ainda mais aliados.

Controlando cada movimentação da esfera política, juntando mais poderes do que deveria ter, cerceando a oposição, Júlio César governava como um autocrata, um caudilho de república de bananas. Em 48 a.C., foi nomeado ditador novamente, por um ano. Em 46 a.C., após derrotar os últimos vestígios de fidelidade a Pompeu, ganhou o direito de desmandar por dez anos.

Sob risco de se tornarem figuras decorativas, os senadores reagiram. E, como vimos no começo da matéria, assim terminou o tirano. Mas não a tirania — esta só estava começando.

Imediatamente após a morte de César, uma enorme disputa pelo posto de mandachuva se instalou. De um lado, os que lideraram o assassinato defendiam a legitimidade da violência como uma forma de salvar a república. Do outro, os fiéis a César que queriam a punição dos assassinos e defendiam a legitimidade de tudo o que o ditador — que era um cargo, afinal, legal — havia feito.

Mas a república já tinha morrido antes mesmo de matarem César. Só não haviam se dado conta disso. "César faz parte de um processo de concentração de poderes e riquezas sob o Império Romano que não começou nem acabou com ele", explica Faversani.

O assassinato de César / Crédito: Wikimedia Commons

 

"A concentração de poderes extraordinários já havia acontecido antes, sobretudo no contexto das guerras civis entre Mário e Sila, mas também e muito particularmente com o principal rival de César, Pompeu", continua. "Depois dele, essa concentração de poderes na mão de um só se tornará ainda mais intensa e duradoura, especialmente com o imperador Augusto. Há que se lembrar que o fim da República Romana corresponde a um processo difícil de datar, mas que, de toda maneira, durou cerca de um século."

A república foi extinta na prática em 27 de novembro de 43 a.C., ao ser criado um triunvirato oficial. Marco Antônio, Caio Otávio e Marco Lépido, aliados próximos de César, ganharam poderes monárquicos. Como na primeira vez, isso terminou em guerra — em 31 a.C., Otávio levaria o grande prêmio, derrotando Marco Antônio na Batalha de Áccio. Lépido já sido jogado para escanteio em 36 a.C.

Em 27 a.C., Otávio ganhou o título de Augustus pelo Senado, significando algo como O Grande ou O Venerável. Também divi fillius, filho do deus — no caso, do deus Júlio César, assim proclamado pelo Senado em 43 a.C. E imperator, grande general — que assumiria o sentido atual. Por fim, e mais importante, princeps, primeiro cidadão.

Importante porque, ao se declarar cidadão, Augusto queria dizer que ainda havia república — um rei não é um mero cidadão. Seus sucessores também não admitiriam a monarquia. Pelas leis, os imperadores eram apenas líderes não eleitos de uma república — com poderes absolutos. Roma continuaria a ser formalmente república até o reino de Diocleciano, começado em 284. Assim como as tiranias modernas têm presidentes, primeiros-ministros e comissários-gerais do partido.

Os atos de Júlio César destruíram a república em nome do povo. Teria sido para o bem? Ele favoreceu e cortejou os plebeus, enquanto seus adversários eram quase todos patrícios, privilegiados de nascença. Sobre os quais pesa a acusação de quererem "um retorno às velhas prerrogativas da aristocracia, sobretudo a senatorial romana", como diz Faversani. "Para os inimigos, o assassinato de César representou a restituição da liberdade, com a desculpa de salvar a república."

O historiador britânico Tom Holland, autor de Rubicão — O Triunfo e a Tragédia da República Romana, enxerga por outro ângulo: "Após as conquistas de Alexandre, no primeiro século a.C. só havia uma cidade livre: Roma. Então César cruzou o Rubicão, a república implodiu e não restou mais nenhuma. Como resultado, mil anos de autogoverno foram encerrados e mais de outros mil se passariam até que isso se tornasse realidade novamente".

Um populista e militarista ascende ao poder prometendo defender aqueles que não têm voz. Cria um culto à personalidade e concentra poderes. Valores republicanos não podem mais ser resgatados, o Rubicão já foi cruzado. Resta o arbítrio: manda quem pode, obedece quem tem juízo. Não foi só uma vez que essa história se repetiu.


Saiba mais

Em Nome de Roma, Adrian Goldsworthy, 2016

História da República Romana, Henrique Modanez de Sant'Anna, 2015