Khalkhin Gol: A mais decisiva batalha esquecida

A Segunda Guerra teria sido totalmente outra sem o conflito entre japoneses e soviéticos na Mongólia

quinta 10 maio, 2018
A determinação Japonesa não venceu a astúcia russa
A determinação Japonesa não venceu a astúcia russa Foto:Wikimedia Commons

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Em 2009, o então presidente da Rússia, Dmitry Medvedev, foi à capital da Mongólia, Ulan Bator, celebrar os 70 anos de um evento militar. Medvedev disparou flechas junto com o então presidente mongol, Tsakhiagiin Elbegdorj, provou da bebida local, o airag (ou kumis, fermentado de leite), visitou monumentos do período comunista e fez um discurso: "A vitória em Khalkhin Gol, como sabemos, mudou a paisagem política internacional, convencendo o Japão a não entrar em guerra contra a União Soviética ao lado da Alemanha nazista, e tornou possível movimentar um grande número de tropas do Extremo Oriente para Moscou em 1941".

O que eles sabem - e não muita gente além deles - é que entre 11 de maio e 16 de setembro de 1939, 57 mil soviéticos enfrentaram 75 mil japoneses na fronteira da Mongólia com a China. É uma região desértica, sem recursos naturais importantes e infestada de mosquitos. Mas essa disputa por uma faixa minúscula de terra seca teve imenso impacto no destino da Segunda Guerra.

A ofensiva dos tanques soviéticos Wikimedia Commons

Três momentos costumam ser apresentados como definidores da derrota do Eixo. Um deles é o ataque a Pearl Harbor pelo Japão, em 7 de dezembro de 1941, tirando os Estados Unidos da neutralidade no conflito. Outro é a vitória soviética em Stalingrado, em 2 de fevereiro 1943, que pôs os nazistas para correr e os fez começar uma guerra defensiva, na qual de nada servia a estratégia, até então vitoriosa, de blitzkrieg ("guerra-relâmpago"). O terceiro foi a invasão da Normandia, o Dia D, em 6 de junho de 1944, orquestrada pelos Estados Unidos. Ela fez Hitler lutar em dois fronts, comprometendo ainda mais sua capacidade bélica.

Khalkhin Gol não foi menos fundamental. Sem essa derrota na Mongólia, o Japão poderia ter decidido invadir a União Soviética por terra, em vez de atacar Pearl Harbor - e isso seria capaz de inviabilizar a vitória russa sobre os alemães em Stalingrado, além de manter os Estados Unidos fora do conflito. Sem os Estados Unidos, o desfecho da guerra poderia ser muito diferente.

O local

A batalha de Khalkhin Gol aconteceu ao lado do rio Khalkhin, ou Halha (gol em mongol quer dizer "rio"; o gol do futebol é gool). Os japoneses preferem chamá-la de Incidente em Nomonhan por causa da vila mongol que delimita o outro lado do campo de batalha. De 11 de maio a 16 de setembro de 1939, soviéticos e japoneses se digladiaram no maior conflito entre tanques já visto até então. O historiador militar Edward Drea, autor do livro Nomonhan: Japanese-Soviet Tactical Combat, escreve sobre o tema desde os anos 1980.

Tanques japoneses Wikimedia Commons

Segundo ele, um fator que dificultou a divulgação e a análise da importância do episódio foi a barreira linguística - os documentos estavam em russo e japonês. Outro é que, antes do fim do confronto, em 1º de setembro, a Alemanha invadiu a Polônia, o que é considerado o inicio oficial da Segunda Guerra. Drea e o historiador Alvin Coox (morto em 1999), da Universidade da Califórnia, foram os primeiros a destacar a importância de Khalkhin Gol.

"Foi uma das batalhas mais importantes da guerra. Ela sangrou os japoneses. Eles ficaram com medo da União Soviética e decidiram que os americanos seriam um alvo mais fácil", afirmou ao New York Times o especialista Chalmers Johnson, aluno de Coox. "Foi tão importante quanto Stalingrado."

O pretexto

O confronto aconteceu no meio do nada. Entre Nomonhan e o rio Khalkhin, são 25 km de deserto, ocasionalmente pontuados por arbustos e grama baixa. O rio chega a 150 m de largura, e o terreno é pantanoso em uma faixa de até 2 km em suas margens. A temperatura no verão bate nos 40 ºC.

Em 11 de maio de 1939, cerca de 80 membros da cavalaria mongol atravessaram o rio para que seus cavalos pastassem do outro lado - os cavalos ainda eram usados para transportar tropas, que lutavam desmontadas com metralhadoras, fuzis e morteiros. Em Nomonhan, estava uma patrulha de novatos japoneses, deixados lá justamente para não enfrentarem a guerra de verdade, que acontecia com a China, ao sul. Esses soldados, que também andavam a cavalo, expulsaram os mongóis a tiros, matando sete deles. 

Soldados japoneses atravessando o rio Khalkhyn Wikimedia Commons

Os japoneses sabiam no que estavam se metendo. Desde uma revolução em 1924, a Mongólia era uma república comunista fortemente próxima à União Soviética. Segundo Drea, os japoneses simplesmente estavam dispostos a "castigar os violadores de suas fronteiras", custasse o que custasse. A patrulha em Nomonhan não era parte do Exército Imperial Japonês, mas do Exército de Kwangtung, uma força especial para administrar as possessões japonesas em terra.

A força havia sido criada após a vitória na Guerra Russo-Japonesa (1904-1905), que deu ao Japão uma faixa de terra ao norte da Coreia. Em 1910, o Japão anexou a Coreia por meio de um tratado. Em 1931, os radicais do exército de Kwangtung armaram um falso atentado chinês, desobedeceram ordens do comando geral em Tóquio e conquistaram por conta própria a Manchúria, território ao norte da China, instalando um governo marionete. 

Fato consumado

Apesar da insubordinação, a riqueza da região fez os oficiais japoneses considerarem a conquista um fato consumado e aceitarem suas consequências. A partir daí, o Japão tinha 3 mil km de fronteira com a URSS para administrar. No ano anterior, os japoneses haviam tentado conquistar um pedaço de terra próximo ao lago Khazan, 130 km ao sul de Vladivostok, a cidade mais importante do Extremo Oriente russo. Os japoneses foram repelidos, mas lutaram em menor número, 7 mil contra 22950, e tiveram menos baixas que os russos: 526 mortos e 913 feridos, contra 717 e 2752. Não ficaram impressionados.

Segundo Drea, o Japão acreditava que os russos eram ferozes em combate, mas um tanto sem imaginação. Os expurgos no Exército feitos por Stalin a partir de 1935 teriam deixado o Exército Vermelho descerebrado, e os soldados, submissos e atemorizados, ficariam sem iniciativa se atingidos pela tenacidade japonesa. Os japoneses sabiam que suas armas eram inferiores às dos soviéticos, mas esperavam vencer com seu "espírito de guerra" superior, isto é, sendo corajosos de forma suicida. A tática favorita da infantaria japonesa era atacar à noite, chegar o mais próximo possível do inimigo, de preferência pelos flancos, e executar uma carga com baionetas e espadas - a famosa carga banzai, que os americanos veriam na Segunda Guerra.

Os mongóis voltaram com seus amigos russos dois dias depois do primeiro incidente. Os japoneses em Nomonhan pediram ajuda, e ela veio com as tropas do 64º regimento, com carros leves e tropas de infantaria. Inicialmente, conseguiram expulsar os russos e mongóis com as táticas dos manuais japoneses. Mas os russos voltaram mais uma vez, liquidando o 64º em 28 de maio.

No mês de junho, japoneses e russos se enfrentaram esporadicamente, enquanto traziam mais tropas. O número de combatentes, que se mediam antes em dezenas (foram 97 mortos na destruição do 64º regimento), logo chegou a milhares. Em 1º de julho, os japoneses lançaram um assalto noturno em larga escala, com 75 tanques. Apesar de sérios problemas de comunicação (os tanques chegaram muito antes da infantaria), os japoneses expulsaram os russos para o outro lado do rio. Mas isso durou pouco. Os russos contra-atacaram com 186 tanques e 233 carros blindados, dominando novamente as duas bordas do rio no dia 3. Os tanques japoneses, com blindagem e armas inferiores, foram trucidados pelos tanques soviéticos. 

Outro grande ataque 

Após mais duas semanas de impasse, no dia 23 de julho, os japoneses montaram outro grande ataque, com mais tanques, aviões e artilharia. Dessa vez, sua inferioridade tecnológica, logística e tática tornou-se gritante: a artilharia japonesa não conseguiu alcançar a russa para silenciá-la - os soldados japoneses marcharam sob tiros de artilharia e canhões e, por mais corajosos que fossem, morriam antes de alcançar os russos. Os aviões japoneses venciam os soviéticos no ar, mas o simples fato de terem de enfrentá-los, em vez de dar suporte à infantaria, diminuiu sua utilidade. Cinco mil soldados morreram antes que os japoneses desistissem do ataque.

Os japoneses fortificaram-se na retaguarda, enquanto tentavam preparar uma nova investida. O comandante soviético Georgy Zhukov, que mais tarde se tornaria o grande herói da defesa de Stalingrado, tinha uma carta na manga: contrariando tudo o que os japoneses esperavam, ele seria criativo. Em 20 de agosto, simulou um ataque frontal de infantaria, com 57 mil homens contra os cerca de 30 mil japoneses que resistiam. Era o tipo de coisa que os japoneses esperavam dos russos: força bruta, mas previsibilidade. Enquanto isso, 577 caças e bombardeiros os sobrevoavam constantemente, mesmo sem atirar.

O objetivo era fazer barulho: sem que os japoneses percebessem, 498 tanques russos os cercavam pelo sul, enquanto parte da infantaria se movia silenciosamente pelo norte. Os japoneses acabaram totalmente cercados, mas, seguindo os preceitos da honra militar nipônica, recusaram-se a se render. Em 31 de agosto, passaram para o outro lado da fronteira estabelecida pelos soviéticos, e Zhukov considerou sua missão cumprida.

A frustração

O general Michitaru Matsubara planejava mais um contra-ataque quando, no dia 16 de setembro, recebeu a notícia de que sua guerra estava encerrada. Tóquio havia feito um acordo de paz com os soviéticos. Além do fracasso na batalha, pesou na decisão do comando japonês o fato de que a Alemanha também havia acabado de assinar um armistício com os soviéticos. O tratado de Molotov-Ribbentrop, firmado em 23 de agosto de 1939, garantiu a paz entre os dois países e fez com que a Polônia fosse dividida em duas partes após a invasão pelos alemães, em 1º de setembro. O governo japonês considerou o pacto uma traição de seus aliados nazistas, mas qualquer plano de enfrentar a União Soviética ia por água abaixo com ele.

Segundo Edward Drea, os japoneses consideravam os soviéticos seus "inimigos naturais" desde a vitória em 1905. A questão não era se atacariam a União Soviética, mas quando. A ideologia japonesa tinha o característico socialismo de direita de Hitler e Mussolini, isto é, grandes programas sociais, mas também grandes corporações nacionais apoiadas e controladas pelo governo - nada de livre mercado. Como o fascismo à europeia, era radicalmente anticomunista.

Aeronave soviética destruída Wikimedia Commons

Havia duas doutrinas sobre como abordar a questão soviética. A chamada nanshin-hon ("atacar ao sul"), defendida pelos líderes da Marinha e do Exército em Tóquio, consistia em conquistar colônias e recursos no oceano Pacífico e depois focar a Ásia continental e a União Soviética. E havia a doutrina hokushin-hon, ("atacar ao norte"), defendida principalmente por oficiais do Exército de Kwangtung e por anticomunistas mais radicais, como o ex-ministro da guerra Sadao Araki (1877-1966). Essa corrente previa cortar as linhas de suprimentos soviéticos ao norte da Mongólia e conquistar o leste da Rússia, principalmente a cidade de Vladivostok.

A derrota japonesa em Khalkhin Gol tornou claras suas deficiências em terra e na produção de tanques - e enterrou a ala hokushin-hon. Além disso, depois do episódio, o general Matsubara foi levado a Tóquio e aposentado - uma imensa desonra.

Farsa

Do outro lado do mundo, o acordo Molotov-Ribbentrop se provaria uma farsa. Em 22 de junho de 1941, Hitler invadiu a União Soviética, a começar pelos territórios que a própria URSS havia ganho com o acordo, como o nordeste da Polônia. O Japão, no entanto, preferiu não intervir. Tinha outros planos: em 7 de dezembro de 1941, a partir de seis porta-aviões, decolaram 373 caças, bombardeiros e torpedeiros.

Dirigiam-se a Pearl Harbor, no Havaí, e sua missão era aniquilar a maior parte das tropas americanas no oceano Pacífico. Os EUA perderam quatro encouraçados e dois destróieres, além de 188 aviões e 2402 soldados. Vários navios, danificados, levariam meses para sair novamente do estaleiro.

Os americanos não estavam em guerra com o Japão e a Alemanha, e a opinião pública era maciçamente contra o envolvimento numa guerra que era vista como assunto interno europeu. No dia seguinte, no entanto, eles declararam guerra ao Japão e, em 11 de dezembro, Itália e Alemanha declararam guerra aos EUA.

"Se o Japão tivesse atacado a União Soviética no verão de 1941, o choque de uma guerra de dois fronts poderia ter feito os soviéticos desabarem (o outro front era o efetivo enfrentamento contra os alemães). Sem os Estados Unidos na guerra, os parceiros do Eixo seriam capazes de garantir um acordo de paz, criando uma União Soviética enfraquecida e fragmentada", diz Drea. Esse cenário facilitaria a vitória final de Hitler. Sem Khalkhin Gol, o mundo poderia ser outro. Provavelmente, pior.


As armas da batalha

Tanques do Japão eram mais frágeis

Chi-Ha tipo 97

Wikimedia Commons

Com 15,8 toneladas, era o tanque mais potente dos japoneses. Apenas quatro deles foram usados em Khalkhin Gol. A maior parte era de tanques de modelos anteriores. Foram pegos por armadilhas antitanque ou derrotados pelos tanques russos, em maior número. A estrutura semicircular na torreta é uma antena de rádio.


Nakajima Ki-27

Wikimedia Commons

Introduzido em 1936, era mais rápido e manobrável que qualquer avião soviético, exceto os modelos do I-16, produzidos no fim do conflito. Os pilotos japoneses eram mais experientes. Apesar de não ter tanques de combustível autosselantes, que protegem de fogo no caso de serem atingidos, e de suas armas não serem muito poderosas, os japoneses geralmente levavam a melhor no ar.


Polikarpov I-16

Wikimedia Commons

Modelo considerado revolucionário quando foi introduzido, em 1933, tinha um trem de pouso retrátil e o cockpit totalmente fechado. Ambas as mudanças o tornavam mais aerodinâmico e, assim, mais rápido que o Ki-27. Mas a experiência e as táticas conjuntas dos pilotos japoneses fizeram com que os soviéticos perdessem 105 desses aviões para os cerca de 250 aviões japoneses que participaram do combate.

Fábio Marton

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