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Koutakuseis: Os guerreiros da juta

Um grupo de jovens e obstinados imigrantes japoneses enfrentou uma odisseia em plena floresta amazônica, nas décadas de 30 e 40, para introduzir a cultura da fibra no Brasil

Redação Publicado em 19/12/2021, às 09h00

Fotografia de audiência entre Tsukasa Uyetsuka e o presidente Getúlio Vargas
Fotografia de audiência entre Tsukasa Uyetsuka e o presidente Getúlio Vargas - Divulgação/ Associação Koutaku do Amazonas

Parintins, Amazonas. O ar úmido e quente e as nuvens de mosquitos não colaboravam com a missão de Tsukasa Uyetsuka. Pelo contrário: aumentavam o desafio de recuperar o desgastado ânimo dos colonos.

Ele atravessara oceanos em uma viagem de 60 dias apenas para isso: lembrar aos imigrantes, muito jovens, que tinham feito um juramento de não deixar a Amazônia. Ao fim de seu discurso, contudo, não estava certo de que seu projeto de construir ali uma comunidade japonesa teria sucesso.

Os rapazes pareciam desesperados, loucos para voltar ao Japão. Até que um deles, Riota Oyama, aproximou-se e mostrou, triunfante, algumas sementes de juta. Os grãos, colhidos da primeira planta a atingir, enfim, o tamanho adequado para a produção comercial, eram o estímulo que faltava.

Esse pequeno tesouro de Oyama foi responsável por colocar o Brasil entre os primeiros produtores mundiais de juta e por fazer avançar os planos de Tsukasa Uyetsuka. A história da Vila Amazônia começa na década de 20, no século passado, quando uma delegação japonesa veio conhecer a região.

O estado do Amazonas sofria o declínio da economia da borracha e seu governador, Ephigênio Salles, ofereceu aos japoneses cerca de 1 milhão de hectares, em troca de mão-de-obra especializada. O acordo era tentador.

Afinal, a população do Japão crescia rapidamente e, embora muitos migrassem para o Peru e para os Estados Unidos, esses países já começavam a impor restrições aos estrangeiros. As terras no Amazonas foram inicialmente cedidas a dois empresários japoneses, que desistiram delas tão logo se deram conta do trabalho hercúleo que seria não só pela tarefa como pela distância.

Ambos comentaram o fato com o amigo, o deputado Uyetsuka. O político, no entanto, acreditou que um projeto de imigração bem feito poderia ser uma ótima oportunidade de negócio. Assim, ele assumiu a difícil proposta.

A doação das terras acabaria rejeitada pelo Senado brasileiro, anos depois, em 1934. Mas, até lá, Uyetsuka tocou a ideia por conta própria e comprou 1,5 mil hectares onde hoje está a cidade de Parintins, a 390 km de Manaus.

O ponto era estratégico, entre os rios Amazonas e o Paraná dos Ramos, com facilidade de escoamento tanto para Manaus quanto para Belém. O produto escolhido para ser cultivado, base econômica da colônia, foi a juta. Originária da Índia, a fibra era indispensável ao comércio internacional, usada nos sacos de café e outras mercadorias, por absorver umidade e preservar seus conteúdos.

Koutakuseis aprendendo a arar e plantar / Crédito: Divulgação/ Associação Koutaku do Amazonas

 

Mas poucos países a produziam em larga escala. Em 21 de outubro de 1930, a comunidade conhecida como Vila Batista recebeu um novo nome e um novo destino: em cerimônia chamada Rittyushiki, foi lançada a pedra fundamental da Vila Amazônia.

Para preparar os imigrantes que iriam encarar o desafio da floresta, Tsukasa Uyetsuka transformou uma escola de artes marciais, no Japão, na Escola Superior de Imigração (Kokushikan Koutou Takushoko Gakko). Desse nome nasceu a expressão koutakuseis para identificar seus alunos, rapazes entre 18 e 20 anos que aprendiam técnicas de cultivo, noções de construção civil e língua portuguesa.

O primeiro navio em direção à Amazônia saiu de Tóquio, no Japão, em 21 de junho de 1931, levando a turma pioneira, com 38 alunos. Semente premiada O plano parecia perfeito. Boa localização, produto valorizado, trabalhadores qualificados.

Mas deu tudo errado. A juta não se desenvolvia como o esperado e não atingia o tamanho ideal para o corte (cerca de 4 metros). Os colonos precisavam plantar em locais alagados e colher os ramos com meio corpo submerso, além de se dedicarem à lida na infra-estrutura da vila, construindo moradias e instalações de uso comum.

Durante dois anos, a planta não cresceu. Até o advento da semente de Oyama. Duas das suas mudas ficaram maiores e mais vistosas. Ele decidiu então transportá-las para um local em que o nível da água estivesse mais baixo.

Cúmulo da má sorte, acabou quebrando uma delas no caminho. Restava, então, um único espécime capaz de gerar lucros. Foi quando Oyama colheu as sementes e as levou para Uyetsuka, que fazia uma de suas visitas à colônia.

Por ordem do deputado, entre 1933 e 1936, essas sementes foram plantadas, transformaram-se em novas matrizes e deram origem a novas sementes e a plantas fortes. Uyetsuka conseguiu recursos junto a empresas como Mitsubishi, Mitsui e Sumitomo, e fundou, em 1935, a Companhia Industrial Amazonense, subsidiária no Brasil da Cia. Industrial da Amazônia, criada no Japão.

Em 1937, foi colhida a primeira tonelada de juta da Vila Amazônia. Sete turmas de koutakuseis, ou 249 jovens, foram enviadas ao Brasil, em sete anos. A intenção era que a colônia da Vila Amazônia tivesse 10 mil imigrantes, ou 10 mil famílias.

Em Manaus, duas tecelagens foram instaladas, a Brasiljuta e a Fitejuta. E, embora as casas ainda fossem cobertas de palha e sem energia elétrica, a vila ganhou armazém, escola e posto médico. Surgiram culturas paralelas, de hortaliças e frutas. Ou seja, tudo indicava que o projeto ia atingir sua meta, a criação de um pequeno Japão encravado na Amazônia brasileira.

Prisioneiros de guerra

Uyetsuka previu tudo, menos a guerra. O ataque japonês à base norte-americana de Pearl Harbor, em dezembro de 1941, marcou a adesão oficial do país à Segunda Guerra Mundial. Como em outras partes do Brasil, os imigrantes japoneses foram proibidos de fazer reuniões públicas e de falar seu idioma.

Fotografia de Pearl Harbor durante o ataque / Crédito: Getty Images

 

Alguns se esconderam na mata e muitos foram feitos prisioneiros de guerra e levados para Tomé-Açu, no Pará, até hoje uma importante colônia japonesa. O cultivo da juta, apesar do desassossego que tomou a vila, continuou. Entre 1938 e 1942, a região produziu cerca de 5 mil toneladas da fibra. Decreto de 1941 oficializou a cultura, após uma conversa direta entre Tsukasa Uyetsuka e o então presidente Getúlio Vargas.

O encontro ocorreu em Parintins, durante inspeção oficial de Vargas à região amazônica. Mas, no ano seguinte, apesar do interesse do Hakko Kaikan, templo e centro das atividades culturais da Vila Amazônia presidente, as terras dos colonos foram desapropriadas. Em 1946, os bens da Vila Amazônia foram a leilão como espólio de guerra e a Companhia Industrial Amazonense foi vendida para a empresa J.G. Araújo.

No início da década de 50, já encerrado o conflito, Uyetsuka tornou a procurar Getúlio para propor a criação de uma telecelagem, a Tecejuta. Segundo o relatório que deixou escrito (veja o quadro acima), o projeto teve o apoio do presidente, que, no entanto, faleceu em 1954, antes que Uyetsuka tivesse tempo de retomar a saga dos koutakuseis.

No local da Vila Amazônia, hoje, há apenas ruínas e um cemitério. Os caracteres japoneses nas lápides de pedra lembram os homens que sofreram com malária, febre amarela e outras adversidades dos trópicos, para levar adiante um dos mais ousados projetos de imigração do país.