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Kryptos: o maior enigma da CIA que já dura décadas

Em 1990, um monumento misterioso foi instalado na agência, com letras misturadas que guardam segredos; apenas o último e mais difícil quebra-cabeça ainda não foi decifrado

Isabela Barreiros Publicado em 29/10/2020, às 06h00

A escultura Kryptos
A escultura Kryptos - Wikimedia Commons

Por si só, a CIA já é uma das instituições mais misteriosas do mundo. A agência de inteligência consegue resolver alguns dos mais complexos enigmas, mas uma das maiores incógnitas — ainda não totalmente resolvidas — está na sua própria porta de entrada.

Em 1988, o escultor estadunidense Jim Sanborn recebeu uma encomenda muito peculiar, vinda da CIA. Dois anos depois, uma escultura comparável a uma charada foi instalado bem na frente da sede da agência na cidade de Langley, na Virgínia, EUA. 

Já naquele dia, em 3 de novembro de 1990, o mistério circundou o local. Embora o artista tenha dado um envelope ao então diretor do serviço de inteligência, William Webster, em seu interior estava apenas uma solução parcial para o enigma que se estabeleceu a partir daquele momento.

Escondido em grego

Crédito: Wikimedia Commons

 

Sanborn provou-se um verdadeiro gênio. Conhecido como Kryptos, que, em grego, significa “escondido”, o monumento é composto por enormes placas de cobre, contando com quatro ao total. Elas são sua parte mais marcante, mas o mistério aumenta quando percebemos que ainda existem outros elementos na instalação, como plantas, água, madeira e granito. 

Em um formato de S, o conjunto das placas possuem textos criptografados, alvo de investigação e estudos. Ele se parece com um pergaminho, e as incógnitas a serem resolvidas estão nas 26 letras do alfabeto latino misturadas com pontos de interrogação.

É aí que reside o aspecto de esfinge de toda a escultura: o que esses caracteres querem dizer? Qual é a mensagem que as quatro placas de cobre querem passar para os poucos que a decifrarem?

Até hoje 30 anos depois, porém, apenas três de quatro foram decodificadas, tanto por entusiastas de charadas quanto por pessoas que dedicam suas vidas a entenderem mensagens perdidas. 

Todos ficaram impressionados e intrigados por Kryptos. A primeira charada foi compreendida por uma comprometida equipe da Agência de Segurança Nacional dos EUA, que tem as anotações dos membros do time registradas em seu site oficial.  “ENTRE O SOMBREAMENTO SUTIL E A AUSÊNCIA DE LUZ ESTÁ A NUÂNCIA DE IQLUSÃO”, diz a inscrição.

Segundo Sanborn, o erro de grafia da palavra “illusion”, ilusão em portugês, foi proposital, feita com o intuito de misturar ainda mais todas as letras, dificultando a decodificação. Além disso, ele informou ainda que a próxima cifra sempre fica mais difícil que a anterior.

A segunda conta com a localização por latitude e longitude da CIA, além de perguntar: “LANGLEY SABE SOBRE ISSO? ELES DEVEM: ESTÁ ENTERRADO LÁ EM ALGUM LUGAR. X QUEM SABE A LOCALIZAÇÃO EXATA? SOMENTE WW”. Pelo que se sabe, WW é uma referência a William Webster, que dirigia a agência naquela época.

O terceiro enigma é um gigante texto: "LENTAMENTE, DESPARADAMENTE LENTAMENTE, OS RESTOS DE DETRITOS DE PASSAGEM QUE ENCUMRERAM A PARTE INFERIOR DA PORTA FOI REMOVIDOS. COM MÃOS TREMISTAS, FIZ UMA PEQUENA VIOLAÇÃO NO CANTO SUPERIOR ESQUERDO. E ENTÃO, AMPLIANDO UM POUCO O BURACO, INSERI A VELA E ESPEREI DENTRO. O AR QUENTE QUE ESCAPA DA CÂMARA FAZ COM QUE A CHAMA PENSE, MAS ATUALMENTE DETALHES DA SALA DENTRO DE EMERGEM DA NÉVOA. X VOCÊ PODE VER ALGUMA COISA? Q”.

Contando também com erros de grafia, esse enigma parafraseia parte do que o egiptólogo Howard Carter disse quando a tumba do faraó Tutancâmon foi aberta no Egito — que já é cercada de mistérios.

Esses textos foram decifrados ao longo dos anos. Mas o último — e, portanto, mais difícil de todos — permanece em aberto. Ele é mais curto que os outros, tendo somente 97 caracteres, e seu criador já deu algumas dicas para os curiosos que tentam decifrá-lo. 

O mistério continua

Crédito: Wikimedia Commons

 

Em entrevista ao New York Times, Craig Bauer, professor de matemática no York College da Pensilvânia, explicou como a escultura continua apelativa depois de 30 anos. “Temos muitos problemas que são difíceis de resolver — intimidantes, talvez até assustadores. É um grande prazer para as pessoas escolherem um que eles acham que têm uma chance de resolver”, disse.

E isso está se provando como verdadeiro: até os dias de hoje, Sanborn é questionado e, às vezes, dá alguns conselhos para quem estuda sua criação à fundo. As pistas são as palavras Berlim, relógio e, a última, nordeste. 

Atualmente com 74 anos, ele disse ao NYT: “Nos últimos anos, tenho tentado descobrir como fazer com que esse 'sistema' sobreviva à minha morte e não tem sido fácil”,  disse. Se o artista morrer antes da esfinge ter seus segredos revelados, a solução para eles será levada à leilão. Será de responsabilidade do comprador divulgar ou guardar para si a preciosa informação.