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Lágrimas na câmara de gás: Joe Arridy, o jovem morto por um crime que não cometeu

Com a idade mental de um menino de 6 anos, o garoto era extremamente sugestionável e, quando pressionado, assumiu um homicídio do qual não fez parte

Pamela Malva Publicado em 27/06/2020, às 18h00

Mugshots de Joe Arridy, já na cadeia
Mugshots de Joe Arridy, já na cadeia - Divulgação

Barbara Drain tinha apenas 12 anos quando acordou em um hospital, cercada por tubos e parentes preocupados, após uma noite de puro terror, em 15 de agosto de 1936. Ao lado da irmã mais velha, ela havia sido atacada por um homem desconhecido.

Aos 15 anos, no entanto, a jovem Dorothy Drain não teve a mesma sorte que a irmã e acabou morrendo nas mãos de um criminoso frio que, sem piedade, a estuprou antes de arrancar sua vida. Devastada, a família das duas meninas queria justiça. E logo.

Por algum tempo, o caso ganhou amplitude nacional e, de repente, o ensolarado Colorado estava em todas as manchetes. Duas meninas inocentes tinham sido atacadas por um sádico que deveria ser preso à todo custo.

Mugshot do jovem Joe Arridy / Crédito: Wikimedia Commons

 

Sala de metal

Nascido em 1915, o jovem Joe Arridy não sabia muito bem porque estava caminhando pelas ruas de Cheyenne, Wyoming, em 26 de agosto de 1936. Confuso e sozinho, ele acabou sendo interpelado pela polícia e foi levado até a delegacia local.

Detido por vadiagem, o garoto de 21 anos demonstrava claros indícios de uma deficiência mental e não apresentava quaisquer noções de realidade. Sua condição, no entanto, não impediu que o xerife George Carroll o interrogasse com afinco.

Joe batia perfeitamente com a descrição dada por testemunhas no dia do homicídio de Dorothy Drain e, para os oficiais, só poderia ser o real assassino. Demoraram poucas horas até que o suspeito, cedendo à pressão, assumisse o crime hediondo.

Confusão na corte

Apesar de culpado, Joe Arridy não sabia a grande maioria dos detalhes do caso — como a arma usada naquela noite — e mudava seus testemunhos sempre que uma nova pessoa o interrogava. Para muitos, então, ficou claro que ele não era o assassino. 

Durante as investigações, inclusive, os oficiais descobriram que Joe estava sob os cuidados de uma instituição para deficientes mentais desde os 10 anos de idade. Altamente sugestionável, contudo, ele havia fugido no dia em que foi pego em Wyoming.

Pouco tempo mais tarde, o verdadeiro criminoso foi identificado por Barbara como sendo Frank Aguilar. Sentenciado à morte, ele foi executado em 1937. A polícia, todavia, estava convencida de que Frank e Joe haviam cometido o crime juntos.

 Roy Best lê a sentença de Joe Arridy para o jovem / Crédito: Biblioteca Pública de Denver

 

Erro fatal

Mesmo com a afirmativa de Frank dizendo que nunca tinha visto Joe na vida, o jovem deficiente — que tinha a mesma mentalidade de um menino de seis anos — foi julgado pelo assassinato de Dorothy e, assim como o outro acusado, sentenciado à morte.

Durante os julgamentos, três psiquiatras declararam que Joe não tinha a menor noção de certo e errado. Essa falta de consciência fazia com que ele fosse "incapaz de executar qualquer ação com intenção criminosa".

Roy Best, o diretor da prisão onde Joe foi detido, afirmava que o acusado era “o homem mais feliz que já viveu no corredor da morte". Muito dos comportamentos gentis e conformados do jovem eram assim porque ele não entendia o conceito de morte.

Joe Arridy entrega seus trens de brinquedo para outro prisioneiro / Crédito: Divulgação/Youtube

 

Lágrimas derramadas

No dia anterior à sua execução, Joe Arridy pediu que sua última refeição fosse um sorvete. Sem compreender direito qual seria seu destino, ele estava muito mais interessado em seus trens de brinquedo quando foi escoltado pela cadeia.

No dia 6 de janeiro de 1939, enquanto caminhava pelo corredor da morte, o jovem entregou seus trens para outro prisioneiro e sorriu para os guardar que o amarraram na cadeira da câmara de gás. A sala foi fechada e, do outro lado da porta, Roy Best chorava enquanto o sistema era acionado injustamente.

Gentil e inocente, Joe Arridy foi acusado e assassinado por um crime que não cometeu. Em 2011, 72 anos depois da execução do jovem, o governador do Colorado, Bill Ritter, concedeu ao garoto um perdão póstumo pelo erro cometido pelo Estado.


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