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A lenda de Peter Niers, o bruxo canibal que arrancava e devorava fetos de mulheres grávidas

Os relatos sobre os 15 anos de crimes do suposto mago misturam fatos com folclore germânico do século 16

Vanessa Centamori Publicado em 16/04/2020, às 18h00

Ilustração de Peter Niers
Ilustração de Peter Niers - Divulgação/Facebook

Em 1581, o bruxo Peter Niers foi preso pela segunda vez. Ele bem que tentou, mas não conseguiu escapar da prisão, pois estava sem o seu saco de magia negra. Normalmente, o assassino carregaria na sacola fetos de bebês arrancados de grávidas assassinadas por ele mesmo.

Dizia o folclore germânico que aquele material macabro o ajudaria a ficar invisível: uma habilidade mão na roda para uma fuga da prisão. Mas, sem os fetos, ele jamais conseguiu escapar. 

Tal história foi descrita por Johann Wick, — hoje considerado um repórter do século 16 —, em seus panfletos, finalizados no ano de 1583. Sabemos atualmente que os poderes mágicos de Niers eram simplesmente uma crença, algo que jamais foi comprovado. 

Por outro lado, sem sombra de dúvidas, com ou sem poderes, o suposto mago foi um assassino em série — e um dos mais cruéis de sua época. Cometeu um total de 544 assassinatos, incluindo o extermínio de 24 fetos de mulheres grávidas mortas a sangue frio.

Bandos de ladrões na Guerra dos Camponeses / Crédito: Wikimedia Commons 

 

Fruto da guerra

Peter Niers nasceu camponês, na Alemanha, durante o século 16. Começou a matar logo no início da Guerra dos Camponeses, em 1525. A revolta foi a maior da Europa antes da Revolução Francesa. 

Enquanto camponeses saíam armados e cercavam castelos de senhores feudais, as taxas de criminalidade aumentavam na Alemanha — 11 até 15% dos crimes foram homicídios naquela época. No meio desse caos, o bruxo começou a agir. 

Na cidade de Alsácia, França, que ficava no meio do conflito campesino, Niers montou uma gangue de 24 bandidos. Viajou com o grupo criminoso até a Holanda, o sul da Alemanha, e o oeste francês. Durante 11 anos, eles cometeram roubos, estupros e assassinatos, aterrorizando viajantes em estradas do interior da Europa.

Ilustração de viajantes em estradas europeias / Crédito: Domínio Público

 

A primeira captura 

Em 1577, Niers e seus parceiros de crime foram finalmente capturados. Um dos assassinos havia dedurado a gangue e o mago foi torturado. Durante o escrutínio, confessou ter matado 75 pessoas, o que explicou o desaparecimento de várias mulheres da região. 

Porém, eventualmente, o homem conseguiu escapar da prisão e fugir da pena de morte. Logo após alcançar essa proeza, surgiram boatos sobre as suas habilidades mágicas. As pessoas diziam que ele era capaz de ficar invisível e se transmutar em gatos, cães e cabras. 

Surgiram canções populares e livros sobre a história do bruxo. Historiadores sugerem que os crentes no folclore germânico acreditavam que velas feitas com a pele e a gordura de fetos permitiam ao mago ficar invisível e invadir casas para assaltar com sua gangue. 

Além disso, o bruxo adquirira o poder da transmutação pois era canibal e devorava ritualisticamente alguns dos fetos para poder se transformar em animais e pedras. De quebra, aproveitava ainda para devorar os cadáveres das mães grávidas. 

Em uma ordem de prisão de 1579, o assassino é descrito como “meio velho”, com dedos tortuosos e uma cicatriz no queixo. Porém, a descrição dele varia muito, já que a lenda popular dizia que ele já foi visto na forma de um soldado e de um leproso — fora quando ele supostamente não surgia como um bode. 

A roda da morte medieval, que acabou com a vida de Peter Niers / Crédito: Wikimedia Commons 

 

A quebra do encanto

Em 1581, os anos de magia de Peter Niers tiveram um fim perturbador. Antes de ser morto, ele estava fugindo para não ser preso. Tentou se esconder na hospedaria The Bell, no distrito rural alemão de Neumarkt.

Certo dia, o bruxo pediu que o estalajadeiro ficasse com o seu saco especial de magia negra, onde ele carregava seus feitiços e os fetos que engolia. O plano de Niers era ir até uma casa de banho, onde se limparia. 

Enquanto ele se banhava, os camponeses da região pressionaram o estalajadeiro para que ele abrisse aquele misterioso saco. Quando todos descobriram os itens de magia negra, Niers foi identificado e apreendido. 

Como estava sem seus itens, acreditou-se que ele não conseguiu ficar invisível e não pôde fugir. O assassino confessou ter matado 544 pessoas. Como punição, foi torturado por três dias. 

No primeiro dia, parte da pele do bruxo foi removida e óleo quente foi colocado nas feridas. Já no dia seguinte, os seus pés foram colocados acima de brasas, para, em parte, assá-lo vivo. No último dia, ele foi amarrado em uma roda de tortura medieval para que seus ossos fossem quebrados até que, enfim, sua morte chegasse. 

Depois disso tudo, diz a lenda que, por algum motivo misterioso, o mago não morreu, pois tinha um pacto com o diabo — ou assim se acreditou na época. Seu carrasco decidiu então cortar os órgãos de Niers para que ele morresse de uma vez por todas. 

Imagem ilustrativa de execução / Crédito: Divulgação 

 

Controvérsias

É difícil distinguir fato de folclore quando se fala sobre a história de Peter Niers. No entanto, historiadores acreditam que dois outros relatos contemporâneos aos assassinatos cometidos pelo suposto bruxo se misturam na narrativa. 

Essas duas outras histórias são as dos seriais killers Christman Genipperteinga e Peter Stumpp. Genipperteinga matou 964 pessoas e também foi executado através da roda de tortura. Os camponeses também diziam que ele supostamente tinha um pacto com o diabo. 

Segundo o livro Crime and Culture in Early Modern Germany ( 2012), de Joy Wiltenburg, a associação com o diabo e elementos de magia negra na história de Peter Niers muito possivelmente veio de notícias sobre bruxaria que alimentavam o imaginário do século 16. Panfletos dos anos 1582 e 1583 anunciavam a existência de respectivamente, 134 e depois 225 bruxas. Contos de realmente arrepiar os cabelos.


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