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Leopoldina de Habsburgo: A mãe do Brasil

Como a angustiada — mas decidida — imperatriz influenciou fatos decisivos no país adotivo

Marsilio Cassotti Publicado em 22/06/2019, às 14h00 - Atualizado às 17h00

Conheça a verdadeira face da princesa
Conheça a verdadeira face da princesa - Wikimedia Commons

Alguns dias depois de seu compromisso matrimonial com dom Pedro, Carolina Josefa Leopoldina de Habsburgo-Lorena, a futura imperatriz Leopoldina, ouviu os conselhos de seu pai sobre o que a esperava no Brasil. Consistiam em realizar todos os desejos do marido, inclusive os menores e tentar evitar a rainha Carlota Joaquina. A arquiduquesa já havia sido informada sobre alguns aspectos pouco louváveis do comportamento de sua futura sogra — única coisa que lhe causava medo em seu futuro brasileiro.

Pouco antes de se casar, sua preceptora principal, uma nobre austríaca de costumes imaculados, escreveria em francês umas pautas morais e máximas de comportamento (Mes Résolutions) para que lhe servissem de guia durante sua vida conjugal. Algumas dessas resoluções (por meio de eufemismos, naturalmente) tocavam aspectos muito delicados. Por exemplo, recomendava que Leopoldina evitasse excesso de sensualidade durante o descanso.

Noites turbulentas

Depois de 80 dias de viagem, em 5 de novembro de 1817, a princesa real do Brasil chegou à Baía de Guanabara. De acordo com os padrões clássicos europeus, Leopoldina não havia sido tocada pela varinha genética da beleza, mas, segundo palavras de um tio, “no Brasil todo o mundo a considera bonita”.

De qualquer maneira, terminada sua recepção, os Bragança acompanharam o casal principesco até o Palácio de São Cristóvão, em cujos aposentos, segundo palavras de uma servidora austríaca de Leopoldina, “eu fui obrigada a despi-la, deitá-la na cama e esperar que o príncipe se pusesse a seu lado no leito. Então, felizmente, permitiram-me sair”.

Chegada de Leopoldina nas cortes brasileiras / Crédito: Reprodução

 

A arquiduquesa narraria a sua irmã Luisa que havia se despido ao lado de seu marido, assistido na tarefa pelo rei dom João VI e o infante dom Miguel. No dia seguinte, o “querido esposo, que não me deixou dormir a noite toda”, parecia à Leopoldina “não somente belo, mas também bom e sensato”. Setenta e duas horas mais tarde, a princesa também daria conta a sua irmã da irrefreável energia sexual do príncipe, comentando que “passei alguns dias bem difíceis, pois estava de mau humor desde as 7 da manhã até as 2 da madrugada, e, além disso, meu amado esposo não me deixava dormir, até que eu lhe disse que estava abatida”.

Com base em um teste munho muito autorizado, uma arquiduquesa havia encarado o assunto com senso de humor. O imperador Napoleão I escreveu em suas memórias que, na primeira noite de casado com a arquiduquesa Maria Luisa, “fui a seu encontro e ela fez tudo rindo. Riu a noite inteira”.

A primeira esposa de Pedro I era uma mulher pudica por natureza, com critérios em relação à sexualidade e fidelidade conjugal mais severos que os que reinavam nos ambientes aristocráticos de sua época, a começar por sua irmã Luisa, que teria dois filhos de um homem que não era seu marido. Mas Leopoldina em absoluto não era uma beata.

A versão que alude ao furtivo encontro de Pedro não aparece respaldada pela carta que a arquiduquesa escreveu naquele mesmo dia a seu pai. E, embora se deva considerar que nos primeiros tempos de sua estadia no Brasil ela transmitiria ao imperador da Áustria uma visão cor de rosa da realidade, as primeiras queixas sobre seu esposo que fez chegar a Viena foram (como quase em qualquer casamento) por questões financeiras, já que o príncipe não lhe permitia gastar sua mesada da forma que ela queria.

A princesa real do Brasil seria mais explícita com Luisa, “certa de que esta carta não chegará a outras mãos senão as tuas, minha querida”. Leopoldina lhe contaria que Pedro “com toda a franqueza diz tudo que pensa, e isso às vezes com certa brutalidade”. “Acostumado a executar sempre sua vontade, todos devem se adequar a ele. Até eu sou obrigada a aceitar algumas respostas ácidas. Mas, vendo que algo me feriu, ele chora comigo. Apesar de toda sua violência e de seu modo particular de pensar, tenho certeza de que me ama ternamente.”