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Leopoldina de Habsburgo: a fineza e a firmeza política da imperatriz

A esposa de Dom Pedro I teve papel crucial na independência do Brasil

Marsilio Cassotti Publicado em 12/05/2020, às 10h19

Wikimedia Commons
Wikimedia Commons - Leopoldina preside o Conselho de Ministros em 2 de setembro de 1822

Uma carta de Leopoldina ao seu secretário prova que no fim de 1826 ela se sentia desiludida pela ingratidão política do imperador. Pois, se ele havia conseguido
fazer o país independente e ser coroado, em grande parte havia sido graças à sutil influência que ela exercia sobre ele depois que a corte portuguesa deixara o Rio de
Janeiro rumo a Lisboa, em 1821.

Pouco depois que as cortes portuguesas tiraram do Brasil a categoria de reino, Leopoldina comentou com esse colaborador que havia ficado "muito surpresa quando, ontem à noite, de repente vi meu esposo aparecer. Está mais bem-disposto em relação aos brasileiros do que eu esperava, mas não positivamente quanto eu desejaria. Dizem que as tropas portuguesas nos obrigarão a partir. Tudo estaria perdido, então, e é absolutamente necessário impedi-lo."

E em 8 de janeiro de 1822, a princesa escreveu em alemão para dizer que "o príncipe está decidido, mas não tanto quanto eu desejaria. Os ministros serão trocados e colocados em seu lugar".

Quanto à frase de Leopoldina "Muito me custou alcançar tudo isso, só desejaria insuflar uma decisão mais firme", uma das interpretações foi que ela
era quem tinha a vontade mais decidida e firme do casal nesse sentido.

Não parece casual, portanto, que no dia seguinte à redação dessa carta o príncipe acabasse declarando a famosa frase: "Se é para o bem de todos e felicidade geral da nação, estou pronto. Diga ao povo que fico".

Não menos importante para a independência do Brasil foi o sutil cultivo da amizade de José Bonifácio, depois de descobrir que o velho Andrada, por sua formação tradicional europeia e seu monarquismo moderado, podia ser o piloto que conduziria o Brasil a uma maior autonomia.

E sobretudo evitaria cair em uma revolução que trouxesse a República, como havia ocorrido na França, que cortara a cabeça da rainha Maria Antonieta (tia-avó de Leopoldina). A arquiduquesa inclusive convenceria esse brasileiro ilustrado que aceitasse
seu primeiro ministério.

Já completamente compenetrado com a mulher que considerava sua ama e amiga, no começo de 1822, Bonifácio escreveu a dom Pedro: "Senhor, ninguém mais que vossa
esposa deseja vossa felicidade, e ela vos diz que Vossa Alteza deve ficar e fazer a felicidade do povo brasileiro, que vos deseja como seu soberano".

Da carta que a princesa escreveu ao marido em 2 de setembro de 1822 conserva-se uma cópia. Afirma-se que o original, apesar de ser de seu punho e letra, poderia ter sido revisado por Bonifácio.

De qualquer forma, corresponde à autoria intelectual de uma mulher conhecedora dos gestos temperamentais do esposo.

“Pedro, o Brasil está como um vulcão. Até no paço há revolucionários. Até portugueses revolucionários. As cortes portuguesas ordenam vossa partida imediatamente; ameaçam-vos e humilham-vos.

O Conselho de Estado vos aconselha a ficar. Meu coração de mulher e de esposa prevê
desgraças se partirmos agora para Lisboa.

Sabemos bem o que tem sofrido nosso país. O rei e a rainha de Portugal não são mais reis, não governam mais, são governados pelo despotismo das cortes que perseguem e humilham os soberanos a quem devem respeito.

O Brasil será em vossas mãos um grande país. O Brasil vos quer para seu monarca. Com vosso apoio ou sem vosso apoio, ele fará sua separação. O pomo está maduro, colhei-o já, senão apodrecerá. Já dissestes aqui o que ireis fazer em São Paulo. Fazei, pois”.