Matérias » Personagem

Leopoldina de Habsburgo: A fineza e a firmeza política da imperatriz

A esposa de Dom Pedro I teve papel crucial na independência do Brasil

Marsilio Cassotti Publicado em 02/10/2019, às 08h00

None
- Leopoldina preside o Conselho de Ministros em 2 de setembro de 1822 / Crédito: Reprodução

Uma carta de Leopoldina ao seu secretário prova que no fim de 1826 ela se sentia desiludida pela ingratidão política do imperador. Pois, se ele havia conseguido
fazer o país independente e ser coroado, em grande parte havia sido graças à sutil influência que ela exercia sobre ele depois que a corte portuguesa deixara o Rio de
Janeiro rumo a Lisboa, em 1821.

Pouco depois que as cortes portuguesas tiraram do Brasil a categoria de reino, Leopoldina comentou com esse colaborador que havia ficado "muito surpresa quando, ontem à noite, de repente vi meu esposo aparecer. Está mais bem-disposto em relação aos brasileiros do que eu esperava, mas não positivamente quanto eu desejaria. Dizem que as tropas portuguesas nos obrigarão a partir. Tudo estaria perdido, então, e é absolutamente necessário impedi-lo."

E em 8 de janeiro de 1822, a princesa escreveu em alemão para dizer que "o príncipe está decidido, mas não tanto quanto eu desejaria. Os ministros serão trocados e colocados em seu lugar".

Quanto à frase de Leopoldina "Muito me custou alcançar tudo isso, só desejaria insuflar uma decisão mais firme", uma das interpretações foi que ela
era quem tinha a vontade mais decidida e firme do casal nesse sentido.

Não parece casual, portanto, que no dia seguinte à redação dessa carta o príncipe acabasse declarando a famosa frase: "Se é para o bem de todos e felicidade geral da nação, estou pronto. Diga ao povo que fico".

Não menos importante para a independência do Brasil foi o sutil cultivo da amizade de José Bonifácio, depois de descobrir que o velho Andrada, por sua formação tradicional europeia e seu monarquismo moderado, podia ser o piloto que conduziria o Brasil a uma maior autonomia.

E sobretudo evitaria cair em uma revolução que trouxesse a República, como havia ocorrido na França, que cortara a cabeça da rainha Maria Antonieta (tia-avó de Leopoldina). A arquiduquesa inclusive convenceria esse brasileiro ilustrado que aceitasse
seu primeiro ministério.

Já completamente compenetrado com a mulher que considerava sua ama e amiga, no começo de 1822, Bonifácio escreveu a dom Pedro: "Senhor, ninguém mais que vossa
esposa deseja vossa felicidade, e ela vos diz que Vossa Alteza deve ficar e fazer a felicidade do povo brasileiro, que vos deseja como seu soberano".

Da carta que a princesa escreveu ao marido em 2 de setembro de 1822 conserva-se uma cópia. Afirma-se que o original, apesar de ser de seu punho e letra, poderia ter sido revisado por Bonifácio.

De qualquer forma, corresponde à autoria intelectual de uma mulher conhecedora dos gestos temperamentais do esposo.

“Pedro, o Brasil está como um vulcão. Até no paço há revolucionários. Até portugueses revolucionários. As cortes portuguesas ordenam vossa partida imediatamente; ameaçam-vos e humilham-vos.

O Conselho de Estado vos aconselha a ficar. Meu coração de mulher e de esposa prevê
desgraças se partirmos agora para Lisboa.

Sabemos bem o que tem sofrido nosso país. O rei e a rainha de Portugal não são mais reis, não governam mais, são governados pelo despotismo das cortes que perseguem e humilham os soberanos a quem devem respeito.

O Brasil será em vossas mãos um grande país. O Brasil vos quer para seu monarca. Com vosso apoio ou sem vosso apoio, ele fará sua separação. O pomo está maduro, colhei-o já, senão apodrecerá. Já dissestes aqui o que ireis fazer em São Paulo. Fazei, pois”.