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Libertação do sobrinho e interesses comerciais: A ligação entre 'Coco' Chanel e o nazismo

Saiba mais sobre um dos capítulos mais controversos da vida da estilista francesa que entrou para a História

Laura Wie, especialista em História da Moda Publicado em 14/08/2021, às 09h00

Ilustração de Gabrielle Chanel
Ilustração de Gabrielle Chanel - Openthedoor estúdio de animação (todos os direitos reservados)

2021 marca os 50 anos da morte da estilista francesa Gabrielle "Coco" Chanel e há
muito para comemorar, afinal a herança que ela nos deixou na área fashion é de uma
riqueza sem paralelos na História da moda moderna.

Foi ela quem aboliu de vez o espartilho no início do século 20 e trouxe o conceito atual do guarda-roupa feminino como o pretinho básico, as pantalonas, o casaquinho com botões dourados, o uso do azul marinho com o branco, a bolsa com alças e muito mais.

É, porém, uma de suas criações mais famosas, o perfume Chanel N°5 - além de uma
paixão na idade madura pelo Barão Hans Günter Von Dincklage, diplomata germânico
10 anos mais jovem que ela - que a levou a se envolver com o regime nazista na França ocupada pelos alemães, durante a Segunda Guerra Mundial.

O romance se mostrou providencial, pois na verdade o Barão, também conhecido
como Spatz, era um agente da Gestapo - a polícia secreta nazista - e foi por meio dele que Chanel primeiramente conseguiu a libertação de seu sobrinho, o soldado André Palasse, que havia sido capturado como prisioneiro de guerra.

No entanto, são os seus interesses em relação aos direitos do perfume Chanel N° 5 que a levam a tomar decisões bastante controversas com o passar do tempo. Os investidores de sua fragrância e detentores majoritários na perfumaria, a família Wertheimer, de origem judaica, não age como ela gostaria e Chanel abusa de sua situação como ariana junto à administração nazista em território francês, para requisitar o controle total da empresa Perfumes Chanel.

Mas ela sofre um revés, pois descobre que é outro francês cristão quem oficialmente
está à frente do empreendimento: um verdadeiro acordo de cavalheiros entre a família
Wertheimer e o amigo Félix Amiot, que manteve as ações da Perfumes Chanel em seu
nome durante a ocupação nazista e, depois da guerra, devolveu a empresa aos
irmãos Pierre e Paul Wertheimer.

“Afinal, os alemães têm negócios em andamento com o fabricante de aeronaves Félix Amiot e inúmeros pedidos de aviões em vias de entrega. Os esforços de guerra estão acima das necessidades pessoais, e o industrial mantém a direção da empresa”.

Esse trecho acima faz parte da minha narração no podcast a seguir. E é a partir de frustrações nesta área que Coco Chanel resolve atuar como espiã.

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Ficha documental que evidencia que Gabrielle Chanel (aqui com a grafia ‘Chasnel’) usou o codinome Westminster - em referência a um antigo amante inglês - como agente secreta nazista /Crédito: Domínio Público

Os documentos que comprovam a participação de Coco Chanel como agente da Abwehr - a inteligência militar alemã - se tornaram públicos no ano de 2014, por meio da pesquisa e divulgação do arquivista Frèderic Quéguineur junto ao Ministério da Defesa francês.

A missão, chamada ‘Modellhut’, se inspirou em suas criações de chapéus. No episódio de hoje do podcast ‘Aventuras Narradas e Moda com História’, entenda os detalhes do polêmico envolvimento de Chanel com o Nazismo.



Laura Wie é especialista em História da Moda e idealizadora do projeto 'Moda com História'.